02/01/2026
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𝔻𝕖𝕥𝕠𝕩 𝕕𝕖 𝔸𝕟𝕠 ℕ𝕠𝕧𝕠
Começa o ano
e o ritual conhecido:
promessas em fila,
resoluções recém-impressas,
expectativas estourando cedo demais,
como fogos que fazem barulho
antes de iluminar qualquer coisa.
É janeiro
e o mundo exige melhora.
Rápida.
Visível.
Comprovável.
Faça listas.
Limpe a vida.
Recomece antes mesmo
de entender o cansaço.
O corpo ainda mastiga dezembro,
mas o discurso já corre adiante,
ansioso por resultados,
por versões futuras de si.
Detox do corpo.
Detox da mente.
Detox digital.
Detox emocional.
Detox de gente.
Como se viver fosse um erro acumulado
e o calendário oferecesse
uma borracha branca
para apagar o que incomoda.
Há quem comece o ano
expulsando excessos:
o açúcar,
a lentidão,
os vínculos que exigem presença
e não cabem em slogans.
Chamam isso de autocuidado.
Às vezes é só exaustão
tentando se organizar.
Porque o que intoxica
não é só o excesso,
é o excesso sem pausa.
Não é o pão,
é a culpa.
Não é o celular,
é a sensação de nunca poder descansar
do mundo,
nem de si.
O mundo pede leveza
enquanto acumula peso.
Pede clareza
num tempo de ruído
e urgência.
Talvez o único detox possível
não venha em cápsulas,
nem em aplicativos.
Talvez seja algo menor,
menos heroico,
mais habitável.
Desintoxicar da ideia
de que todo ano precisa ser épico.
De que toda dor exige superação imediata.
De que toda vida precisa caber
num antes e depois.
Menos metas.
Mais margem.
Menos correção.
Mais escuta.
[...]
Talvez o verdadeiro detox
não seja cortar o pão,
nem as redes,
nem as pessoas difíceis.
Talvez seja suspender,
por alguns dias,
a necessidade de explicar tudo.
Deixar que o ano comece
sem promessa inflada,
sem plano de salvação.
Mas com um suspiro lento e profundo.
Com algum silêncio que não assusta.
Com escolhas pequenas,
feitas com cuidado.
Porque viver pode ser muito bom
quando não tentamos limpar a vida,
mas sustentá-la
com aquilo que f**a,
mesmo imperfeito,
mesmo nosso.
Texto completo no link:
https://rennenunes.com/2026/01/02/new-year-detox/