29/12/2025
Nesta fase entre o Natal e o Ano Novo, muitas pessoas sentem uma pressão silenciosa para avaliar, agradecer, aprender, fechar ciclos e entrar melhor no novo ano e fazer aquilo que não foi feito ou conseguido até então.
Culturalmente, o fim do ano é vivido como:
▶️Um balanço obrigatório.
▶️Uma narrativa coerente (“o que aprendi”, “o que ficou para trás”).
▶️Uma promessa implícita de renovação.
Do ponto de vista psicológico, isto pode tornar-se problemático porque:
〽️ A vida psíquica não é linear
🗓 Muitos processos emocionais não obedecem ao calendário
📝 O sofrimento não se resolve por decreto simbólico
😪 Há pessoas que chegam a dezembro exaustas, não transformadas
O que é o positivismo tóxico nesta altura?
Quando se invalida ou tenta minimizar a dor "porque tudo é aprendizagem e lições a aprender" e se quer sair rapidamente das situações, emoções ou sentimentos difíceis, fazendo fuga para a frente, usando-se frases como:
“Tudo acontece por uma razão”
“Agora é virar a página”
“Tenho de entrar em 2026 com outra energia”
Na verdade, nem toda a dor vem com ensinamento imediato ou com ensinamento que seja a não ser acolher o que é difícil e, por vezes, incompreensível e até inultrapassável.
Clinicamente, esta filosofia pode gerar:
❤️🩹 Invalidação emocional
❤️🩹 Culpa por ainda doer
❤️🩹 Vergonha por “não ter aprendido nada”
❤️🩹 Sensação de falha pessoal
Encerrar vs. sobreviver:
Encerrar implica elaboração, simbolização, integração. Sobreviver implica apenas continuar vivo/a, funcional, inteiro/a. Há anos que pedem sobrevivência, não evolução e força.
Quando o ano termina mas o processo não:
Muitas pessoas entram no novo ano com luto não elaborado, burnout ativo, relações ambíguas e sintomas ainda presentes. Forçar o fecho pode ser uma forma de evitamento emocional, não de saúde mental. Na verdade, algumas coisas não se fecham, acompanham-nos e passam a fazer parte de nós.
Como tal, e como sempre, sejam gentis convosco e, se possível, com os outros também. A vida é um processo e uma jornada contínua, não conseguimos fazer resets como gostaríamos. Temos de ir cuidando e sentindo o que há para sentir, fazendo apenas o que é possível e realista.