05/04/2021
Como funciona uma lavagem cerebral, mentalidade de seita? Porque acontece e quais os antídotos?
O que nos faz abdicar de nossa capacidade de arbitrar decisões importantes, refletir de forma lúcida, tomar consciência de nossas virtudes e contradições e seguir uma ideia/pessoa/mito de forma cega a ponto de colocar a nossa vida e de pessoas que amamos em risco?
O que vou descrever aqui não se resume a uma religião ou seita específica e está longe de ser um método aplicado somente em meios religiosos ou de táticas de guerra. Em muitas medidas, o que nos faz cair nesses esquemas nasce em nossas casas, nas maneiras autoritárias de famílias disfuncionais que plantam as sementes que mais adiante servirão de base para o fanatismo.
Nenhuma lavagem cerebral acontece do dia para a noite, existem condições prévias que colocam uma pessoa numa condição de vulnerabilidade psicológica e social e a faz reconhecer uma nova morada num agrupamento desses.
Para quem não tem convicções mais sólidas sobre sua importância, o guia vem como uma voz na escuridão da vida. Para quem passou a vida toda reprimindo e anulando as suas próprias vontades, o mentor se transforma numa figura com aparência amorosa que surge como alternativa ao domínio previamente sofrido. Períodos de crise, de transição, de perdas abruptas ou, enfim, de enfraquecimento da identidade, facilitam a conversão justamente porque seitas proporcionam um senso de identidade renovada, a promessa de uma vida incomum.
Se ele é uma figura real ou não, isso acaba sendo o menos relevante. O importante é que ele tenha sido alguém comum como nós que fez a travessia completa do mar da ignorância para um lugar de luz absoluta. O conteúdo da luz dependerá da seita, pode ser dinheiro, sabedoria, poderes sobrenaturais, divindade, o importante é que ele seja o portador dessa nova verdade. Normalmente, a figura de poder costuma ser possuída de um narcisismo muito sofisticado, que não é identificável com facilidade, pois vem embalado numa aura de beatitude. A principal característica dos métodos de lavagem cerebral é a criação de uma noção clara da existência de dois grupos muito distintos entre si: os que aceitam as novas regras do jogo da seita versus aqueles que ainda não encontraram a verdade. Nessa ideia bem primitiva já é possível ver os gatilhos do medo e do desejo de afiliação bem acesos. Quem não quer pertencer ao clube supremo dos bem-sucedidos financeiros, espirituais e sociais? Quem não quer ter acesso à informações privilegiadas que o distinguirão dos demais?
Para abrir essas chaves o seguidor precisa se submeter a uma série de rituais concretos ou simbólicos que o qualifiquem a ter determinado privilégio.
Não é possível manter uma estrutura mental e social de seita sem algumas engrenagens concretas, pois sem isso, ela perde efeito muito rápido. Normalmente, incluem práticas específicas, um molde comportamental determinados mecanismos de controle.
As práticas tem como principal objetivo afastar o recém convertido do seu núcleo original problemático, sustentar uma postura menos analítica e manter o seguidor entretido pelo máximo de tempo possível nos "produtos de evolução" que são vendidos ao longo do processo.
É ideal que a primeira impressão faça a pessoa se perguntar como viveu até aquele momento sem saber que um lugar tão especial existia. Os novatos são tratados com todo o mimo possível. É o bombardeio inicial de amor. Quem pode dizer não depois de ser tão presenteado emocionalmente com coisas lindas? O gatilho de reciprocidade exerce fundamental influência, afinal, é muito difícil resistir depois de ser tão bem recebido.
Pouco a pouco um tipo de vocabulário novo é introduzido. Termos em outras línguas são comuns, até para desconfigurar a lógica habitual e oferecer um senso de importância e exotismo ao processo, como se viesse de longe. Esses novos jargões dão um tipo de identidade ao grupo e facilita o reconhecimento de quem está dentro ou fora do círculo.
Os rituais internos costumam ser muito eficientes, pois mobilizam energia entre as pessoas, trazem relaxamento e um senso de pertencimento e integração, mas o principal disso é mover as emoções fragilizantes e deixar o senso crítico cada vez mais distante.
Privar do sono, mudar alimentação, trazer muitas informações de tal modo que confundam o sujeito e diminuam a atenção de forma geral. Isso desgasta o corpo e, em especial a mente, para que ela se torne a depositária de novas e "virtuosas" informações. Músicas e cânticos também mobilizam energia, gritos de guerra, tom de voz alterado (muito alto ou muito calmo). Roupas ou objetos abençoados também são práticas complementares no processo de renovação.
Se quer simular uma jornada especial, é preciso muitos degraus, muitas chaves e muitos comportamentos pré-requisitados para que cada fase seja ultrapassada. É como jogar Pitfall: não tem fim.
A Cientologia, por exemplo, é expert nessa prática. São tantos níveis a serem atingidos que nem o seu criador conseguiu inventar tantas histórias que confirmassem seu sistema de evolução intergaláctica. Controle as informações e terá pessoas obcecadas por merecer, fazendo tudo o que for preciso para obter atalhos evolutivos.
O essencial do método é: anule o quanto puder a capacidade analítica e, se a usar, que seja em função do "coração". É válido saber usar a voz subliminar que pode ser doce (para provocar suspense e quietude) ou enérgica (para acionar as forças primitivas) de forma a conduzir as emoções para um lugar de acolhimento ou temor conforme o efeito desejado.
