16/12/2025
“Redescobrir a Teoria Crítica de Theodor Adorno a partir da Psicanálise é, de longe, uma das surpresas mais curiosas que eu já vivi em meu percurso enquanto pesquisador. Iniciei o doutorado imaginando que a tarefa seria a de um simples diálogo comparativo entre Psicanálise e Escola de Frankfurt: traço o recorte bibliográfico aqui, desenho o percurso metodológico ali… e pronto.
O que tenho vivido, no entanto, se aproxima de um reconhecimento indissociável e angustiante entre Adorno e Freud, isto é, da constatação de que a economia psíquica é a economia do capital, pois estudar a ascensão do fascismo, o recrudescimento do conservadorismo e suas formas contemporâneas de racionalização tem me mostrado que esses fenômenos não se sustentam apenas por estruturas políticas ou econômicas externas, mas encontram profundo amparo nos modos de subjetivação, nos afetos administrados, no medo, na adesão à ordem e na recusa do conflito. O fascismo não emerge do nada: ele se alimenta da promessa de progresso, da nostalgia de uma totalidade perdida e da ilusão de sentido oferecida por narrativas simplificadoras, que encontram terreno fértil justamente em contextos de crise e desamparo como os que vivemos.
Adorno é difícil, sim, e, às vezes, tenho a impressão de que não estou entendendo nada. Mas, então, me dou conta de que, de fato, às vezes eu realmente não estou entendendo nada. E é esse simples não entendimento que me permite apreender algo de seu ensino: a formação exige tempo - tempo de mediação, de elaboração, de recusa, de abertura, de reaproximação, de deslumbramento, de incômodo, de dor no estômago, de fome. A formação exige desconforto; e, para alguém formado sob os véus sedutores e ilusórios das epistemologias conhecidas como metodologias ativas, dar-se conta disso implica enfrentar uma considerável dose de angústia e dissolução ideológica.”
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