28/12/2025
MENSAGEM DE ANO NOVO
Eu sou do tempo em que da época de Natal e outras épocas festivas, havia sempre uma garrafa separada para o médico de família, para o carteiro que trazia a correspondência ao longo do ano, dos familiares que estavam no estrangeiro, para a enfermeira que nos ia fazendo os curativos ao longo do ano, para a professora e para aquelas pessoas que por algum motivo a gente tinha a noção de estar "em dívida" por eventualmente nos terem feito algum favor, tenha esse favor sido pago e eu via a minha avó pagar e, isto fez-me lembrar uma situação.
Quando alguém trabalha para ajudar as pessoas independentemente de receber por isso ou não, aquela pessoa está ou esteve à nossa disposição, aquela pessoa deu-nos a sua atenção, aquela pessoa, naquele momento transmite-nos o seu saber, conhecimento e sabedoria que levou anos a construir, aquela pessoa não é uma farmácia, onde vamos lá comprar uma aspirina quando estamos com dor de cabeça e, nos despedimos até à próxima dor de cabeça, as pessoas que nos ajudam e nos ouvem, as pessoas que nos curam as feridas sejam elas internas ou externas, fora do âmbito do exercício profissional, elas merecem a nossa atenção, elas merecem ser recordadas mesmo quando não são mais necessárias, isso não tem preço, mas tem imenso valor, uma palavra de apreço, um feliz aniversário, um "lembrei-me de ti" um comentário, genuíno e de coração são coisas que nos aconchegam mesmo sem custar nada a quem o quer doar.
Posso dizer-vos que este ano quando foi o meu aniversário muitas pessoas se lembraram de mim e agradeço, no entanto houveram pessoas que eu considerava amigas e que ao longo da vida se aproveitaram bem dessa alegada amizade e me ligavam imensas vezes a pedir conselhos, para desabafar, a pedir ajuda a pedir que responsasse alguma coisa, e no dia do meu aniversário uma dessas pessoas ligou-me duas vezes, a primeira foi para pedir favores, ligou a segunda e pensei que se tivesse lembrado e fosse para me desejar feliz aniversário, mas não, mais um favor e, sequer se dignou a desejar-me um feliz aniversário, nem depois por mensagem. Eventualmente em outras alturas pode ter reconhecido, afinal de contas tudo o que não é consulta não é cobrado, mas esta situação fez-me pensar e obviamente escrever sobre ela.
Eu tenho uma cicatriz com os aniversários, porque as pessoas com quem partilhei a minha vida sentimental, tinham o condão de se esquecerem, tanto dos aniversários de nascimento, quanto os de casamento e foram mais de 20 anos que nunca foram recordados, mais para o final da minha vida sentimental, uma dessas pessoas desejava publicamente feliz aniversário a todas as outras pessoas, mas não a mim, lá está, tinha vergonha de se expor por estar comigo.
Essa cicatriz está tratada no entanto quando lhe tocam, ela está ainda sensível. Sim, cuidadores, médicos, terapeutas, etc., também temos cicatrizes, caso não o saibam.
O que me fez perceber que também nós cuidadores e ajudadores precisamos de filtrar quem entra da nossa vida e quem consideramos amigos. Quem está apenas por interesse e se lembra de nós quando os podemos ajudar de alguma forma ou se realmente têm um carinho genuíno por nós.
Já tive pessoas a "despejarem" toda a sua vida, raiva, angústia, desamores, pedem para eu pedir e orar por elas, mas na rua têm vergonha e viram a cara... Sim é verdade.
No entanto "felizmente" há outras genuinamente gratas que me cumprimentam com alegria, que me abraçam e f**am genuinamente felizes.
Todavia, este ano que passou, fez-me perceber muita coisa, e uma delas é que o círculo de amigos "verdadeiros" está a estreitar-se cada vez mais.
Conhecidos posso dizer que tenho uma vasta rede, incluindo por esse mundo fora, agora se me ajudariam ou não num momento de dificuldade ou necessidade, isso são outros quinhentos...
Houve tempo em que havia gratidão mas depois as pessoas passam a tratar-nos como um dado adquirido, que fazemos parte da mobília e não "da família".
Há gestos que não se aprendem nos livros nem nos discursos sobre valores, aprendem-se em casa, no silêncio das práticas repetidas, na forma como se observa quem veio antes de nós. A garrafa separada mesmo fora de época, para o médico, para o carteiro, para a professora, não era apenas uma oferta, era um reconhecimento simbólico de algo que hoje se perdeu quase por completo, a consciência de interdependência. Ninguém caminhava sozinho e ninguém fingia que caminhava. Havia uma ética invisível, não escrita, mas profundamente sentida, a ética da gratidão.
