14/03/2026
Aprender com o corpo, aprender a pensar com o corpo, permite que se perceba que a atenção é uma consensualidade de sentidos. E que corpo e pensamento aprendem embrenhados um no outro. Aprender com o corpo é assumir um perpétuo movimento com que se vai dos sentidos e dos sentimentos àquilo com se discorre e se abstrai. Com que se liga e sintetiza. A motricidade é a melhor amiga da leitura.
Aprende-se com o movimento e com o corpo. Sempre! E é por isso que atenção jamais é contenção. As crianças atentas nunca estão nem quietas nem caladas. Mas num movimento silencioso com que ligam aquilo que apanham no ar a tudo o que já sabem.
A atenção liga os sentidos, os sentimentos, o corpo e o pensamento. E é por isso que a aprendizagem da escrita, por exemplo, precisa da educação física, da educação musical, da educação visual, das histórias que se escutam e da palavra, e da projeção de tudo isso num papel. Onde o som se guarda na escrita com que se desenha, como se se fosse duma ideia ao utensílio duma obra.
Aprende-se primeiro a ler ou a escrever? Primeiro, aprende-se a escutar. O som das letras; todas juntas. Depois, separando-as nos seus sons, aprende-se a desenhá-lo; um por um. A seguir, a lê-las. Para que se voltem a juntar. Quando se escreve.
A leitura não vive sem a escrita. A escrita precisa da interpretação. A leitura carece da motricidade. A escrita da atenção. Quanto menos motricidade menos atenção. Quanto menor for a paciência entre aquilo que se escuta e os pequenos remoinhos que fazem com que isso se mexa dentro nós, menos se cogita e conjectura. Menos se imagina. Menos se ergue e reconstrói. Menos se vai da espera à construção. Menos se procura. Pior se compreende. Mais se traz ruído e dispersão à atenção. Menos se vai do mistério ao encantamento. Menos o silêncio se usa para pensar. Mais se f**a pelo fast food da aprendizagem e pela iliteracia. Menos se recorda. Pior se aprende.
É por isto que o uso predominante do digital no primeiro ciclo não é tão razoável como parece. Não se trata de fazer com que o ensino através do digital seja interdito. No primeiro ciclo, o digital faz sentido como apoio educativo.