26/12/2025
Pronto, vamos falar daquilo que ninguém gosta de ouvir: a depressão pós-parto desmonta o conto de fadas. Toda a gente vende a ideia de “milagre”, “amor absoluto”, “luz”, mas ninguém te avisa que, depois de parir, a psique abre fissuras onde aparece tudo o que estava mal resolvido em ti. Não é só hormonas, é identidade, é inconsciente, é a colisão entre a mulher que eras e a mãe que és obrigada a ser de um dia para o outro. O corpo dói, a mente oscila, a sociedade exige gratidão permanente e tu, no meio disso, sentes-te vazia, irritada, confusa, culpada por não corresponder ao guião. Há um buraco que puxa para dentro e sussurra “não estás à altura”. A depressão pós-parto é esse buraco a falar alto.
É violento, porque és confrontada com limites reais: não controlas tudo, não consegues ser “perfeita”, não consegues ser sempre doce, e a fantasia da “mãe ideal” implode. A psique tenta reorganizar-se, mas fá-lo com dor. A tristeza não é fraqueza moral, é sinal de que algo em ti está a lutar para nascer junto com o bebé: uma nova versão tua, mais verdadeira, menos obediente às expectativas. E sim, pode trazer pensamentos feios, irritação com o choro, vontade de desaparecer, distanciamento emocional. Não te transforma num monstro, expõe a tua humanidade.
Sair desse lugar implica reconhecer a ferida e abrir espaço para cuidado real. Falar, pedir ajuda, descansar, permitir apoio, corrigir o que é físico quando existe e trabalhar o que é psíquico com seriedade. Não é sobre “voltar a ser quem eras”, é sobre integrares quem estás a ser agora. A maternidade não precisa de santas, precisa de mulheres vivas, imperfeitas e presentes. Quando a mãe é cuidada, a relação com o bebé ganha verdade, não performance. A depressão pós-parto não destrói quem és, obriga-te a olhar para ti com brutal honestidade e, sim, isso pode ser doloroso… mas é também profundamente transformador.
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