03/10/2022
"MAIS AMOR, POR FAVOR."
Li esta frase há muitos anos, escrita a giz, na parede de um restaurante. Não mais a esqueci. Tenho memória aguçada para as coisas que me mudam por dentro e tendo a trazê-las na bagagem, como se me preparasse para os momentos em que se tornarão bússola, ou pára-quedas.
O amor que marca o vínculo que desenvolvemos com um filho é diferente de todos os outros tipos de amor. É diferente porque é forte, porque é irresistível, porque é inabalável e porque dura para lá da nossa existência, para lá de quem somos, transformando-nos irremediavelmente. É diferente ainda, porque é à prova de bala: Não deixaremos de gostar deles, nem eles deixarão de gostar de nós. No matter what.
É esta certeza (e sobretudo este sentir), que lhes permite ir mais longe, pisar o risco, ganhar coragem para se lançarem em pleno voo, sempre que a vida a isso convide. É também ela que permite que se mostrem sem filtro e sem disfarce a quem tem por eles um amor sem fim, que resistirá sempre, a todos os lados lunares.
É por isto que quando me perguntam qual é o ingrediente mais importante para ajudar a crescer uma criança, eu respondo, a cada dia mais convicta: É O AMOR.
E é por isto que quando me perguntam qual é a solução para um determinado desafio na relação com os filhos, eu respondo, antes de qualquer outra coisa: É O AMOR.
Até aqui, nada de novo. O mundo há muito que sabe da substância de que é feito o amor por um filho. O problema está, nas vezes em que o mundo acha que este amor pode ser usado para moldar, para gerir, para manipular e para dosear, sempre que o comportamento desse filho não nos alimente as expectativas.
É o inocente “ Ai não me dás um beijinho? Assim, já não gosto de ti” ou o “Depois dessa birra, achas que mereces um abraço?”. São os bem intencionados “Deixa o bebé chorar. Isto já começa a ser manha” e os “Pára imediatamente com isso ou vais para o quarto sozinho até te passar!”. E são ainda as pérolas de sabedoria que, prontamente, diagnosticam: “O problema desta criança é mimo a mais…”
Estes são apenas alguns dos exemplos, tão enraizados em nós, que ensinam a ideia de que o amor tem de ser merecido, tem de ser conquistado, deve ser refreado e até que pode diminuir, sempre que o passo se faça mal dado.
Afinal, amam-me pelo que eu faço. Não pelo que eu sou.
Se o amor por um filho não é moeda de troca, não é ferramenta de punição ou sequer recompensa (e eu acredito que no fundo, todos concordamos com isto), então porque não é assim que às vezes o mostramos?
Se o amor e a sua materialização física e emocional é o maior bem que podemos dar aos nossos filhos, então porque raio é que atribuímos ao mimo=afeto, a responsabilidade dos momentos mais desafiantes na sua educação?
Se calhar, porque estamos todos a precisar de parar e pensar naquilo que andamos a fazer, de nos tornarmos mais conscientes das mensagens que transmitimos e, sobretudo, a precisar de baixar a guarda, sacudir o peso das frases gastas, abrir o coração e ouvir, tudo o que de extraordinário e libertador acontece cá dentro.
Se calhar, porque andamos todos a precisar de mimo... E é talvez por isso que, chegada ao fim deste texto, já só me apetece pedir…
MELHOR AMOR, POR FAVOR!