05/10/2020
Sobre tempestades e gotinhas d’água
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O texto de hoje é inspirado no relato de uma conhecida, Ieda Terra. Que compartilhou a sua experiência enquanto mãe, e a necessidade de escutar as "pequenas gotinhas" (silêncios) que transformaram a sua relação com a filha e com ela mesma.
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Dias de chuva sempre me remetem a uma certa limpeza, ou melhor, renovação. Me lembro daquela música do Marcelo Jeneci "Felicidade" que diz: "quando chover, deixar molhar, pra receber o sol quando voltar". A experiência de estar vivo, inevitavelmente carrega consigo muitas tempestades. A água e sua potência nos inunda, faz chorar, Mas nada impede que não possamos secar as lágrimas ao sol.
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No fim das contas, talvez, o que mais interessa nesse mundo é aprender a escutar as pequenas gotinhas diárias que acontecem constantemente em todos nós. Quantos silêncios nos atravessam e deixamos de escutar por estarmos imersos em nossos temporais?
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Estou falando da escuta do indizível! Saber ler nas entrelinhas dos próprios sentimentos. É difícil se ouvir, ouvir as ausências, os medos, as inseguranças, as dores, o corpo, as demandas da vida como um todo. Aprender a se escutar não é um processo simples, mas é importante. E como todo processo, envolve tempo, altos e baixos, momentos melhores e piores. Assim como as ondas no mar, que hora se formam e quebram com intensa força, e hora desaparecem em grande calmaria.
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Muitas vezes, todos esses sentimentos chegam e fazem casa em nós, mas como no movimento próprio das coisas, se despedem e dão lugar a outras múltiplas sensações e sentimentos. As ondas passam, deixam suas espumas que se dissipam, e pouco a pouco a gente nem sabe mais o porquê de todas aquelas emoções.
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Sábio é Guimarães Rosa ao constatar que nossas vidas são travessias. Atravessar grandes águas é tarefa de estar vivo. E se há algum recurso sincero, feito canoa, para atravessar com um pouco mais de segurança, diria que são as escutas das nossas gotinhas d’água internas, das gotinhas d’água que atravessam nosso caminhar, tão pequenas e tão poderosas, que nos fazem aprender a ampliar nossa audição, nos transporta para outro âmbito sutil, que é aprender a escutar nossos silêncios.