Com o tempo, fomos sendo educados para a ideia de que tudo tem preço, tudo é serviço, tudo é troca imediata. Pagou-se, logo não se deve mais nada.
Esta lógica, aparentemente justa, é na verdade empobrecedora, porque confunde valor com custo e presença com função. Uma pessoa que nos escuta, que nos orienta, que nos sustém num momento de fragilidade, oferece algo que não se esgota no tempo da consulta, da conversa ou do favor. Oferece presença, oferece energia vital, oferece partes da sua própria história, a sabedoria advinda dos seus erros e acertos, das suas cicatrizes transformadas em sabedoria e que genuinamente coloca à disposição de quem dela necessita.
Aqui está algo que muitas vezes esquecemos de nomear, quem ajuda regularmente carrega um peso invisível. O cuidador, o conselheiro, o confidente, o que ora, o que escuta, o que segura o outro quando tudo desaba, raramente ou nunca tem espaço para ser frágil. Cria-se à sua volta a ilusão de que é um ser inesgotável, de que está sempre disponível, de que não precisa de cuidado, porque parece forte e tem de ser sempre forte. Esta é uma das grandes injustiças silenciosas da nossa sociedade, exigimos humanidade dos outros, mas negamo-la a quem nos sustém.
Quando alguém liga apenas para pedir, quando só se lembra na necessidade, quando transforma a relação num escoadouro emocional sem reciprocidade, não está apenas a ser distraído ou egocêntrico, está a revelar uma forma de relação utilitária, onde o outro deixa de ser pessoa e passa a ser apenas um recurso. Isso corrói lentamente quem dá, porque o ser humano não se esgota apenas fisicamente, esgota-se sobretudo quando se sente invisível.
O episódio do aniversário não é pequeno, não é vaidade, não é ego, é apenas revelação. Quem gosta lembra-se, quem respeita honra, quem reconhece cuida dos detalhes.
Uma amiga minha retirou a data do Facebook precisamente para ver quem se lembraria do seu aniversário mesmo sem o lembrete digital... Sim cuidado é isto...
Um feliz aniversário não é uma mera formalidade, é um sinal claro de que o outro existe fora daquilo que podemos oferecer. Quando isso não acontece, algo se quebra por dentro, não por mágoa infantil, mas por lucidez adulta. A lucidez de perceber que nem toda a proximidade é amizade e nem toda a partilha é vínculo.
Há ainda outra camada mais profunda que raramente se diz em voz alta. Muitas pessoas procuram quem as pode ajudar, não para crescer, mas para aliviar a própria consciência. Despejam dores, pedem orações, conselhos, apoio, mas não querem pagar o preço da verdadeira transformação. Querem alívio momentâneo. Quando encontram essa pessoa na rua e desviam o olhar, não é vergonha do outro, é vergonha de si próprias, porque essa pessoa lembra-lhes aquilo que ainda não tiveram coragem de fazer, nem de enfrentar.
O estreitar do círculo não é perda, é depuração. A vida, quando amadurece, deixa de pedir quantidade e passa a exigir verdade.
Eu própria ao longo do meu percurso pessoal e profissional me fui desvinculando gradualmente ou à força toda de pessoas com as quais não havia alinhamento nem reciprocidade, posso ter perdido clientes, e pessoas que me diziam algo, porém ganhei em muitos outros aspetos, em paz, em preservação da minha própria energia e emoções, em tempo. Sim tempo...
Conhecidos haverá sempre muitos, nomes, contactos, mensagens ocasionais, mas amigos são os que permanecem quando nada é útil, quando não há pedidos, quando não há favores, quando só existe a presença. Esses são raros porque exigem maturidade emocional, responsabilidade afectiva e uma coisa que o mundo moderno evita, que é o compromisso humano.
Talvez a maior aprendizagem deste ano que chega ao fim, não seja apenas filtrar quem entra, mas também autorizar-se a descansar. Sim descansar.
Dizer Não, não como castigo ao outro, mas como respeito por si próprio. O cuidador que não se protege acaba por se tornar exausto, amargo ou vazio, e isso não serve nem ao próprio, nem a ninguém. A verdadeira generosidade nasce de um copo cheio, não de um copo a ser espremido até à última gota.
