15/05/2018
Relato de parto do pai do Arthur, marido da Gabi S2
PAI... TÔ NORMAL
Parto normal ou cesárea? A pergunta deveria ser: vocês estão bem (o bebê e a mulher)? Impressiona como as pessoas se interessam primeiro por qual modo nossas crianças vêm ao mundo. Antes mesmo de saber como estão. O parto normal transformou-se numa “anomalia”... num acontecimento. Muita badalação para algo... “normal”. Não se trata de uma crítica. Apenas uma constatação da inversão no mundo da “normalidade”. Vejo exagero dos dois lados. De um, que trata o parto normal como uma obstinação... um “troféu”, quando não se deve “bater no peito” por algo que é “graça” de Deus... de outro, que ignora a vontade das mulheres e dos bebês ao romper o útero em cesáreas eletivas desnecessárias. O parto tornou-se complexo... o ser humano rompeu com seus instintos. O tempo e a praticidade das rotinas parecem ter vencido a interpretação e o conhecimento corporal. Mas posso afirmar ter sido lindo pegar meu filho no colo imediatamente... perceber que sim, ele reconheceu a minha voz, como disse a médica... vê-lo, em seguida, abrir-se para o mundo em seu instinto mais primitivo, em busca do seio materno... ver minha mulher, minutos após o parto, levantar-se para se cuidar e cuidar dele... tudo muito lindo após as 18 horas de trabalho de parto... fácil não foi, entretanto “faria tudo de novo”, disse minha esposa, já ex gestante nesse momento... retratos palpáveis que escondem o que de melhor essa vida em abundância propicia... descarga hormonal... formação completa do bebê... facilitação do aleitamento... respiração facilitada pela compressão do tórax... imunidade e probióticos que não se compram nem se manipulam... mais segurança por não envolver o risco cirúrgico da cesárea... tudo tão divinamente “animalesco”... de brinde, um momento marcante para inaugurar o surgimento de uma família. Mulher empodeiada... “peitos fartos... filhos fortes...”. Preciso parar. Preciso me segurar. Não quero aqui discorrer sobre o assunto, até porque não tenho competência para isso. Eu vim deixar um breve relato nesse primeiro dia das mães que o Arthur nos deu.
Eram 21h de sexta feira (27/04/18) na Ilha de Vitória/ES. Após um exame de ultrasson, minha grávida me olha e diz: senti algo diferente... na barriga e nas costas. Eu a olhei e respondi: que massa! Pegamos os carros e voltamos pra casa, em Vila Velha/ES. Sim ela voltou dirigindo, sendo este apenas o seu primeiro e mais “leve” sinal de “força”, dos muitos que ela me proporcionou nessa jornada. Em casa, me relatou novas “dores”. Partimos arrumação final do quarto do Arthur, apenas nosso filho, longe de ser rei, qualidade que somente ao Altíssimo merece ser dada. Sim era diferente. Era o prenúncio de um “fim” de era pra início de outra. Era a metamorfose de nossa vida em processo de aceleração. Terminamos o quarto e partimos pra lasanha. Claro, toda história de parto tem uma comida (geralmente massa, que massa!) no roteiro. Satisfeitos, paramos... sonhamos... recordamos... lacrimejamos... algumas fotos fisgaram nosso peito em cheio de nostalgia. Já com saudades dos nove intensos meses, ela me disse: começou amor. Estávamos esperando... preparados... confiantes... as contrações aumentavam... um banho... um cochilo... um despertar... por volta das 23h as contrações já alcançavam a frequência de 1 a cada 3 minutos. Então começamos a aprender que a decisão não era nossa. Era dele... ele já iniciou em 1 pra 3... foi a forma que encontrou de nos anunciar. Acalmamos... conversamos... em nossa mente tudo o que havíamos apreendido durante a gravidez sobre esse momento... desde o documentário “O Renascimento do Parto”, recomendado por um casal de amigos (Márcio e Marcela – esta última veio a ser nossa Doula, com louvor!). Mas nada era tão revelador quanto a experiência que começaríamos a viver.
