04/10/2025
Não concordo quando dizem que sou um sábio ou um “iniciado” na sabedoria. Certo dia um homem encheu o chapéu com água tirada de um rio. O que signif**a isso? Eu não sou esse rio, estou à sua margem, mas nada faço. Outros homens estão à beira do mesmo rio e em geral pensam que deveriam fazer as coisas por iniciativa própria. Eu nada faço. Nunca imaginei ser “aquele que cuida para que as cerejas tenham haste”. Fico lá, de pé, admirando os recursos da natureza.
Há uma velha lenda, muito bela, de um rabino a quem um aluno, em visita, pergunta: “Rabbi, outrora havia homens que viam Deus face a face; por que não acontece mais isso?” O rabino respondeu: “Porque ninguém mais, hoje em dia, é capaz de se inclinar suficientemente”.
É preciso, com efeito, curvar-se muito para beber no rio. A diferença entre a maioria dos homens e eu, reside no facto de que em mim as “paredes divisórias” são transparentes. É uma particularidade minha. Nos outros, elas são muitas vezes tão espessas, que lhes impedem a visão; eles pensam, por isso, que não há nada do outro lado. Sou capaz de perceber, até certo ponto, os processos que se desenvolvem no segundo plano; isso dá-me segurança interior. Quem nada vê não tem segurança, não pode tirar conclusão alguma, ou não confia nas suas conclusões. Ignoro o que determinou a minha faculdade
de perceber o fluxo da vida.
Talvez tenha sido o próprio inconsciente, talvez os meus sonhos precoces, que desde o início marcaram o meu caminho.
O conhecimento dos processos do segundo plano estabeleceu, muito cedo, a minha relação com o mundo. No fundo esta relação é hoje o que já era na minha infância. Quando
criança, sentia-me solitário e sou ainda hoje, pois sei e devo dizer aos outros coisas que aparentemente não conhecem ou não querem conhecer. A solidão não signif**a a ausência de pessoas à nossa volta, mas sim o facto de não podermos comunicar-lhes as coisas que julgamos importantes, ou mostrar-lhes o valor de pensamentos que lhes parecem improváveis. A minha solidão
começa com a experiência vivida em sonhos precoces e atinge
o seu ápice na época em que me confrontei com o inconsciente.
Quando alguéim sabe mais do que os outros, torna-se solitário.
Mas a solidão não signif**a, necessariamente, oposição à
comunidade; ninguém sente mais profundamente a comunidade
do que o solitário, e esta só floresce quando cada um se lembra da sua própria natureza, sem se identif**ar com os outros.
É importante que tenhamos um segredo e a intuição de algo incognoscível. Esse mistério dá à vida um tom impessoal e
“numinoso”. Quem não teve uma experiência desse tipo perdeu
algo de importante. O homem deve sentir que vive num mundo
misterioso, sob certos aspetos, onde ocorrem coisas inauditas –
que permanecem inexplicáveis – e não somente coisas que se
desenvolvem nos limites do esperado. O inesperado e o inabitual fazem parte do mundo. Só então a vida é completa. Para mim, o mundo, desde o início, era infinitamente grande e inabarcável.
(Carl Jung, Memorias, Sonhos e Reflexões)