22/12/2025
O perigo da “Felicidade da Anita”.
Eu comparo com aquele livro de auto-ajuda que deveria mudar o teu mundo!
Aquilo faz todo o sentido, parece super fácil, então “eu devo ser mesmo má/mau, porque nem sequer tenho a capacidade para fazer aquilo, “uma coisa tão simples”!!! 😔
Pois a questão é mesmo essa, de “simples” não tem nada!
E é aqui que o apoio de um profissional faz toda a diferença! 😃
Quem tenta “ser sempre feliz” arrisca-se, muitas vezes, a sentir-se pior e a ciência já mostrou porquê.
A psicóloga Iris Mauss e colegas fizeram uma experiência curiosa, publicada na revista Emotion.
Primeiro, pediram a um grupo de participantes para ler um texto que exaltava a importância de ser feliz, quase como uma obrigação pessoal: “a felicidade é o objetivo máximo da vida, devemos esforçar-nos ao máximo por ser felizes”, etc.
Outro grupo leu um texto neutro, sem carga emocional. Depois, todos viram o mesmo vídeo claramente positivo (uma patinadora a ganhar uma medalha olímpica, num momento de alegria e conquista).
O resultado foi tudo menos intuitivo: as pessoas que tinham sido “empurradas” para valorizar ainda mais a felicidade sentiram-se menos felizes do que o grupo de controlo.
Relataram mais desilusão, mais frustração com o que estavam a sentir, como se as emoções reais não estivessem à altura do que “deviam” sentir.
Ou seja: quando a situação parece “perfeita” para estar radiante e tu não estás tão feliz como achas que devias… não ficas neutro, ficas pior. Não sofres apenas com aquilo que sentes, sofres também com aquilo que achas que devias estar a sentir. É aqui que a perseguição da felicidade começa a minar o próprio bem-estar.
Trabalhos mais recentes, como um estudo liderado por Franziska Zerwas e Iris Mauss, vão na mesma direção. Ao acompanhar centenas de pessoas, encontraram um padrão consistente: quem está constantemente preocupado em avaliar se está “feliz o suficiente” tende a relatar menos satisfação com a vida e mais sintomas depressivos.
Não porque tenha menos razões objetivas para estar bem, mas porque transforma as emoções num exame permanente.
Cada momento é avaliado: “estou tão feliz quanto devia?”, “estou a aproveitar o suficiente?”, “porque é que não me sinto melhor?”.
Essa vigilância emocional leva a metaemoções como desilusão, culpa ou irritação por não te sentires mais feliz, o que, ironicamente, reduz ainda mais o bem-estar.
O problema, portanto, não é querer ser feliz. É transformar a felicidade numa meta rígida, num estado obrigatório, numa espécie de KPI emocional diário.
Quando a felicidade se torna exigência, qualquer desvio normal, como tristeza, cansaço, tédio, preocupação, é vivido quase como falhanço pessoal.
Do ponto de vista da psicologia das emoções, isto é particularmente perigoso por duas razões:
1. Todas as emoções têm função. Tristeza, medo, frustração, tédio são respostas normais a contextos normais.
2. Lutar contra essas emoções em nome de uma felicidade idealizada aumenta a probabilidade de te sentires ainda pior, não melhor.
É mais importante darmos espaço a todas as emoções que temos do que abrir apenas a porta à felicidade.
Referências:
Mauss, I. B., Tamir, M., Anderson, C. L., & Savino, N. S. (2011). Can seeking happiness make people unhappy? Paradoxical effects of valuing happiness. Emotion, 11(4), 807–815.
Zerwas, F. K., Ford, B. Q., John, O. P., & Mauss, I. B. (2024). Unpacking the pursuit of happiness: Being concerned about happiness but not aspiring to happiness is linked with negative meta-emotions and worse well-being. Emotion.