12/01/2026
Quando um cliente não consegue chegar ao valor de um trabalho seu, raramente é apenas sobre dinheiro. O preço, nesse momento, torna-se um espelho incômodo: reflete limites, frustrações e, sobretudo, a dor de reconhecer a própria impossibilidade.
Na psicologia, esse movimento é conhecido como mecanismo de defesa. Diante da frustração, o ego busca preservar sua integridade deslocando o conflito para fora. Em vez de entrar em contato com a sensação de perda, insuficiência ou dependência, o sujeito transforma aquele que cuida em inimigo. Assim, o valor deixa de ser um dado concreto e passa a ser vivido como afronta.
Como observou Sigmund Freud, “o ego não é senhor em sua própria casa”. Quando confrontado com limites, ele reage não com lucidez, mas com proteção — ainda que essa proteção se manifeste como desqualif**ação do outro.
Há também um componente profundamente humano: aceitar o valor de algo é reconhecer seu valor simbólico. E reconhecer valor implica reconhecer necessidade. Para muitos, isso é intolerável. Jean-Paul Sartre já alertava que “o inferno são os outros”, não porque os outros sejam maus, mas porque eles nos devolvem imagens de nós mesmos que não estamos prontos para aceitar.
Na filosofia, essa atitude encontra eco na antiga fábula da raposa e as uvas, registrada por Esopo: ao não alcançar o que deseja, a raposa conclui que as uvas estavam verdes. Desqualif**ar torna-se mais fácil do que admitir o desejo frustrado.
Por isso, aquilo que antes era visto como cuidado passa a ser reinterpretado como exploração; o vínculo, como engano; o trabalho, como exagero. Não porque tenha mudado de fato, mas porque a narrativa interna precisou mudar para aliviar a dor. Como escreveu Friedrich Nietzsche, “quem luta com monstros deve cuidar para não se tornar um deles” — às vezes, o monstro é o ressentimento que nasce da impotência.
No fundo, demonizar é uma tentativa desesperada de restaurar a própria dignidade ferida. É mais suportável pensar que o outro errou do que aceitar que, naquele momento, não se pôde ir além. Segue👇🏽