09/02/2026
Eu cresci falando que seria médica.
Minha avó cuidava da família toda. Eu era pequena, e f**ava ali ao seu lado, em pé numa cadeira verde, com o estofado rasgado, e a mola querendo saltar de dentro. Ficava ali mexendo o feijão que ela colocava nas minhas panelinhas. Experimentando o mundo com entusiasmo.
Muitas crianças brincavam de boneca mas eu gostava de brincar de cozinhar. Observava os temperos com esmero, como quem estuda farmacologia. Curiosa, concentrada e calada. Enquanto isso ela me ensinava que alho cura, caldo sustenta e sopa é capaz de afagar a alma.
Anos depois veio a faculdade: anatomia, fisiologia, protocolos, artigos científicos. Tudo absolutamente necessário. Mas, no fundo, eu já sabia de uma coisa que não estava nos livros: Corpo nenhum recupera a saúde na ausência de cuidado, presença, reconhecimento.
A Nutrologia está emaranhada nessa trama toda, presente em cada detalhe da minha construção.
Eu não trato só exames. Eu trato gente cansada, inflamada. Gente que desaprendeu a comer.
Meu ofício é quase uma extensão daquela cozinha grande de ladrilho vermelho.
Troquei a colher pelo estetoscópio. Cada prescrição carrega um pouco da minha vó. Cada paciente que evolui bem, é como se eu ouvisse seu famoso jargão: “Comida também cura.” E eu sigo fazendo o que aprendi desde pequena. Colocando amor no fogo baixo. Aguardando o tempo certo. Porque saúde boa é igual feijão de vó. Não se apressa.