05/01/2026
Uma das minhas metas para 2026 é ler (ainda) mais — e ir compartilhando isso com vocês.
Então, vamos começar.
No dia 31/12 iniciei Uma delicada coleção de ausências, da Aline Bei. Ganhei o livro de presente na confraternização do Conectadas, meu grupo de estudos da teoria freudiana.
Eu já havia sido capturada pela escrita da autora em Pequena Coreografia do Adeus — um dos meus livros preferidos da vida. Sendo assim, minhas expectativas para este novo título eram altas.
A escrita segue impecável. Poética, ela transforma o cotidiano em algo bonito, mesmo quando é dolorido. Há algo de profundamente inspirador na forma como Aline constrói suas palavras.
A história é pesada — e muito real. Terminei a leitura dois dias depois, impactada, com lágrimas nos olhos. Passei os dias seguintes refletindo sobre seus temas centrais: trauma, transgeracionalidade (a transmissão inconsciente de padrões e sofrimentos entre gerações), ambivalência, mecanismos de defesa — e tantos outros aspectos que encontramos diariamente na clínica.
Freud, em O mal-estar na cultura, já nos alertava sobre a condição humana e sua ambivalência. Aline, com sua maestria na escrita, constrói um arranjo que posso tentar resumir assim: há bondade e maldade em cada sujeito, e jamais podemos esquecer disso. Ninguém — absolutamente ninguém — é uma coisa só. É preciso estar atento aos sinais e às permissões.
Por fim, a leitura também me convocou a uma reflexão, a partir do que o livro mobiliza. Ciclos de abuso só podem ser interrompidos quando ganham voz. Em alto e bom som. Especialmente para nós, mulheres, é preciso reconhecer que se indignar, gritar, lutar e reivindicar pode ser um caminho possível para romper silêncios históricos e transformar um mundo ainda tão duro e cruel no que diz respeito aos abusos cometidos contra nós.
O livro é nota 10. Mas é importante saber: pode gerar gatilhos.