19/02/2026
— Mãe, a Leonor está a chorar outra vez! — gritou o meu marido, Rui, da sala, enquanto eu tentava acabar de preparar o jantar. O cheiro do arroz queimado misturava-se com o som insistente do choro da minha filha, que ecoava pela casa como uma sirene de alerta. Corri até ao quarto dela, onde a encontrei encolhida, abraçada ao urso de peluche.
— O que se passa, meu amor? — perguntei, ajoelhando-me ao lado da cama.
— Não quero ir amanhã para o jardim de infância — murmurou, com os olhos vermelhos e as bochechas molhadas.
O coração apertou-se-me. Durante meses, a adaptação da Leonor ao jardim de infância tinha sido um desafio. Mas, nas últimas semanas, ela parecia finalmente feliz, graças à educadora Marlene. Era ela quem conseguia acalmar a minha filha, quem lhe contava histórias ao ouvido e lhe dava a mão quando o mundo parecia demasiado grande. O que teria mudado?
Na manhã seguinte, ao deixar Leonor no jardim de infância, reparei que o ambiente estava estranho. Os pais falavam em sussurros, lançando olhares furtivos para a porta da sala dos 3 anos. A educadora Marlene não estava à entrada, como de costume. Em vez disso, a auxiliar, Dona Teresa, recebeu-nos com um sorriso forçado.
— A Marlene hoje não veio — disse, evitando o meu olhar. — Mas a Leonor vai ficar bem comigo, não se preocupe.
No caminho para o trabalho, o telemóvel vibrou. Era uma mensagem no grupo de pais do WhatsApp:
«Alguém já ouviu o que se passou com a Marlene? Dizem que foi suspensa!»
O sangue gelou-me nas veias. Suspensa? Porquê? A Marlene era a alma daquela sala, a única que conseguia lidar com as birras da Leonor. As mensagens começaram a chover:
«Ouvi dizer que foi apanhada a gritar com uma criança.»
«Não, foi pior. Dizem que bateu num menino!»
«A minha filha disse que ela chorava muito ontem.»
O pânico instalou-se. Liguei imediatamente à minha amiga Sofia, mãe do Tomás, que também era da sala da Leonor.
— Sofia, sabes o que se passou com a Marlene?
— Olha, só sei o que ouvi dizer. Parece que houve uma denúncia anónima. Dizem que ela perdeu a cabeça com uma criança. Mas eu nunca vi nada de estranho nela, tu viste?
— Nunca! A Leonor adora-a. Não acredito que ela fosse capaz de fazer mal a alguém.
— Pois, mas sabes como é… às vezes as pessoas surpreendem-nos.
Durante o dia, não consegui concentrar-me no trabalho. As palavras «denúncia», «gritos», «bater» rodopiavam-me na cabeça. Quando fui buscar a Leonor, reparei que várias mães estavam reunidas à porta, num círculo apertado.
— Isto é inadmissível — dizia a mãe da Matilde, com a voz carregada de indignação. — Não podemos permitir que uma pessoa assim esteja com os nossos filhos!
— Mas ninguém sabe o que aconteceu ao certo — tentei intervir. — Não podemos julgar sem provas.
— A minha filha disse que a Marlene gritou com ela — atirou outra mãe. — E a tua, não disse nada?
Olhei para a Leonor, que me apertava a mão com força. Os olhos dela estavam baixos, como se tivesse medo de falar. No carro, tentei puxar por ela.
— Filha, aconteceu alguma coisa com a educadora Marlene?
Ela hesitou, mordendo o lábio.
— Ela chorou muito ontem. E depois foi embora. Eu fiquei triste.
— Mas ela fez-te mal? Ou a algum amigo teu?
— Não, mãe. Só chorou. E disse que estava cansada.
O alívio misturou-se com a dúvida. Porque estaria Marlene tão em baixo? E porque é que as crianças estavam a dizer coisas diferentes?
Nessa noite, o Rui foi direto ao assunto:
— Achas que a Leonor está mesmo bem naquele jardim de infância? Se a Marlene fez alguma coisa, temos de agir.
— Mas a Leonor nunca se queixou. E se isto for só um mal-entendido?
Continuação no primeiro comentário 👇👇