22/02/2026
Quão Infantil é a Humanidade?
Quando a cor da pele ainda serve de critério, mesmo entre risos e camisolas levantadas.
Não é a cor que nos divide. É a imaturidade.
Trabalhava eu no Banco Comercial de Moçambique quando uma cena aparentemente banal me marcou para sempre. Era um daqueles fins de tarde pesados, de calor húmido que nos exigia 3 duches ao dia, e o cansaço nos deixa mais permeáveis ao que normalmente deixaria passar. Estávamos todos descontraídos, a conversar depois de um dia longo, a trocar provocações leves, aquele humor que nasce da convivência diária e da confiança instalada. Confiança que eu tinha conquistado a ferros.
Foi então que alguém sugeriu, entre risos, que se alinhassem por ordem, do mais claro para o mais escuro, e os meus colegas alinharam-se, assim, com uma naturalidade desconcertante, como quem organiza uma fotografia de grupo, mas com um critério que ninguém questionou. Um a um, foram-se posicionando segundo a tonalidade da pele, comparando braços, aproximando rostos, medindo diferenças subtis com gargalhadas cúmplices, como se aquilo fosse apenas uma brincadeira inofensiva, uma leve provocação entre colegas que se estimam.
Eu sei que não havia intenção maldosa, sei mesmo. Eram pessoas boas, inteligentes, a tentar ser engraçadas e charmosas, talvez até a brincar com o próprio tema da diversidade. Mas naquele instante senti qualquer coisa a apertar-me por dentro, uma espécie de silêncio interno que contrastava com o barulho dos risos, porque ali, naquele alinhamento cromático, estava exposta a nossa infantilidade coletiva.
O busílis não era a piada, era o paradigma invisível que a sustentava, a ideia antiga, arcaica, de que a cor é um critério, de que pode servir como eixo organizador, ainda que sob a capa do humor. É aqui que a dicotomia da Humanidade se revela com uma clareza quase cruel: proclamamos igualdade, defendemos direitos, falamos de inclusão, mas, no momento descontraído, recorremos ao velho impulso de classif**ar.
Somos uma espécie fascinante, mas emocionalmente ainda imatura. O cérebro adora categorias, adora simplif**ar o mundo para reduzir a incerteza, claro, escuro, bonito, feio, semelhante, diferente, como se a complexidade fosse demasiado complexa para a aceitarmos. É um mecanismo primário de sobrevivência, mas sobreviver não é o mesmo que evoluir, e é precisamente essa dissonância que me inquieta, porque sabemos, racionalmente, que somos iguais, que a biologia é inequívoca, que a única diferença real está na quantidade de melanina, na geografia dos antepassados, na idiossincrasia cultural que cada um carrega, e sabemos tudo isto com dados, com ciência, com história, com consciência. E, no entanto, ainda brincamos como se a tonalidade fosse um marcador diferenciador.
Bolas, como é que isto ainda é compreensível, quanto mais aceitável?
Somos todos iguais, iguais na estrutura, iguais na vulnerabilidade, iguais na capacidade de amar, de errar, de aprender. O que muda é a superfície, é a tez, é a variação estética que a natureza distribuiu com generosidade. Nada mais. E, no entanto, a Humanidade continua a comportar-se como uma criança no recreio, a formar filas, a comparar diferenças. Talvez porque assumir igualdade verdadeira exige responsabilidade, logo, maturidade, e maturidade raramente é confortável.
E a verdade desconfortável é esta: não são só os outros. Não são só os jogadores, os dirigentes, os anónimos nas bancadas. Somos nós também, nas piadas que deixamos passar, nas gargalhadas em que participamos, nos silêncios convenientes. O preconceito raramente começa num estádio. Começa na leveza com que relativizamos.
Naquele dia, em Moçambique, percebi que a evolução tecnológica não garante evolução ética. Podemos discutir inteligência artificial, mercados globais, bitcoins e afins. Podemos falar de novos paradigmas económicos e sociais, mas se ainda organizamos pessoas pela cor da pele, mesmo em tom de brincadeira, então ainda estamos a aprender o básico.
Porque esta semana, num jogo de futebol, numa equipa portuguesa que me envergonhou profundamente, assistimos a um episódio de racismo tão explícito que já nem cabe no disfarce do “foi mal interpretado”. O jogador tapou a boca com a camisola para insultar o adversário. Um gesto quase teatral, como quem acha que a maldade desaparece se for sussurrada atrás de algodão e poliéster.
