17/04/2020
𝐍𝐚̃𝐨 𝐩𝐞𝐧𝐬𝐞𝐦𝐨𝐬 𝐭𝐨𝐝𝐨𝐬 𝐪𝐮𝐞 𝐯𝐚𝐦𝐨𝐬 𝐝𝐚𝐫 𝐞𝐦 𝒍𝒐𝒖𝒄𝒐𝒔
Começo por relembrar os leitores que, há cerca de 30 dias atrás (somente 30 dias atrás), mantínhamos todos a nossa saúde mental minimamente assegurada pela estrutura, na sua maioria previsível e consistente, da rotina diária a que estávamos habituados, aquela em que os filhos saíam cedo para a escola e os pais para o trabalho, onde as crianças passavam a maior parte do seu tempo na escola e os pais a exercer a sua prática laboral, reencontrando-se em casa por meras horas de interação antes do dia se dar por terminado e de tudo retomar o seu ciclo.
Momentaneamente, o ciclo normativo, ou seja, aquela rotina diária que se faz inúmeras vezes em modo automático, de alguma forma parece ter-se invertido e, de repente, os filhos e os pais passam, não a maior, mas toda a parte do tempo, numa interação obrigatória e confinada a quatro paredes. Ao fim de todas estas semanas, será normal haver momentos em que nos questionaremos se estamos nós, pais, a ficar loucos ou se estarão as nossas doces crianças a ficar 𝑠𝑒𝑙𝑣𝑎𝑔𝑒𝑛𝑠, crescendo uma vontade dos pais de tirar férias dos filhos e, julgarei eu, que vice-versa.
Toda a situação de saúde pública vivida atualmente, aliada à mudança abrupta das rotinas de cada um, quer individuais, quer familiares, que de resto já sabemos serem organizadoras, e ainda ao stress da apressada reestruturação das mesmas nos vários ângulos (nomeadamente o laboral/económico, o escolar e o social), pode provocar alterações comportamentais e emocionais nas crianças e nos pais.
Focando-nos nos mais novos, importa refletir que os pais poderão observar na criança alterações que, muitas das vezes, têm expressão mais corporal que verbal, podendo traduzir-se na presença de medos ou preocupação excessiva, irritabilidade, aumento das birras, irrequietude ou diminuição da energia, alterações nos hábitos do sono e da alimentação, no reaparecimento de comportamentos que já tinham sido ultrapassados (como por exemplo os acidentes com o xixi) e dificuldades da atenção ou concentração.
Mas isso não quererá dizer que, nós pais, estamos a ficar loucos ou que as nossas crianças estão a ficar selvagens. Quer apenas dizer que nos cabe a nós, enquanto pais, transmitir à criança segurança, dar espaço para e ajudar na expressão das emoções e dos sentimentos, conter as angústias, estruturar uma nova rotina que se torne, para a criança, consistente e previsível e à qual esta se possa adaptar (porque as nossas crianças são, de facto, resilientes), antecipar os momentos de stresse e frustração e ser responsivo.
Mas enquanto pais não poderemos esperar que tudo isto aconteça de um dia para o outro. Teremos de dedicar tempo de qualidade à descoberta das nossas crianças, às trocas de afeto, à criação de memórias emocionais e permitirmo-nos ser parceiros ativos nas suas próprias descobertas. Teremos de brincar, brincar sem pressas (e quando digo isto recomendo pelo menos 30 minutos por dia), com toda a disponibilidade e foco na criança, olhar o que ela tem para nos dizer, lembrarmo-nos de que para elas este momento também traz estranheza e que nós, os pais, somos aqueles super-heróis que protegem e que farão com que tudo fique bem.
Para conseguirmos dar isto às nossas crianças e correspondermos às exigências profissionais e educacionais do momento, penso que não nos poderemos assumir como Pai + Mãe, mas sim como Pais, como uma equipa que, como todas as boas equipas, trabalha em conjunto para que haja consistência e tempo para os filhos, mas também tempo e espaço para o casal e para cada um individualmente. Para que cada um possa sentir que não faz mal ter dias menos bons, momentos impacientes, reações menos assertivas e para que cada um tenha tempo para, antes de todo um novo dia recomeçar, respirar fundo, reorganizar e recarregar as energias.
Teresa Cardoso - Psicomotricista