13/03/2026
— Outra vez arroz, Mariana? — A voz da Dona Lurdes ecoa pela cozinha, carregada de desdém, enquanto pousa a mala na cadeira e se senta, já de olho no prato do almoço. — O Miguel precisa de variedade, menina. Não é só arroz e frango todos os dias.
Sinto o sangue a ferver-me nas veias, mas engulo em seco. O Miguel, o meu filho de quatro anos, br**ca no tapete da sala, alheio à tensão que paira no ar. O meu marido, Rui, ainda não chegou do trabalho. Como sempre, sou só eu e ela, frente a frente, num duelo silencioso de olhares e palavras não ditas.
— Fiz também uma sopa de legumes, Dona Lurdes. — Tento sorrir, mas sei que o meu rosto denuncia o cansaço. — E preparei fruta para a sobremesa.
Ela revira os olhos, pega no comando da televisão e liga as notícias, ignorando-me. O cheiro do arroz acabado de fazer mistura-se com o aroma do detergente, lembrando-me que ainda tenho a loiça do pequeno-almoço por lavar. O relógio marca 13h15. Ainda faltam horas para o Rui chegar e, até lá, Dona Lurdes vai entreter-se com o neto, deixando-me com a casa para arrumar e o almoço para servir.
— Mariana, traz-me um copo de água, faz favor. — O tom é de quem está habituada a ser servida.
Levanto-me, pego no copo e encho-o, tentando não deixar transparecer a irritação. Penso em como era a minha vida antes de casar. Tinha sonhos, ambições, queria ser professora. Agora, sou a dona de casa que todos esperam que seja perfeita, mas ninguém vê realmente.
— O Miguel já tomou o xarope? — pergunta ela, sem me olhar.
— Já, dei-lhe depois do pequeno-almoço.
— Tens de ter cuidado, Mariana. O Rui era muito doente em pequeno. Não quero que o meu neto fique igual.
A cada frase, sinto-me mais pequena. Sei que ela não confia em mim, que me vê como alguém insuficiente para cuidar do filho dela e do neto. Tento não chorar. Não agora, não à frente dela.
O almoço decorre em silêncio, interrompido apenas pelas gargalhadas do Miguel e os comentários ocasionais da Dona Lurdes sobre a novela da noite anterior. Quando termina, levanta-se, limpa a boca com o guardanapo e diz:
— Vou levar o Miguel ao parque. Ele precisa de apanhar ar. — Olha para mim, como se esperasse que eu protestasse.
— Está bem, Dona Lurdes. Eu fico a arrumar a cozinha.
Ela sorri, satisfeita. Pega no Miguel pela mão e sai, deixando-me sozinha com a pilha de pratos, panelas e o silêncio pesado da casa. Lavo a loiça, limpo a mesa, varro o chão. Oiço os risos do Miguel ao longe, vindos do parque. Sinto uma pontada de inveja — queria ser eu a br**car com ele, mas estou presa às tarefas que nunca acabam.
Quando regressam, Dona Lurdes está radiante. Conta-me como o Miguel brincou com outros meninos, como foi elogiado por uma vizinha. Sinto-me excluída, como se não fizesse parte daquele momento. O Miguel corre para mim, abraça-me, mas logo volta para a avó, que lhe promete um gelado.
O Rui chega ao fim da tarde. Dona Lurdes faz questão de lhe contar tudo o que fez com o neto, como se eu não tivesse estado presente o dia todo. O Rui sorri, agradece à mãe, e eu fico ali, invisível, a preparar o jantar.
— Mariana, a mãe do Rui faz tanto pelo Miguel… — diz-me a minha própria mãe ao telefone, quando desabafo. — Devias estar agradecida.
Mas ninguém vê o que f**a por fazer, o que me pesa nos ombros. Ninguém vê as noites mal dormidas, as preocupações, o medo de falhar. Sinto-me sozinha, mesmo rodeada de gente.
Uma noite, depois de todos se deitarem, sento-me na varanda, com uma chávena de chá nas mãos. Oiço o silêncio da rua, o som distante de um cão a ladrar. Pergunto-me se algum dia serei reconhecida pelo que faço, se algum dia vou voltar a ser a Mariana que sonhava alto, que queria mais do que isto.
No dia seguinte, tudo se repete. Dona Lurdes chega cedo, traz bolos para o Miguel, critica a minha maneira de arrumar a sala, diz que o tapete está torto. Tento respirar fundo, não responder. O Miguel faz birra porque quer ir ao parque, e ela olha para mim como se a culpa fosse minha.
— Mariana, tens de ser mais firme. O Rui nunca fazia estas birras.
— Cada criança é diferente, Dona Lurdes.
— Pois, pois… — murmura, como se não acreditasse.
À noite, quando o Rui chega, tento falar com ele.
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