04/03/2026
Hoje o calendário marca o Dia Mundial da Obesidade.
Mas, para mim, não é uma data. É a minha vida, minha rotina.
Sou endocrinologista.
Estudo obesidade.
Trato obesidade.
E vivo com obesidade.
Então, quando alguém resume essa doença a “força de vontade”, eu não escuto apenas como médica.
Eu escuto como quem sente o peso do julgamento antes mesmo de abrir a boca.
Para mim, todo dia é dia de explicar que obesidade é doença crônica.
Todo dia é dia de lembrar que fisiopatologia não é opinião.
Todo dia é dia de defender que tratamento não é atalho.
Mas também é dia de luta silenciosa.
É dia de provar minha competência antes mesmo de provar conhecimento.
É dia de ocupar um espaço onde muitos ainda esperam que o especialista tenha “corpo de autoridade”.
É dia de enfrentar o preconceito — às vezes explícito, às vezes sutil.
Existe algo profundamente contraditório em ser médica da obesidade e carregar no próprio corpo a doença que estudo.
E, ao mesmo tempo, existe algo profundamente coerente.
Porque eu não trato números.
Eu trato pessoas.
E sei, por dentro, que obesidade não é falta de caráter.
É biologia.
É contexto.
É história.
É cronicidade.
Hoje, muitas páginas vão falar sobre estatísticas.
Sobre prevalência.
Sobre novos medicamentos.
Eu quero falar sobre respeito.
Porque para quem vive essa doença — como paciente ou como profissional — não é uma pauta anual.
É uma construção diária.
Para mim, todo dia é Dia da Obesidade.
E todo dia eu escolho estar do lado da ciência.
E do lado do paciente.
Inclusive quando o paciente sou eu. ❤️