26/03/2026
Todo mundo merece dizer adeus
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet acompanha a história de Agnes e William Shakespeare antes e após uma perda irreparável. (estou evitando o spoiler). William não estava presente durante o acontecido, então encontra na escrita um jeito de dizer adeus e lidar com seus lutos.
Hamlet - uma das maiores peças da história - nasce daí, como uma tentativa de transformar algo tão doloroso em uma nova emoção, ou várias outras.
A gente não fala muito sobre perda, né? Aprendemos cedo a comprimir, não pensar no fim, a tratar a morte como uma inconveniência.
E talvez seja exatamente por isso que o luto pega a gente de surpresa. Porque nunca nos prepararam pra ele. Nunca nos ensinaram que perder faz parte de amar, que o adeus é o preço do encontro.
E é um preço alto, acredite, eu sei.
Mas o que nos resta além do adeus se a nossa única certeza é a partida?
E o que fazemos com a dor que não tem lugar pra ir?
Ana Cláudia Quintana Arantes, em A morte é um dia que vale a pena viver, escreve que a dor do luto é proporcional à intensidade do amor vivido. E que é por meio desse mesmo amor que a gente consegue se reconstruir.
Quando li esse livro (a pedido da minha psicóloga) não achei que foi co***lo, aliás, achei um tanto cruel que a mesma coisa que dói seja o que salva. Que o adeus só pesa tanto porque o encontro valeu muito.
Mas vendo Hamnet, entendi. William não desfez a dor da perda, mas fez com que ela virasse outra coisa. E penso que esse seja o único adeus que a gente consiga dar: não o que encerra, mas o que transforma.
Todo mundo merece dizer adeus.
Seja como for, no tempo que for, do jeito que der.
Texto escrito por Eliza Gouveia, estrategista de conteúdo do Canto Baobá.