12/01/2026
(SEM SPOILER) All Her Fault é um indigesto soco no estômago para nós, mulheres, especialmente para nós, mães. Não tem como assistir sem se sentir revoltada, indignada, tocada em um lugar profundo de solidão materna. Solidão essa que vai muito além de ter ou não pessoas ao lado; é a solidão da sobrecarga física e mental instituída às mães, sempre em proporções diferentes — ocorrendo mesmo com as ricas, como na série, e mesmo com as que têm rede de apoio.
A indigestão da série vem, especialmente, do escancarar de como evoluímos, sim, com o movimento feminista, com o lugar social e a liberdade da mulher/mãe, mas sobre como ainda precisamos caminhar passos LARGOS como sociedade.
Uma sociedade que mascara, mas ainda se comporta pela máxima: “o filho é só da mãe” e “quem pariu Mateus que o embale”. O pai é visto (e grande parte ainda também se vê assim) como rede de apoio, suporte quando possível, não como responsável pela vida dos filhos.
Ainda hoje, em 2026, quando estou sem meu filho, escuto de pessoas: “Você deixou o bebê com o pai? Tem coragem?”, “E ele sabe cuidar?”, ou mesmo elogios de como o pai é absolutamente incrível apenas por ficar com o próprio filho para que a mãe faça a unha. Ainda lidamos diariamente com pais que fazem seu papel recebendo elogios e endeusamento constantes, enquanto nós, mães, somos vistas como tendo a obrigação de sermos incríveis o tempo todo, faça chuva ou faça sol.
Mulheres aprendem a naturalizar o fato de serem responsáveis por todos os cuidados dos filhos, serem agendas ambulantes, com memória infalível (mesmo com noites sem dormir), lembrando de vacinas, medicações, roupas, demandas da casa, etc. Muitas vezes (como mostrado na trama), ainda naturalizamos ser agenda também dos maridos, gerenciando compromissos, saúde e vida social. Aprendemos que isto é papel da mulher, pois “só nós sabemos fazer, os homens não sabem” — uma desculpa para nos sobrecarregarmos, acreditando que é um mérito.
A indigestão também vem do escancarar de como facilmente as mulheres são responsabilizadas por tudo, carregam fardos enormes por culpas que são masculinas a vida toda e como facilmente são vistas “como loucas”.
(Continua) 👇