22/03/2026
Hamnet.
É uma obra dirigida por Chloé Zhao, estrelada por Jessie Buckley e Paul Mescal. Adaptação do romance de Maggie O’Farrell, e não se constitui uma reconstituição documental, e sim ficção histórica.
O foco do filme é o sofrimento da família Shakespeare após a morte do filho Hamnet.
Minhas reflexões estão infinitas. Vou compartilhá-las em gotas.
A decisão mais importante de Hamnet é retirar William Shakespeare do centro do mito cultural, e deslocar o eixo dramático para o Materno: o filme deixa de ser a história “sobre um grande gênio”, e passa a ser uma narrativa sobre trabalho afetivo, corporal e silencioso do luto, em especial o luto de mulheres, o luto de mães. Isso muda tudo. A pergunta essencial do filme é incômoda e humana: o que acontece com uma casa, um casal, uma criatura humana e um corpo materno quando a perda desmonta a linguagem?
Hamnet não trata a dor como mais um tema importante da essência humana. Revela um drama histórico que evita a solenidade acadêmica e valoriza a sensorialidade afetiva: paisagem, corpo, silêncio, textura doméstica, respiração, intervalos, ritmos.
A força está em recusar o luto como discurso pronto. O luto, no filme, parece não caber inteiramente em palavras; por isso a imagem, o ritmo e a presença física dos atores precisam carregar o que a linguagem não dá conta de conter.
É uma escolha coerente com a própria natureza da perda: o enlutado frequentemente não “narra” o que sente; ele habita um tempo alterado.
O risco das escolhas da direção da obra está em que a beleza visual possa romantizar o sofrimento. Quando a devastação é filmada com grande refinamento, o cinema caminha numa linha tênue entre testemunhar a dor e emoldurá-la. Hamnet quase encosta nesse perigo, mas a intensidade de Buckley, essa mulher gigantesca que surge da intuição, magia e mistério que emergem da floresta que habita o arquétipo da “mulher selvagem”, impede que a dor vire ornamento.
Um arraso de filme, o cinema nem respirava.
Volto depois para mais um pouquinho dessa delícia que é essa arte: cinema…