01/03/2026
Ontem eu assisti à coletiva de imprensa do delegado em Itumbiara,
que acompanhou o caso de Tales Machado —
o pai que ceifou a vida dos dois filhos
e a própria vida logo em seguida.
E a pergunta que f**a é:
o que leva um pai a ceifar a vida dos próprios filhos…
e a sua própria vida?
Dentro da psicanálise, em alguns casos, o filho deixa de ser percebido como filho.
Ele deixa de ser um sujeito.
E passa a ser vivido como:
uma extensão de si,
o último vínculo com a mulher,
ou até o instrumento mais potente de punição.
Porque quando há uma ruptura narcísica muito intensa —
como uma separação, uma traição real ou fantasiada,
a sensação de ter sido trocado,
de ter perdido lugar —
o psiquismo pode entrar em colapso.
E nesse colapso, o filho deixa de ser amado como filho
e passa a ser usado como regulador da dor.
Regulador da rejeição.
Da humilhação.
Da perda de controle.
E aí o filho vira mensagem.
Uma mensagem para atingir.
Para punir.
Para destruir o outro
através do que ele mais ama.
Mas é importante dizer:
os filhos também são ceifados
quando não há sangue.
São ceifados:
quando são colocados contra o outro genitor.
quando viram moeda de troca após a separação.
quando o pai decide “recomeçar”
e abandona emocionalmente os filhos que f**aram
porque não suporta olhar para aquilo que lembra o vínculo que acabou.
quando para de visitar
porque a presença do filho reativa a dor da perda.
quando promete e não aparece
porque estar ali exige sustentar o lugar de pai
sem o lugar de marido.
quando privilegia os filhos que virão depois
numa tentativa inconsciente de “recomeçar do zero”
apagando o capítulo anterior da própria história.
Existem muitas formas de ceifar.
Algumas são instantâneas.
Outras são lentas.
Mas todas atravessam o psiquismo de uma criança.
FILHOS NÃO SÃO PERDIDOS APENAS QUANDO MORREM.
SÃO PERDIDOS QUANDO SÃO EMOCIONALMENTE ABANDONADOS.
Claudiane Tavares - Doutoranda em psicanálise com especialização em traumas familiares