No fundo, o que eu revelo neste texto é uma verdade simples e profunda, gratidão é memória activa, é lembrar quando não se precisa, é cuidar de quem cuida, é honrar quem nos tocou a vida mesmo que já não esteja presente. Quem vive assim pode ter menos gente à sua volta, é verdade, mas dorme em paz consigo próprio, e essa paz não tem preço, mas tem um valor imenso.
Ser tratado como mobília é uma das formas mais sofisticadas de desumanização.
A mobília é útil, enquanto é funcional, enquanto não passa de moda,
está sempre lá, não reclama, não adoece, não precisa de reciprocidade, nem de reconhecimento, faz o trabalho de 'embelezamento ou preenchimento" e pronto é essa a sua função.
A família, a "verdadeira família" que não tem de ser forçosamente de sangue, pelo contrário, envolve cuidado, atenção, memória, respeito, vínculo. Quando alguém cruza essa linha e nos coloca no lugar de objeto funcional, deixa de nos ver como pessoa inteira e passa a relacionar-se apenas com a função descartável que desempenhamos na sua vida.
Isto acontece muitas vezes com quem tem uma natureza cuidadora, disponível, empática. A disponibilidade constante cria uma ilusão perigosa, a de permanência eterna. O outro deixa de agradecer porque, na sua mente, já não há escolha, há simplesmente a obrigação do outro ter de estar sempre disponível. E, quando a escolha desaparece, a gratidão também desaparece. O gesto deixa de ser visto como dádiva e passa a ser encarado como dever.
Há aqui uma verdade que custa aceitar, mas liberta, nem toda a ausência de gratidão é ingratidão consciente. Muitas vezes é imaturidade emocional. Pessoas que nunca aprenderam a cuidar de vínculos, apenas a consumi-los. Pessoas que confundem proximidade com posse e presença com direito adquirido. Essas pessoas sentem-se traídas quando um dia o ajudador se cansa, porque acreditavam, erradamente, que ele existia apenas para elas.
Ser dado como adquirido dói porque apaga a individualidade. Apaga o esforço, o tempo, a energia emocional investida. Apaga até o amor. E quando alguém percebe que deixou de ser visto, nasce a necessidade de reposicionamento interno e externo. Não para exigir reconhecimento, mas para recuperar a sua dignidade e valor pessoal.
E se esse valor não é reconhecido, a pessoa já sabe o movimento que tem de fazer.
Talvez uma das maiores maturidades da vida seja esta, perceber que nem todos os lugares onde somos úteis são lugares onde somos vistos, respeitados e amados. E que não somos obrigados a permanecer onde já não somos vistos como humanos inteiros. Retirar-se, nestes casos, não é abandono nem ingratidão, é autocuidado consciente.
A verdadeira família, seja de sangue ou de escolha, nunca trata ninguém como mobília. A verdadeira família, têm aquele brilho no olhar quando nos vêem, repara quando faltamos,
pergunta quando nos calamos, agradece mesmo quando já não é preciso. Tudo o resto são arranjos temporários, confortáveis enquanto servem, descartáveis quando deixam de servir.
Quando alguém deixa de agradecer, não revela quem tu és, revela quem essa pessoa se tornou. E reconhecer isso não endurece o coração, pelo contrário, torna-o mais lúcido, mais selectivo e, paradoxalmente, mais livre.
A minha mensagem deste ano é que sejamos gratos com as pessoas que nos rodeiam, não apenas com presentes, mas se o quiserem e puderem, tudo bem, mas com algo que não tem preço, estarmos presentes em momentos importantes ou difíceis da vida das pessoa, um gesto, uma palavra, um abraço, um "eu estou aqui" um "eu vejo-te".
Não se ajuda para se ter reconhecimento nem gratidão, porém o provérbio é antigo, por isso alguns nem se devem recordar dele.
'Mãos que não dais, por que esperais?"
Como tudo na vida, o que vai volta, se não forem gratos pelo que recebem, talvez comecem a ter cada vez menos coisas para agradecer...
Vale a pena pensar nisto.
Sou grata por todas as pessoas que tornaram este ano de 2025 ainda mais rico, mesmo sem terem gasto um cêntimo comigo, sou grata às pessoas que vêem o meu valor e que valorizam a minha amizade, mesmo que eu não tenha assim tanto para vos dar. Sou grata às pessoas que pagaram pelo meu trabalho e o reconheceram, sou grata aos meus.
Sou grata às pessoas que fazem o bem pelos meus.
O meu bem Bem Haja. ❤️
Um feliz 2026 para todos
Sejam gratos pela vida e pelas pessoas que têm nela.
Paz e Luz
by Teresa Gonçalves
Tema musical autoral