26/03/2026
Acho que a Slimani em Canção de Ninar fez pelas babás o que o Spielberg fez pelos tubarões em Jaws. Rá! Por isso não recomendo esse livro às mães que têm filhos ainda em fase de desenvolvimento infantil, porque literatura também é se angustiar, mas talvez este seja um pouco forte demais para a cabeça de uma mãe.
Por outro lado, o livro é bom também para pensar a precariedade da classe trabalhadora, da solidão, de como num momento de desespero o trabalhador precariezado pode cometer atos inimagináveis. Inclusive imaginei a Isabelle Huppert de 30 anos atrás ao visualizar a personagem Louise, é um tipo de papel que ela faria facilmente se a adaptação fílmica do livro não fosse de 2019 e ela já estivesse idosa.
Sem falar que Canção de Ninar possui um dos mais impresionantes parágrafos iniciais da literatura contemporânea, que até vou deixar aqui, continuem por sua conta e risco:
"O bebê está morto. Bastaram alguns segundos. O médico assegurou que ele não tinha sofrido. Estenderam-no em uma capa cinza e fecharam o zíper sobre o corpo desarticulado que boiava em meio aos brinquedos. A menina, por sua vez, ainda estava viva quando o socorro chegou. Resistiu como uma fera. Encontraram marcas de luta, pedaços de pele sob as unhas molinhas. Na ambulância que a transportava ao hospital ela estava agitada, tomada por convulsões. Com os olhos esbugalhados, parecia procurar o ar. Sua garganta estava cheia de sangue. Os pulmões estavam perfurados e a cabeça tinha batido com violência contra a cômoda azul."
Para quem já o leu, venham para o encontro às 19:30 (26/03) pelo .psicanalise