02/12/2025
Ana Suy diz que: “O amor é um misto de bancar a solidão com ter sorte, atravessado por um encanto com um outro que insiste”. O amor, e as relações românticas, não são uma fórmula matemática exata, mas nossa neurose, ainda mais em tempos de neoliberalismo, onde acreditamos que tudo se compra e manda fazer ao nosso gosto, nos fazem acreditar que as relações também podem ser um produto, criado e projetado para atender todos os nossos desejos (e até os desejos que nem sabemos que temos).
Passamos uma vida toda acreditando em um discurso de que encontraremos nossa alma gêmea, acreditando que a alma gêmea está no espelho, no igual: mesmos planos, mesmos desejos, mesmos gostos. É aquela projeção fantasiosa de “alguém que complete minhas frases antes que eu as termine”. Acreditamos que o espelho é a fórmula da felicidade, em primeiro lugar, como se nós amássemos a nós mesmos “tanto assim”, por inteiro, e por consequência fôssemos amar este outro igual. Somos seres divididos, que nos amamos e odiamos, tudo ao mesmo tempo; que não nos conhecemos por inteiro; que muitas vezes “jogamos contra nós mesmos”, e nos surpreendemos e decepcionamos com o desconhecido e assustador em nós. Então, esta “alma gêmea espelho” não seria uma boa ideia, não é mesmo? Mesmo se ela existisse! E que tédio seria...
O amor costuma ser um encontro, nem de iguais, nem de opostos completos, mas de sintomas. Amamos o outro pelo que sabemos, o que é racional: planos, desejos, sonhos, gostos semelhantes, química, afinidade... e também pelo que é diferente e pelo “que nem sabemos o que é”. Algo que aquele outro desperta em nós que nos equilibra, incomoda e movimenta.
Em “amores materialistas” vemos um amargo retrato das relações-produto no neoliberalismo. Pessoas fixadas em uma posição infantil de “a majestade o bebê”, acreditando que parceiros amorosos podem ser como se pedisse uma imagem hoje na IA. Muitas vezes nos iludindo com a fantasia que criamos do outro no maior estilo “casamento às cegas” e não conseguindo despir um tanto desta fantasia para verdadeiramente ver este outro, em quem ele é.
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