10/02/2026
Amei e partilho:
O telefone não tocou às 18h00, como combinávamos todos os dias. Nem às 19h00. Às 21h00, a tempestade lá fora derrubou a energia do bairro inteiro, mas o silêncio do meu celular gritava muito mais alto que qualquer trovão que sacudia as janelas.
Gabriel estava na estrada. Uma viagem solo de moto pela Serra do Rio do Rastro, à noite, sob aquele dilúvio. E ele não atendia.
O medo tem uma textura específica. Ele é gelado, viscoso e aperta o estômago até você sentir gosto de bile. Eu andava de um lado para o outro na sala escura, iluminada apenas pelos relâmpagos, imaginando o asfalto molhado, as curvas traiçoeiras, os caminhões imprudentes.
Liguei para a Polícia Rodoviária. A voz do outro lado foi protocolar e aterrorizante.
— Senhora, houve um deslizamento no quilômetro 40. O trânsito está parado. Há relatos de veículos soterrados, mas as equipes só conseguirão acessar a área crítica quando a chuva diminuir.
Desliguei. O celular escorregou da minha mão e caiu no sofá.
"Veículos soterrados".
Minha mente, traidora como sempre em momentos de crise, começou a desenhar o cenário. Eu via a moto dele esmagada. Via o capacete rolando na lama. O pânico não é apenas uma emoção; é uma projeção criativa do pior cenário possível. Eu estava criando a tragédia na minha cabeça, frame por frame, em alta resolução.
Foi então que meu olhar, vagando pelo escritório na penumbra, pousou sobre a estante de livros. Havia um volume antigo ali, *Hipnotismo a Distância*, de Paul C. Jagot. Eu o tinha lido anos atrás por curiosidade.
Uma passagem específica faiscou na minha memória. Página 34. "Proteção".
Corri até a estante, acendi uma vela com as mãos trêmulas e folheei as páginas amareladas até encontrar.
O texto era claro, quase uma ordem militar para a mente: "Se se teme pela saúde de um sujeito, deve-se imaginá-lo em sua integridade física, completa e sã".
Li de novo, sussurrando as palavras para tentar abafar o som da chuva.
"Tratar de manter essa imagem quando o recorde e pensar, sentindo que sorteará todo perigo sem sofrer dano algum".
O livro alertava: as palavras são leves e inúteis se não tiverem o apoio da intensidade do desejo e da emoção sustentada. Não adiantava apenas pedir "por favor, que ele esteja bem". Eu precisava *fabricar* a realidade onde ele estava bem.
Mas como? Como fazer isso quando cada célula do seu corpo grita que ele morreu?
Sentei no chão, cruzei as pernas e fechei os olhos. A primeira imagem que veio foi horrível. Sangue. Metal retorcido.
— Não! — gritei para a sala vazia.
O livro dizia que o medo cria brechas. Eu precisava fechar essas brechas. Respirei fundo, tentando controlar a taquicardia. Comecei a construir a cena oposta.
Imaginei Gabriel. Não na chuva, não na estrada. Imaginei ele inteiro.
Visualize os braços dele, fortes e sem arranhões. As pernas firmes. O rosto sereno. Tentei sentir a textura da pele dele, quente e viva.
"Você sorteia todo perigo", repeti mentalmente, projetando essa frase como um feixe de luz na direção onde eu sabia que a serra ficava. "Você é imune ao dano. Você está intacto".
Foi uma batalha. A cada trovão que estourava lá fora, a imagem da tragédia tentava voltar. Eu lutava contra minha própria imaginação. Era um esforço físico. Eu suava frio. Meus músculos estavam tensos.
Eu precisava sustentar a emoção de segurança. Não a esperança, mas a *certeza*.
Imaginei ele entrando pela porta da frente. Tirando a capa de chuva amarela. O barulho do zíper abrindo. O cheiro de chuva e gasolina que ele sempre trazia. O sorriso de "cheguei".
Mantive essa imagem fixa. Congelei o tempo na minha mente. Gabriel em sua integridade física completa. Nada quebrado. Nada ferido.
Fiquei assim por horas. Perdi a noção do tempo. A vela queimou até o fim. A tempestade lá fora começou a amainar, transformando-se numa garoa fina, mas eu não ousei parar. Eu sentia que, se eu soltasse aquela imagem, a proteção desapareceria.