As exigências externas aumentam, o servo precisa dar mais e mais, em demandas infinitas, até que toda a sua identidade desapareça e se transforme em mais uma câmara de eco da voz do mestre.
A pessoa começará a odiar o seu passado, sua história e suas relações anteriores como forma de criar um divórcio interior: eu não sou mais aquele eu. Desse modo, o que se vende é que se pode acabar com a dimensão destrutiva e egocêntrica da personalidade para criar uma personalidade limpa, dissidente do passado. Dali pra frente não é raro que o sujeito ganhe um novo nome de iniciado ou um determinado grau de luminosidade e comece a reescrever o seu passado, retratando-o como deplorável.
Daqui para frente, é uma manutenção continuada, mas sempre reforçando a ideia de que o bem está dentro da comunidade e o mal está lá fora, de um lado a cura e do outro a queda .
Absolutamente tudo e todos precisam ser vistos com desconfiança.
A própria pessoa é encorajada a ser uma espiã de si mesma, de forma a deixar o controle de sua própria consciência nas mãos do guru.
O bode expiatório está bem delineado: qualquer um que faça algum contraponto, à causa de uma seita é mantido sobre vigilância e questionamento. Não é digno nem está próximo de sua divindade porque tem inveja, não compreende a luz é ingrato, ressentido, menos evoluído e o carma mais cedo ou mais tarde vai levá-lo à conversão.
O mérito de coisas boas que sucedem na vida do fiél é do grupo, mas os tropeços são responsabilidade da pouca dedicação e fé do indivíduo. O combate à preguiça e desistência é radical, afinal, seguidor preguiçoso não rende nada para a seita.
No processo já consolidado, o seguidor passa a ser os olhos e ouvidos do líder, bloqueando qualquer informação crítica ao grupo e de todos é exigida uma entrega absoluta, sem qualquer escrutínio, numa plena fé "cega".
Para impedir que qualquer pessoa queira arriscar por em causa a filosofia do grupo ocorrem muitas ameaças de perdas de privilégios e vantagens divinas, emocionais e/ou psíquica. Se alguém sair, é um traidor de uma causa santa e se torna um novo inimigo, para reforçar aqueles que ficaram e evitar que outros também saiam da seita. Nada do que o dissidente falar é levado em consideração, afinal, ele caiu em descrédito. Quem ousa questionar o mestre e os seus métodos está ameaçado frontalmente com a perda de prestígio do grupo.
O que esse tipo de abuso espiritual pode acarretar na personalidade de um indivíduo?
As possibilidades são variadas, mas a mais evidente é um tipo de vazio existencial súbito acompanhado de isolamento social, afinal, todos os laços emocionais giravam em torno da comunidade anterior.
O sentimento de desolamento, menos digno, impuro, culpa e inadequação são comuns. Se a pessoa tinha sentimentos ou problemas psicológicos camuflados, isso pode voltar à tona, pois não havia sido efetivamente cuidado, mas convertido e diluído no contexto da seita.
Não é simples trazer um fanático à tona, mas certamente nenhuma abordagem radical e intensa deve ser usada para reverter o quadro. Ter curiosidade, se aproximar, oferecer apoio, colo, afetuosidade, enfim, compensar de maneiras mais saudáveis os fatores de fragilização anterior à conversão podem funcionar como resgate. Mais importante do que tentar trazer de volta uma identidade prévia é criar uma rede de apoio, especialmente no caso de a pessoa ter medo de lidar com o isolamento pós-seita.
Não é fácil assumir a responsabilidade pelos próprios atos e pelo gestão emocional da complexidade de uma vida adulta.
Aprendendo a aceitar as ambiguidades emocionais pode-se abrir um diálogo de "volta" até que o "feitiço" quebre.
Depois de um tempo de distanciamento, readequação social e emocional, muitos se reabilitam. Porém, podem carregar consigo um tipo de resistência absoluta a qualquer tipo de religiosidade ou entrega emocional guiada por instituições ou gurus. Para outros, a reabilitação se torna lenta e quase inexistente, resultando num tipo de apatia pessoal. A verdade é que esse descompasso, dependendo de quão funda foi a imersão, tem efeitos imprevisíveis sobre a personalidade de alguém.
Algumas pessoas mais apocalípticas poderiam alegar que esse texto serviria de base para uma mente sombria se apoderar e usar em benefício próprio. Sim, é verdade, mas nada do que falei aqui é segredo. Há inúmeros líderes de grupos religiosos que, certamente, têm técnicas mais sofisticadas que as aqui apresentadas.
Porém, este raio-x tem o intuito de clarear aqueles que em algum momento já se perguntaram o quão atolados podem estar em suas próprias condutas de vida e convicções sociais, políticas, psicológicas e espirituais.
Esse artigo é um alerta para que esse tipo de prática seja desfeita por dentro.
Se eu puder deixar pelo menos uma pulga atrás da orelha, então, posso considerar que a missão está cumprida.
Texto do psicólogo Frederico Mattos.
Que este artigo possa servir para reflexão na medida em que as nossas fragilidades podem levar-nos a este tipo de comportamento.
Sim, estou incluída nesta possibilidade. Na verdade em ambas. Tanto de presa quanto de caçador.
😊