16/05/2020
Vocês pediram, né?! O tio não resiste!
Sabe quando você tem um sonho tão real que, ao despertar, f**a em dúvida se ele de fato não aconteceu? Ou quando você está sonhando e tem a consciência de que é um sonho e que pode acordar a qualquer momento? Imagine acordar no meio desse sonho e não conseguir comandar seu corpo. Você tenta levantar da cama e não consegue, tenta gritar e as palavras não saem. Ao mesmo tempo em que enxerga onde está e o que acontece ao redor, suas funções motoras não lhe pertencem mais. E a sensação é de que a respiração f**a mais difícil, devido a uma força inexplicável que pressiona seu peito. E pra piorar, você tem a sensação de que não está só.
Poderia ser uma ficção escrita por Stephen King ou a sinopse do mais novo filme de M. Night Shyamalan. Porém, trata-se de algo real vivido rotineiramente por um grande número de pessoas. Essa condição tenebrosa é conhecida como paralisia do sono, uma condição que pode ocorrer com qualquer pessoa, em qualquer idade. É uma forma de parassonia, ou seja, é um transtorno comportamental que ocorre+- durante o início do sono, durante o sono ou o despertar.
Pois bem, mas o que é essa paralisia do sono, tio?
De maneira bem objetiva e didática, a paralisia do sono é quando o cérebro acorda, mas os músculos não, e você não consegue se mexer. Ela acontece quando a pessoa desperta durante o REM – que ocorre várias vezes durante a noite. No breve período de paralisia, que dura apenas alguns minutos (porém a sensação é de um longo tempo), a pessoa acorda e f**a completamente consciente de si mesma e de seus arredores, mas seus músculos permanecem dormentes. Por isso, é incapaz de se mexer.
Mas tio, do ponto de vista neurofisiológico, o que causa essa “desconexão”, entre o cérebro e os músculos??
Vamos do começo. Em uma noite normal, nosso sistema fisiológico de sono se alterna ciclicamente entre dois estados distintos. O primeiro é o sono mais lento (ou sono não REM), que ocupa até 75% do tempo dormido e vai desde um estado de leve sonolência até o sono profundo. É um estágio que costuma ser associado à conservação e recuperação de nossa energia física.
Já o segundo momento é o sono REM (do inglês Rapid Eye Movement), que se caracteriza por uma atividade cerebral maior, semelhante à das horas em que estamos acordados. Durante o sono REM, nosso organismo passa por uma manutenção geral, consolidando a memória, regulando a temperatura corporal, entre outras funções. Essa fase se caracteriza pela ocorrência de movimentos oculares e também por ser o período em que os sonhos tomam forma.
Como é durante o sono REM que a maioria dos nossos sonhos são “gerados”, o nosso cérebro, para impedir que a gente saia fazendo m***a por aí (já basta as que a gente faz acordado, né?), e que nos machuquemos, tem uma solução brilhante: “Desliga” os músculos. Esse processo é chamado de “atonia do sono REM”, e serve para impedir movimentos corporais durante um sonho. O cérebro, para movimentar os músculos no dia-a-dia, emite projeções neurais até a medula espinhal e de lá outras projeções para inervarem os músculos, os chamados nervos motores (neurônios motores alfa), estes jogam acetilcolina nos músculos e pá, eles se contraem e o movimento acontece. Durante o sono REM, o cérebro desliga esse sistema, através de uma inibição pós-sináptica dos neurônios motores, que é resultante da supressão do tônus muscular esquelético pela ponte e pela medula ventromedial, efetuada pelos neurotransmissores GABA e glicina, que inibe os neurônios motores da medula espinhal. Isso é o que ocorre normalmente.
Na paralisia do sono, esse mecanismo de “ativar” e “desativar” a atonia muscular está alterado. Geralmente isso ocorre com mais frequência em pessoas com certas predisposições genéticas, sobretudo quando estamos muito cansados/estressados ou dormindo pouco, e em condições clínicas como ansiedade, depressão. Essas condições alteram o padrão de liberação de algumas substâncias cerebrais conhecidas como “Hipocretinas/Orexinas”.
São elas que regulam a “orquestra” de circuitos neurais envolvidos na dinâmica do sono, por ex, existem circuitos colinérgicos, serotoninérgicos, histaminérgicos, noradrenérgicos e GABAérgicos envolvidos com o sono, e a fluidez do sono decorre de uma série de ativações e desativações sequenciais desses grupos de neurotransmissores. As Hipocretinas são os maestros, e fazem tudo isso ser bem coordenado fazendo o sono transcorrer sem incidentes “anormais”.
Quando o sistema das hipocretinas é alterado, isso leva a desregulação dos outros circuitos de neurotransmissores, os fazendo se “ligar” e “desligar” em momentos errados, o que causa a “intrusão”, ou seja, o intrometimento de fenômenos do sono REM durante a vigília, fazendo assim com que a transição do sono para o estado de vigília não seja tão fluida e automática. Isso explica por que a paralisia do sono é tão presente em pessoas com narcolepsia (que também tem disfunções no sistema de Hipocretinas).
Assim, de maneira mais técnica, a paralisia do sono ocorre quando a atonia do sono REM continua mesmo ao despertar. Aqueles “minutos” em que a pessoa não consegue se mover, representam o momento de transição entre o sono e o estado de vigília. É quando as funções de consciência voltam, mas as musculares estão bloqueadas e a estrutura do sono REM está parcialmente funcionando, ou seja, quando há uma saída abrupta do sono REM e nossos músculos encontram-se completamente relaxados e assim os nossos sentidos “despertam” primeiro que os músculos. A pessoa até enxerga onde está, mas é incapaz de se mover ou mesmo de falar. E esse estado muitas vezes vem acompanhado por alucinações oníricas, onde objetos e criaturas podem aparecer junto aos elementos do ambiente ao redor e interagir com a pessoa paralisada. É literalmente sonhar de olhos abertos e não conseguir acordar. Ou seria ter pesadelos?