Vamos lá a ver. Se tapas a boca para falar, não é para recitar poesia. Aposto o meu dedo mindinho que não foi para lhe dizer algo do género: “Vivi, faz-me um filho!” Nem para discutir literatura russa, nem para partilhar uma receita de bacalhau espiritualizado. Tapou a boca porque sabia que o que ia sair dali era feio. E quando sabemos que é feio e mesmo assim dizemos, isso já não é ingenuidade. É escolha.
E é aqui que a dissonância coletiva se torna gritante. Um estádio cheio, câmaras por todo o lado, redes sociais em modo amplif**ador permanente, e ainda assim alguém acredita que esconder a boca é esconder a intenção. Como se o problema fosse a leitura labial e não o conteúdo da frase.
Um comportamento infantil com um salário milionário e patrocinado por marcas que falam de inclusão.
Sabes aquela frase? “Eu não sou ra***ta, mas…” — e depois vem o comentário que desmonta a primeira parte em três segundos. Estudamos esta construção frásica no Coaching e na PNL. É quase um ritual moderno de absolvição preventiva. Primeiro nego, depois ataco. Primeiro lavo as mãos, depois sujo-as.
Tapar a boca com a camisola é a versão física desse ‘mas’.
Não apaga a intenção. Não purif**a a frase. Apenas revela consciência de culpa. E isso é o mais inquietante. Porque quando alguém sabe que o que vai dizer é humilhante, e ainda assim diz, já não estamos no território da ignorância. Estamos no território da *escolha*.
Voltamos sempre ao mesmo ponto, a cor como critério, a tez como provocação, a melanina como munição.
Quão infantil é a Humanidade para ainda escorregar nisto? Somos todos iguais, e o que muda é a tonalidade da pele, não é a dignidade, não é a inteligência, não é o valor. Enquanto ainda precisarmos de vírgulas defensivas ou de camisolas estrategicamente levantadas para disfarçar preconceito, signif**a que ainda não crescemos o suficiente.
Talvez o verdadeiro salto da Humanidade não esteja em conquistar novos territórios nem em desenvolver tecnologias mais rápidas. Talvez esteja simplesmente em parar de usar a cor da pele como critério. Tonalidade é tonalidade. Não é hierarquia. Não é argumento. Não é arma.
Mas crescer como espécie não acontece sozinho. Não é automático. Não vem com a idade, nem com dinheiro, nem com cargos, nem com discursos bonitos sobre inclusão. Crescer é uma decisão prática.
E a decisão começa nas coisas pequenas. Começa quando alguém faz uma piada e nós não rimos. Começa quando alguém diz “eu não sou ra***ta, mas…” e nós não aceitamos a frase como normal. Começa quando percebemos que tapar a boca para insultar alguém não diminui a gravidade do que foi dito, só prova que quem falou sabia que era errado.
O racismo não começa no estádio. O estádio é só o lugar onde f**a visível. Ele começa nas conversas informais, nas piadas que deixamos passar, no silêncio que escolhemos para evitar desconforto. Começa quando relativizamos. Começa quando fingimos que não é assim tão grave.
Se queremos uma sociedade adulta, então comportemo-nos como adultos. Adultos assumem responsabilidade pelo que dizem. Adultos não escondem preconceito atrás de vírgulas nem de camisolas. Adultos não classif**am pessoas pela cor, nem a brincar.
A evolução ética depende de escolhas individuais repetidas. Depende de cada um de nós decidir interromper o padrão em vez de o justif**ar.
Enquanto continuarmos a apontar apenas para o jogador, para o clube, para “os outros”, continuaremos na mesma imaturidade que criticamos.
Crescer implica parar. Parar de rir. Parar de relativizar. Parar de repetir frases nunca pensadas com profundidade e observação, como: Portugal não é um país ra***ta.
E isso não é abstrato. É pessoal.
A pergunta não é se a Humanidade vai amadurecer.
A pergunta é se nós vamos.
Como dizia Krishnamurti, “Quando te identif**as com uma nacionalidade, uma religião ou uma ideologia, estás a separar-te do resto da humanidade.”
By Vera Xavier