20/07/2017
Foi bem assim: a gente morava em 33m² do espaço aéreo de São Paulo, mais especificamente no 9° andar do bloco B de um edifício que apelidaram, não por acaso, de Pombal. Lá as pessoas eram sempre de fora e estavam sempre de passagem, como eu e o Rafa. A gente estava sempre ocupado: hospital, plantão, trânsito, ir para casa dormir – e tudo isso outra vez, outra vez, outra vez. Foi quando iniciamos um gradual desmame da cidade grande e finalmente chegamos em Sorocaba, uma cidade grande, mas não tão grande assim. Tínhamos um quintal com grama e uma aceroleira, um campinho público na frente de casa que nós apelidamos carinhosamente de Nossa Floresta, onde as pessoas iam colher amoras do pé. Eu sabia o nome dos vizinhos, batia papo na porta de vez em quando de uma ou outra, fazíamos piquenique no parque com as crianças e nos encontrávamos em espaços maternos para prosear. Aí já éramos três, e no pequeno quintal passaram inquilinos coelhos, galinhas, cães e gatos. A vida era boa por causa das relações de afeto que nos conectava àquela cidade, pessoas que ainda hoje moram em nosso coração.
Mas, sabe, a gente adoeceu. Adoecemos da urgência. Do tempo que nunca dava. Da necessidade de correr contra esse mesmo tempo, que de aliado virava um cobrador de tarefas. Essa era a escolha que conseguíamos fazer ali, pelas demandas em todos os níveis que colocávamos para nós mesmos. O Rafa acordava todas as manhãs para um trabalho que sufocava a voz e desconstruía sonhos – mas que pagava nossas contas e que, lá no fundo, ele mantinha com um raio de esperança. Eu passava o dia com a Bel e tentava ir apanhando esses sonhos do chão e encontrando espaços de suspiro para eles. Mas até eu me sentia muitas vezes sem ar. Quem diria, estávamos sempre cansados. Um cansaço crônico, daqueles que a gente se acostuma e nem percebe mais que a vida pode ser de outro jeito. Mas ele não existe por acaso, ele está ali, sinalizando que a gente está fazendo um baita esforço, apesar do lugar meio cômodo, para nos mantermos longe do nosso propósito.
Então, sem desmame gradual, sem aviso prévio, sem planejamentos em cartilhas de médio e longo prazo, vendemos todos os nossos excessos de bagagem numa despedida amorosa desses acúmulos que trazíamos até ali e deixava a vida pesada demais. Os externos e muitos internos também. Olhamos com honra e gratidão para aquela caminhada que se encerrava, abraçados pela coragem, pelas palavras de incentivo, e envolvidos pela fé, que já haviam nos dito, não costumava falhar… Simplesmente fomos! A gente deu um salto antes mesmo de ver o chão, na confiança de que o chão, por graça da abundância divina que aí está para todos nós, estaria lá para nós também. E esteve. O chão, o vento fresco no rosto e o respiro fundo, sentindo verdadeiramente o ar entrar e preencher nossos pulmões. Ah, como é bom respirar! A experiência de entregar, confiar, sentir que é capaz de ser...Feliz.
Pousamos o ninho no pé de uma montanha na linda Serra Grande-BA. Exuberante na sua natureza, sem artifícios ou subterfúgios, somente plena, poderosa, viva. Ah, quanta vida a Terra tem! Aí abracei o mar – e ele nos abraçou – por alguns meses. Nossa chegança foi assim, pequenininha, silenciosa. O mar nos tomava o fôlego, nos inundava de nós mesmos. Ficamos assim por dias, semanas, aceitando os convites generosos do mar de nos preencher de vida. Nosso celular curiosamente quebrou… Finalmente pausamos. Pausamos para podermos gestar os próximos passos. Para acolhermos a nossa família. Para entendermos as possibilidades infinitas que nos são dadas com as escolhas todos os dias. Para mergulharmos nesse olhar para dentro, e nos olharmos nos olhos, sermos sinceros um com o outro, sinceros com a gente mesmo. Muito prazer, eu em mim.
Foram meses de calmaria e terremotos, porque pra limpar a casa a gente precisa tirar tudo do lugar. E o tsunami vinha, invadia mesmo, me mostrava as crenças que me limitavam, as relações que eu precisava curar, as coisas que precisava perdoar, as que precisava aceitar em mim, as que precisava deixar sair. A Isabel, generosa em sua função de filha que escolheu os pais que tem, espelhava tudo que estava em nós – sendo guia, sendo mestre nesse e tantos outros processos para os quais precisávamos olhar. Me recolhi, sentindo necessidade de me conectar comigo mesma, entender meus ciclos, meus ritmos, minha natureza. Cuidar do alimento do meu espírito, me conhecer - o que move a minha alma?
Não foi fácil – e ainda não é. O que tem nessa zona é tudo, menos conforto. Se a gente se muda para “buscar nossos sonhos”, a gente adentra numa jornada que vai além do exterior, do que está posto. Porque os sonhos não estão fora, eles estão dentro, a gente precisa se alinhar a eles, libertar as amarras que não nos deixam fluir para vivermos plenamente como desejamos. Com consciência e auto responsabilização por tudo que acontece – tudo, absolutamente tudo. Com gratidão, infinita gratidão ao Criador de Tudo que É.
Estamos cá nessa vidinha, vivenciando encontros potentes que despertam grandiosamente a humanidade em nós, à la Espinosa saído do papel. Tomamos sol, tomamos chuva, compramos batata doce na feira, investigamos curiosamente as águas-vivas trazidas pelo mar, dançamos, fazemos fogueira, contamos histórias, rimos até faltar o ar. Choramos também. Ficamos por vezes mais preocupados ou ansiosos, mostrando aspectos da nossa sombra que estão ali pedindo atenção e cuidado. Consumimos menos. Estamos encontrando novas relações com o nosso trabalho, de uma forma mais orgânica e que traz sentido para nós. Desconstruindo, reconstruindo paradigmas, sem modelos ou cartilhas, aprendendo sempre, sempre.
Sim, a gente pode! Todo ser pode e merece viver o que faz palpitar de alegria o seu coração. Acordamos todas as manhãs e, em nossas práticas diárias, visualizamos nosso holograma mental, num exercício de nos sentir com tudo que sonhamos para nós, alimentando a nossa força movedora de montanhas. Sim, é possível, todos somos em essência seres únicos, inteiros, completos e perfeitos – Somos Apenas Amor. Tudo é Amor. Viver em consonância com nosso propósito de alma aqui é o que nos conecta à plenitude da Criação.
Silvane Vasconcelos Brotto
Escritora, Pediatra, Mãe e outras coisas mais.
Pelas lentes amorosas do meu grande amor, parceiro de jornada nessa existência Rafael Rajendra Brandalize Brotto