23/07/2022
Precisamos falar mais sobre transferência. A transferência é o que permite que você ache alguém péssimo e seu amigo ache o mesmo alguém ótimo. Somos diferentes em cada relação. Então, o correto seria dizer "na transferência comigo, fulano é péssimo". Considerar a transferência significa considerar que nas interações humanas há um "pano de fundo" afetivo, inconsciente, que de certa forma dita como nos sentimos, o que esperamos e como nos relacionamos. É por conta desse "caldo" afetivo que alguns encontros alimentam e outros azedam.
Recentemente vi um vídeo de humor no qual uma mulher contava que saiu com um rapaz que lhe disse que queria ser humilhado. Ela "chorou de rir". O namoro não andou, obviamente.
Somos todos dramaturgos no inconsciente, criando as nossas novelas e se os capítulos combinam, os sujeitos vão construir algo juntos. Mas se, ao contrário, a história de um parece ao outro risível, perigosa ou desinteressante, aí não vai rolar.
A transferência é o que dá o tom dos encontros e por causa dela alguns encontros parecem um "conto de fadas", alguns parecem uma comédia e outros, ainda, podem parecer uma história de terror.
Fosse a psicanálise mais popular, fossem os processos psíquicos mais observados, ninguém diria simplesmente eu não gosto de fulano, iríamos mais a fundo: os sonhos de fulano não combinam com os meus, as fantasias de fulano não dialogam com as minhas. Ou não dialogam mais. Porque as fantasias não devem ser prisões e, num psiquismo saudável, não são.
O que vai se descobrir numa análise é que algumas relações se sustentam mais na fantasia do que no afeto. E, por vezes, em fantasias empobrecidas. Não raro o casamento do "eu quero que você me humilhe" acaba depois que o "eu gosto de te humilhar" começa a fazer análise.
E assim, relações começam, terminam e a ex-mulher do que gostava de ser humilhado hoje o acha um carinha desprezível e o seu melhor amigo continua achando ele um cara super legal. Transferência.