15/04/2019
Porque a depressão persegue aos que fazem sucesso?
Freud conceitua em 'Luto e Melancolia'(1917) um mecanismo psíquico no quadro depressivo de auto repreensão inconsciente, que pune e condena a si próprio. Quem vê de fora, sobretudo em casos de sucesso externo e conquistas, não entende o abatimento da pessoa em depressão.
Há na cultura ocidental o mito do cavaleiro Parsifal, que após conquistar o estágio de cavaleiro na corte de Arthur, é surpreendido pela visita de uma donzela tenebrosa que, apontando todas as faltas acometidas pelo cavaleiro ao longo de seu percurso, condena-o culpado dos danos consequentes. Não há como se esconder ou contra-argumentar, pois os acontecimentos são verdadeiros e deixam Parsifal envergonhado.
A única maneira de se livrar da presença desta donzela tenebrosa é aceitar uma jornada de reparação que ela distribui ao cavaleiro. A jornada é árdua e Parsifal só reencontra paz interior quando se encontra com um tio Eremita, que lhe dá a direção seguinte.
Muitas vezes nos vemos sendo visitados pela mesma donzela tenebrosa, em fases de conquistas e prosperidade de nossas vidas. É como se restasse em nós um mal-estar, que quem está vendo de fora, não consegue entender a causa ou origem, mas nos envergonha profundamente, podendo de fato abater-nos ao desânimo e desamparo.
A parábola mitológica sugere que em casos assim há uma tarefa a ser realizada - uma tarefa de reencontro com o inconsciente e com o que se deixou pra trás durante o percurso - para poder desfrutar, sem maiores culpas, do posto atual que a pessoa logrou alcançar por seus méritos.
Não há necessidade de nenhum ato imoral ou injusto ter de fato se consumado - o que sabemos é que o inconsciente está demandando uma audiência no tribunal de contas. Para saber qual é a tarefa de remissão, é preciso que se escute o que esta dor está dizendo e está requerindo.
Sugestão de leitura complementar: https://www.stand-magazine.com/considering-wounded-masculinity-through-parsifal-and-the-fisher-king/