E do ponto de vista neurofisiológico, o que seriam essas alucinações e essas sensações distorcidas??
A pressão no peito, dificuldades respiratórias e dor, é atribuída aos efeitos da hiperpolarização dos motoneurônios nas percepções da respiração. As experiências corporais incomuns, por ex a de sensações flutuantes/voadoras (tipo uma abdução também) e experiências extracorpóreas, está relacionado a experiências fisicamente impossíveis geradas por conflitos de ativação endógena e exógena relacionadas à posição, orientação e movimento do corpo. Durante o sono REM, os lobos parietal e temporal trabalham bastante, e são eles que estão envolvidos na sensação, percepção e integração das entradas sensoriais com sistema visual, especialmente a região parietal superior.
Normalmente, em um indivíduo ativo, o lobo parietal recebe informações através do lobo frontal ou cerebelo, e isso fornece informações sobre a posição do indivíduo em relação à parte e movimento do corpo, fazendo com que o córtex motor oriente os músculos a se comportarem baseado nisso, criando, em termos de percepções, uma variedade de sensações e noções de espaço. Na paralisia do sono, a propriocepção (informações sobre a posição e função das partes do corpo) está ativada, porém o córtex motor não tem “sucesso” em ativar os músculos, gerando um conflito na interpretação das sensações de movimento do corpo. Ou seja, o cérebro buga porque ele tenta mover o corpo, mas não há movimento real, porém ele sabe que os membros ainda estão ali.
Essa região nos ajuda a construir uma “imagem corporal” ou um tipo de representação neural do eu, com base nas informações que recebe dos sentidos. A junção temporoparietal, que também é crítica para nossa capacidade de distinguir entre "eu" e "outro", normalmente é desativada durante o sono REM. É por isso que há um afrouxamento do senso de si quando sonhamos: às vezes nos vemos da perspectiva de uma terceira pessoa, e outras vezes o eu ocupa o corpo de outra pessoa.
Talvez mais angustiante do que se “sentir” um fantasma, seja ver um. A paralisia do sono é indiscutivelmente mais tensa em relação a “sentir uma presença no quarto”. A "criatura" geralmente está à espreita no escuro distante, aproximando-se lentamente de sua vítima. A partir daqui, todos os tipos de coisas ameaçadoras acontecem, tão incontáveis quanto a imaginação pode se esticar. Geralmente, o intruso engasga e sufoca a pessoa esmagando o peito ou pressionando o pescoço. E, ocasionalmente, a criatura estupra brutalmente o dormente paralisado (credo). A figura geralmente aparece simplesmente como uma sombra escura, semelhante ao tamanho e forma humanos. Mas também pode aparecer como um rosto demoníaco assustador e incluir recursos detalhados, por exemplo, características de animais, como dentes afiados e olhos de gato.
Essas “sensações” surgem também da perturbação no processamento do "eu" e do "outro" na junção temporoparietal, resultando em uma projeção alucinada do próprio mapa corporal; a mente literalmente lança uma sombra, assim como o corpo. À medida que a barreira entre o eu e o outro se dissolve, a pessoa confunde sua própria “sombra” (ou modelo corporal) com uma entidade separada. E como o "sistema de detecção de ameaças" do cérebro em alerta máximo (também conhecido como "hipervigilância de ameaças"), é ainda mais provável que interpretemos a sombra humana como uma entidade maligna ou alguma criatura.
Além disso, nosso cérebro considera altamente improvável que a pressão no peito, sensações de asfixia, respiração rápida (que são causadas pela fisiologia do REM) e, acima de tudo, vendo um vulto, ocorram por acaso. Dependendo da ativação do sono REM, a figura sombria pode assumir todos os tipos de formas e dimensões sofisticadas, o que vai piorar a bagaça toda. Nesse ponto, a memória e as habilidades narrativas de outras regiões do cérebro desempenham um papel na alucinação em evolução.
E por que é tudo muito bizarro também?
Os circuitos neurais associados à vigília, como o córtex pré-frontal dorsolateral que nos ajuda a organizar nossos pensamentos lógicos e analisar as coisas de maneira racional, são desativados durante o REM. Porém, durante a paralisia do sono, há uma ativação parcial dessa região, resultando num tipo de consciência híbrida que combina os sonhos surreais e a racionalidade da vigília. E assim há um misto de interpretação racional (estou sentindo essas coisas e realmente não posso me mexer) com uma lúdica (há alguma entidade aqui comigo).
Resumindo, a paralisia do sono surge quando vários circuitos neurais que regulam o sono e a vigília são alterados pela perda de coordenação de seus ciclos de “on” e “off”, levando a um bug no cérebro, que não entende muito bem a diferença entre estar dormindo e acordado e nos leva a experimentar uma miríade de sensações e percepções. Tudo é bem sinistro, né!? Tá vendo o poder do nosso cérebro!? É ele quem cria a realidade. E é isto. Xeru do tio. Aquela compartilhada de leve pra fortalecer. Ah, e me marca! Te amo!aclerton
Vem fazer os cursos de fisiologia com o tio pra entender detalhadamente como funciona o corpo humano. É só clicar no botão "WhatsApp", aqui em cima no facebook (lá você se informa sobre os nossos planos de assinatura e tira qualquer dúvida que tiver) ou vc pode mandar uma mensagem aí que eu respondo. É isto.