08/03/2026
Quando cantamos um Min’yō, não transmitimos apenas uma melodia antiga. Algo mais fundamental está em jogo: a voz como chamado.
Na psicanálise de Jacques Lacan, a voz não é apenas aquilo que carrega palavras ou sentido. Ela pode funcionar como objeto da pulsão invocante, uma pulsão que se organiza em torno do ato de chamar e de responder a um chamado. Invocar é dirigir a voz a um Outro, supondo que alguém possa escutar.
O canto tradicional frequentemente nasce justamente dessa estrutura. Nos trabalhos do campo, nos barcos de pesca, nas festas ou nos rituais, a voz surge como um gesto que atravessa o espaço: alguém canta e outro responde. Mesmo quando não há resposta direta, o canto mantém essa dimensão de apelo.
Talvez por isso o min’yō tenha algo de tão comovente. Ao cantar, a voz parece atravessar o tempo. Não é apenas o cantor que canta. Algo das gerações anteriores ressoa ali, como se a voz carregasse um chamado antigo, dirigido a alguém que ainda pode escutar.
Nesse sentido, cantar pode ser também responder a uma invocação.
A voz, que para Lacan é um dos objetos da pulsão, aparece então como esse resto que persiste além das palavras — aquilo que vibra no corpo e faz com que uma música antiga continue encontrando quem a cante.