Uma noite longa... batalhada.. bem verdade... mas inesquecível. E adorável! Durante toda a madrugada estivemos por conta do “Filho que eu quero ter” e na companhia da Marcela, com seu acompanhamento e disponibilidade constante, e da Drª Maria Angélica (Obstetra de nascimento), exuberância de profissionalismo e carinho. E assim levamos. A cada 3 minutos uma lembrança. Às 5h, já com a Marcela em nossa casa, os exercícios ajudaram a nossa quase ex grávida a relaxar, recuperar o fôlego para o longo dia que nos esperava. Às 7h nossa médica pediu que fôssemos para o Hospital. Uma parada na padaria, para um café da manhã com chuva. Tudo “propositalmente” improvisado para ajudar em nossa distração. Chegamos ao hospital e fomos para a sala de parto, na qual registramos a maior experiência de nossas vidas.
Por volta das 9h, o momento difícil: a dilatação não era considerável... nosso menino ainda não tinha “descido” o suficiente... notícias difíceis para quem havia passado a noite em trabalho de parto... “por que passar por isso?”... “de que valeu a madrugada?”... os argumentos da mãe guerreira eram consistentes... a dor e a angústia me comoveram. Por alguns instantes não sabia como consolá-la. Estive impotente. A razão dela era forte. Mas o parto não é algo racional, passível de ser medido ou controlado. E que bom que assim seja. Coisas da vida que não controlamos, nem deveríamos tentar controlar. Fugindo ao nosso controle, nos possibilita um crescimento em busca de suportar e aceitar o inesperado. Deus e o “empoderamento” da mulher. Não consegui pensar em outra coisa. Essa compreensão fez a diferença para a guinada na situação. Silenciei. Aceitei. De fato, não havia o que falar. Apenas sentir... e eu senti... e rezei... meu momento mais forte de oração... de toda a minha vida. Plena ligação de corpo e alma com o Divino. Uma conversa franca... linda... com Deus e com a “empoderada”, por Ele e por ele. Resultado... recompensa... quase imediata... Momento seguido de relaxamento, culminando com um sono restaurador da mãe e impossível, momentos antes, aos nossos olhos racionais. Partes intangíveis de um universo imensurável de emoções, alegrias, angústias e “ocitocinas”, muita ocitocina.
Verdadeiro milagre. O que parecia impossível se reverteu. Após essa recuperação, as dores “viraram” contrações... as incertezas produziram motivação para encarar o inesperado... os medos nos impulsionaram ao desafio. E assim, sob os olhares e incentivos da médica e da doula, veio a energia e força para andarmos por todo o hospital, exercitando e preparando o corpo para a chegada do Arthur... depois, foi voltar para a sala de parto e acatar o momento final. Uma voz que grita: “eu quero fazer força”... “desliguem o som para eu me concentrar”... o tom era de decisão... de uma força inigualável... uma vontade incontrolável de fazer, de produzir, de reproduzir, de encontrar... A maternidade e o encontro com a própria alma... a mãe encontrando o último assento, carinhosamente nos preparado... eu, mero coadjuvante, me posicionei atrás dela para lhe amparar e poder ver a mais bela criação... a força veio... não sem dor... mas o milagre aconteceu... uma última hesitação foi afastada assim: “me dê sua mão... tá sentindo... é a cabeça do seu filho...”. E eu vi um sorriso lindo em meio a mais intensa dor... ou seria só contração... a dor desejada... esperada e querida... para, enfim, gerar o milagre da vida, do parto, da transformação... às 14:56h (28/04/2018) pudemos ver o último “giro” do Arthur... o choro já em nosso colo... “a cor azul”... eu vi meu filho chegar, sair “debaixo d´água”, e todo sentimento de preocupação, dor, sofrimento, se transformar em amor imediato... ele reconheceu nossa voz... se amansou no colo da mãe... e seu olhar me disse, como se quisesse me mostrar o quão simples a vida deve ser: PAI, TÔ NORMAL!
Leandro (Pai do Arthur, marido da Gabi, aos quais dedico este relato, neste Dia das Mães), 13/05/2018