Adormeci de exaustão no tapete, com o livro aberto ao meu lado.
Acordei com batidas na porta.
O sol entrava pelas frestas da janela. Eram 7 da manhã.
Levantei num pulo, o corpo todo doendo da posição em que dormi. O coração disparou novamente. Seria a polícia? O aviso fúnebre?
Corri para a porta. Minha mão tremia tanto que não conseguia girar a chave na primeira tentativa. Respirei fundo. "Integridade física completa", repeti.
Destranquei. Abri.
Gabriel estava lá.
Ele estava coberto de lama da cabeça aos pés. A jaqueta estava rasgada no ombro. Ele segurava o capacete com uma mão e apoiava a outra no batente da porta.
Mas ele estava de pé.
— Gabriel... — minha voz falhou.
Ele não disse nada. Apenas entrou e me abraçou. O abraço foi forte, desesperado. Ele cheirava a terra molhada e medo.
Levei-o para o sofá. Trouxe água. Ele bebeu o copo inteiro em um gole só, as mãos ainda tremendo, mas de adrenalina, não de fraqueza.
— Eu perdi a moto, Clara — ele disse, finalmente, olhando para o chão. — Ficou lá. Perda total.
— Dane-se a moto — respondi, tocando o rosto dele, conferindo se era real. — A polícia disse que houve soterramento. Como você...
Ele levantou os olhos para mim. Havia um assombro no olhar dele que eu nunca tinha visto.
— Foi a coisa mais bizarra que já aconteceu comigo. Eu estava descendo. A chuva era tanta que eu não via um palmo à frente. De repente, a encosta cedeu. Eu ouvi o estrondo antes de ver. Árvores, pedras, lama... tudo descendo na minha direção.
Ele parou, engoliu em seco.
— Eu ia frear. Era o instinto. Parar a moto. Mas se eu tivesse parado, a avalanche teria me pegado em cheio. O carro que estava atrás de mim... bem, ele não teve a mesma sorte.
— E por que você não freou?
— Porque eu senti um puxão.
— Um puxão?
— Não físico. Foi na minha cabeça. No meio daquele caos, do barulho ensurdecedor, tudo ficou silencioso por um segundo. Senti uma clareza absurda. E vi você.
Arregalei os olhos.
— Você me viu?
— Vi. Não como uma alucinação externa, mas dentro da minha mente. Uma imagem nítida, fixa. Você estava calma. Você sorria para mim. E eu senti uma ordem, Clara. Uma voz que não era minha dizendo: "Você está inteiro. Nada te toca".
Senti um arrepio percorrer minha espinha. Eram as palavras do livro. A intenção que eu havia projetado por horas.
— Aquela sensação me fez fazer o ilógico — ele continuou. — Em vez de frear, eu acelerei. Acelerei tudo o que a moto tinha. Joguei a moto para o único espaço que parecia suicídio, entre a barreira e o abismo. A moto passou, derrapou, eu fui jogado para o acostamento de grama, mas a avalanche passou raspando. Questão de centímetros. Se eu tivesse hesitado um milésimo de segundo...
Ele olhou para as próprias mãos, intactas.
— Eu saí sem um arranhão, Clara. Só a jaqueta rasgou quando caí na grama. Mas eu... eu estou inteiro.
"Integridade física, completa e sã".
Abracei ele novamente, chorando silenciosamente no ombro daquela jaqueta suja.
Não contei a ele sobre o livro naquele momento. Não precisava. A prova estava ali, respirando nos meus braços.
Nós subestimamos o poder da mente humana. Achamos que o medo e a preocupação são apenas sentimentos passivos, mas eles são energias que moldam o destino. O medo atrai o abismo. Mas a imagem sustentada da segurança? Ela constrói a ponte sobre ele.
Aquele livro de 1918 não era superstição. Era manual de instruções.
Naquela noite, enquanto ele dormia o sono pesado dos sobreviventes, peguei o livro novamente. Marquei a página 34.
Nunca se sabe quando precisaremos ser o escudo invisível de alguém novamente. E agora eu sabia o segredo: não basta torcer. Você precisa ver, sentir e sustentar a realidade que deseja, até que o universo não tenha outra escolha a não ser obedecer.