09/10/2020
OS KSANAS E O FERNESIM DO COVID.
(Como o texto é denso, ficam algumas das prometidas fotos da viagem de 2019 aos Himalaias Indianos, para nos aliviar. Texto do inicio da Primavera de 2020.)
Quando estamos perante uma qualquer máquina ou aparelho ligada à corrente, cujo funcionamento não gerimos e dos seus comandos nada sabemos, sentindo-lhe apenas a potencia das perturbações que, eventualmente, nos podem comprometer a sanidade, é dos mais elementares princípios de sobrevivência que só há uma coisa a fazer, desligar a ficha, se nós próprios não nos conseguimos desligar dela.
Milhões de nós, inundados por uma comunicação orientada por "máquinas" gigantescas fora do nosso controle e, muita vezes fora também, do nosso serviço, estará vivenciando a situação atual assustada, amargurada, paralisada pela angústia e pelo medo, gravitando, por vezes, num frenesim sonambúlico que é, apenas aqui e ali, entrecortado por algumas ações automáticas dissonantes, enquanto tentativas de Auto-cura, ou por vezes, tiradas desconcertantes das mais diversas formas de humor que, como as sacudidelas dos cães, como quando se lhes molha o pelo e querem secar-se do incomodo são próprias, apenas, daqueles que ainda conseguem sacudir-se, espargindo assim, por vezes, nas redes sociais, algum saudável e terapêutico humor e ironia que nunca se viu tanto e, a que temos de dar eco, pois claro,... quando não se lhes dá para açambarcar viveres ou papel higiénico como foi no princípio .
Ainda assim, é sempre bom, para a tal nossa sanidade, fazer exercícios de desfocagem, quando se trata de assuntos que se afigurem como exclusivos e dominantes, muitas vezes manipuladores e geradores de medo, com vista a descolarmo-nos, para fora dos eventuais circuitos neuronais que, nos são daquela forma criados e que, nos manietam internamente, quer por efeito direto ou por efeito de ressonância de grupo, fazendo-nos redopiar, numa vertigem de neurose obsessiva, muitas vezes paralisadora ou eletrizante que nos subtrai, ou nos consome as defesas e só nos aumenta o sofrimento.
Ora como sabemos, a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional e também sabemos que só há dois tipos de problemas, os que têm solução e os que não têm solução, com os primeiros não devemos preocuparmo-nos, porque têm solução e com os segundos, também não devemos preocuparmo-nos, porque não têm solução.
Vem este arrazoado ao caso, para vos propor, COM VISTA Á TAL DESFOCAGEM, um pequeno exercício de raciocínio que pode ajudar a RELATIVIZAR, um pouco, a nossa atual situação.
O “Shastra Abhidharma-mahavibhasa, texto budista de 150 dC, ou seja, mais ou menos seiscentos anos depois de Buda, refere-se aos Ksanas como uma espécie de pacotes de tempo, para nos dizer que um dia é composto de 6.400.099.980 Ksanas, o que dá 74.075 Ksanas por segundo e, para se ter ainda uma pequena ideia da velocidade do pensamento, temos de saber que o Ksana é o tal “pacote” de tempo em que surgem e desaparecem, com vista ao reaparecimento seguinte, os cinco Skandhas.
Os cinco Skandhas são agregados de informação, de que fazem parte a Forma, a Sensação, a Perceção, a Atividade e a Consciência Individual, sendo a forma subdividida ainda em três tipos, as formas visíveis com referência ao mundo externo, (com as quais caracterizamos o mundo externo visível, tamanho, posição, cor, comprimento e outras), as formas invisíveis com referência ao mundo externo, (associadas aos órgãos dos sentidos ou sensações resultantes do contato físico), e as formas invisíveis com referência ao mundo interno, (pensamentos, memórias, sonhos, sentimentos etc.), tudo encadeado e dentro de cada um dos tais intermináveis vagões/contentores, os tais Ksanas, carregados de informação e que se vão empurrando a uma velocidade vertiginosa no tal "comboio do tempo".
Chegados aqui, convém dizer que uma das minhas vizinhas, se me queixava à pouco que, “com esta tristeza toda do COVID 19 ainda não tinham chegado as andorinhas ao Saltadouro”, ora eu que já as vejo, ouço e “sinto”, por aqui, vai para lá de um mês, só posso concluir que tendo ela os tais vagões cheios do tal “bicho”, não deixa espaço para outras coisas da vida, eventualmente, muito mais primaveris e prazerosas.
Está com o pensamento em circuito neuronal fechado, como os comboios a pilhas e de brincar que andam sempre à roda e, assim, com os tais Ksanas a desfilar escuros e que lhe são desenfreada e, permanentemente, carregados com covid, não vale a pena tentar meter mais nada, porque vai deitar fora sem proveito.
Talvez dê, depois de atravessar o atual túnel dos tais 6.400.099.980 Ksanas que agora atravessamos e, assim, num qualquer outro dia morno e solarengo dos próximos que eventualmente nos devolva a Primavera voltamos ao assunto, quem sabe.