28/05/2020
Dando continuidade à série Microbiota Intestinal, vamos abordar hoje sobre a influência da alimentação nesse contexto. A composição da microbiota intestinal possui características diferentes para cada indivíduo e, mesmo quando essa chega na sua maturidade e apresente uma composição estável, ela pode ser alterada nos indivíduos por estímulos internos e externos (1). Como já vimos, a modulação da microbiota pode resultar em melhoria da saúde geral humana e nos fatores de inflamação que favorecem o agravamento ou aparecimento das doenças cardiometabólicas.
A alimentação é um desses fatores externos que tem uma relação com a composição e a modulação da microbiota, já que usam os nutrientes ingeridos para processos biológicos fundamentais. Dessa forma, mudanças nos padrões alimentares do hospedeiro alteram o metabolismo bacteriano e favorecem as espécies mais adequadas para o uso de fontes de combustível consumidas (1).
Vamos apresentar resultados científicos atuais sobre nutrientes e compostos bioativos da dieta, e como se relacionam com a microbiota:
Carboidratos (CHO):
• CHO simples causam uma alteração na microbiota e disfunção metabólica em estudos com animais, de maneira isolada ou quando combinado com uma dieta rica em gordura e estilo ocidental (2,3).
• CHO complexos se comportam de uma maneira diferente. Possuem fibras na sua composição e outas partes não digeríveis, como o amido resistente, as quais são partes indigestas para seres humanos, mas metabolizada, através de fermentação, por essas bactérias como fontes primárias de energia (1). Estudos apontam que a redução na ingestão de CHO complexos resulta em mudança na composição da microbiota, selecionando aquelas espécies que se alimentam de glicoproteínas da camada de muco intestinal como fonte de energia alternativa. Em longo prazo, isso compromete a integridade da barreira intestinal e aumenta a inflamação e a suscetibilidade a patógenos. Outra consequência é a baixa produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), produtos da fermentação bacteriana, que fornecem energia diretamente aos colonócitos, regulam a expressão gênica, metabolismo energético, a homeostase intestinal e as respostas imunes (1). Esses CHO complexos, com fibras e componentes fermentáveis para as bactérias intestinais, são encontradas em cereais integrais, frutas, legumes, leguminosas, temperos (alho, cebola) entre outros (1,4).
Lipídeos: em estudos com animais, uma dieta gordurosa modifica a composição de bactérias com o aumento do nível do filo de Firmicutes e Proteobacteria e diminuição de Bacteroidetes, essa composição permite a extração de nutrientes com maior eficiência, levando a uma diminuição da perda energética pelas fezes e, assim, é mais um fator para contribuir com o balanço energético positivo(1,5). É importante destacar que o tipo de lipídeo ingerido também influencia nos efeitos metabólicos na microbiota. O alto consumo de gordura saturada provocou resistência a insulina, inflamação do tecido adiposo e reduções na diversidade filogenética, enquanto, o consumo de ômega-3 apresenta resultados como fator de proteção (1). Os alimentos que são ricos em ômega-3 são peixes de água fria e profunda (salmão, atum, sardinha), óleos vegetais, oleaginosas, sementes (chia, linhaça), enquanto a gordura saturada pode ser encontrada em alimentos de origem animal (gorduras da carne vermelha, pele de aves, bacon, leite integral, creme de leite, manteiga) e em alimentos ultraprocessados (biscoitos recheados, sorvetes, chocolates) que utilizam óleo de palma em sua composição. De fato, estudos têm mostrado que, além do óleo de palma estar associado com ganho de peso e ao acúmulo de gordura hepática, seria também capaz de induzir alterações na composição da microbiota intestinal (aumento da proporção de Firmicutes) e na expressão gênica da mucosa (6).
Aditivos alimentares: o impacto dessas substâncias na microbiota humana e no organismo é uma área que precisa ser mais estudada. Em estudos em animais com emulsificantes alimentares (polissorbato-80 e carboximetilcelulose), a obesidade, inflamação intestinal, e a disfunção metabólica foram induzidas na ausência de outras manipulações alimentares. Além disso, estudos com adoçantes tem se associado com alterações metabólicas, como a resistência à insulina (1). Sendo assim, é importante minimizar o consumo de alimentos processados e ultraprocessados e valorizar alimentos naturais e minimamente processados, de acordo com o Guia alimentar para a população brasileira (7).
O PROCARDIO-UFV, um programa de extensão com interface à pesquisa, atende indivíduos com risco ou doenças cardiometabólicas, realizando atendimento nutricional de forma minuciosa e específica para cada pessoa, levando em conta todos os fatores para tratamento. Por isso, procure nossa equipe para mudança de hábito alimentar e planejamento de uma alimentação saudável e adequada.
1- GENTILE, Christopher L.; WEIR, Tiffany L. The gut microbiota at the intersection of diet and human health. Science, v. 362, n. 6416, p. 776-780, 2018.
2- COLLINS, Kelsey H. et al. A high-fat high-sucrose diet rapidly alters muscle integrity, inflammation and gut microbiota in male rats. Scientific reports, v. 6, p. 37278, 2016.
3- MASTROCOLA, Raffaella et al. Fructose liquid and solid formulations differently affect gut integrity, microbiota composition and related liver toxicity: a comparative in vivo study. The Journal of nutritional biochemistry, v. 55, p. 185-199, 2018.
4- NUNES, Michely Lopes; GARRIDO, Marilene Porawski. A obesidade e a ação dos prebióticos, probióticos e simbióticos na microbiota intestinal. Nutrição Brasil, v. 17, n. 3, p. 189-196, 2019.
5- JUMPERTZ, Reiner et al. Energy-balance studies reveal associations between gut microbes, caloric load, and nutrient absorption in humans. The American journal of clinical nutrition, v. 94, n. 1, p. 58-65, 2011.
6- DE WIT, Nicole et al. Saturated fat stimulates obesity and hepatic steatosis and affects gut microbiota composition by an enhanced overflow of dietary fat to the distal intestine. American Journal of Physiology-Gastrointestinal and Liver Physiology, v. 303, n. 5, p. G589-G599, 2012.
7- BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Guia alimentar para a população brasileira. Ministério da Saúde, 2014.