Estilo de vida saudável

Estilo de vida saudável Cuidamos da nossa saúde física e psicológica

— O que é isto, Maria? — A voz da minha sogra cortou o silêncio da sala como uma lâmina. — Que raio de cabelo é esse no ...
28/12/2025

— O que é isto, Maria? — A voz da minha sogra cortou o silêncio da sala como uma lâmina. — Que raio de cabelo é esse no menino?

Senti o sangue fugir-me do rosto. O António, com apenas dois dias de vida, dormia no meu colo, completamente alheio ao tumulto que a sua existência já provocava. Os seus cabelos prateados brilhavam sob a luz fraca do quarto do hospital de Santa Maria, em Lisboa. Nunca tinha visto nada assim. Nem eu, nem ninguém da família.

— É só uma cor diferente, mãe — tentei responder, mas a minha voz saiu trémula, quase inaudível. O meu marido, João, estava sentado ao meu lado, mas parecia tão perdido quanto eu. Olhava para o filho com uma mistura de fascínio e receio.

A enfermeira entrou, interrompendo o momento. — Está tudo bem por aqui? — perguntou, olhando de relance para o António. Sorriu-me, mas percebi um ligeiro franzir de sobrolho.

— O cabelo dele… — comecei eu, mas ela apressou-se a tranquilizar-me.

— Já vi casos assim. Pode ser uma condição genética rara. Vamos fazer exames, mas não se preocupe já.

A minha sogra bufou. — Isso não é normal. Na nossa família nunca houve nada disto.

Naquela noite, enquanto o João dormia numa cadeira desconfortável ao meu lado, chorei em silêncio. Não pelo cabelo do António, mas pelo medo do que viria a seguir. Tinha a certeza de que nada seria igual.

Os dias seguintes foram um turbilhão de emoções. Os médicos fizeram exames atrás de exames. Albinismo parcial, disseram por fim. Não era grave, mas era raro. O António teria de ter cuidados especiais com o sol e os olhos poderiam ser sensíveis à luz. Fora isso, era um bebé saudável.

Mas ninguém parecia ouvir essa parte. Só viam o cabelo prateado.

Quando voltámos para casa, em Almada, as visitas começaram a chegar. A minha mãe foi das primeiras.

— Maria, tens a certeza que… — hesitou, olhando-me nos olhos — …que o João é mesmo o pai?

Senti uma dor aguda no peito. Como podia ela pensar aquilo? O João ouviu e levantou-se abruptamente.

— Não admito insinuações dessas! — gritou ele, batendo com a mão na mesa.

A minha mãe corou e desviou o olhar. — Desculpa… é só que… nunca vi nada assim.

A partir desse dia, as visitas tornaram-se cada vez mais desconfortáveis. As vizinhas cochichavam à porta do prédio.

— Dizem que é bruxaria — ouvi uma delas sussurrar à outra.

Comecei a evitar sair à rua com o António. Sentia os olhares curiosos e os sorrisos forçados das pessoas no supermercado, no café da esquina, até no parque infantil. Uma vez, uma senhora idosa aproximou-se e benzeu-se à nossa frente.

— Deus nos livre! — murmurou ela antes de se afastar apressadamente.

O João tentava apoiar-me, mas também ele estava a ser pressionado pela família. O pai dele recusava-se a pegar no neto ao colo.

— Não quero saber de aberrações cá em casa — disse ele num jantar de domingo, atirando o guardanapo para cima da mesa.

O João ficou calado. Eu chorei durante horas naquela noite.

Com o tempo, comecei a sentir-me isolada dentro da minha própria casa. O João trabalhava cada vez mais horas no escritório e eu ficava sozinha com o António e os meus pensamentos negros.

Uma tarde, depois de mais um telefonema frio da minha mãe, sentei-me no chão da cozinha e abracei o António com força.

— Porque é que as pessoas não conseguem ver como és lindo? — sussurrei-lhe ao ouvido enquanto ele sorria para mim com aqueles olhos grandes e brilhantes.

O tempo passou e o António cresceu. Aos três anos já corria pela casa com uma energia contagiante. Mas na escola tudo voltou a ser difícil.

No primeiro dia de jardim-de-infância, uma das educadoras chamou-me à parte.

— Sabe… alguns pais estão preocupados com o cabelo do António. Acham que pode ser contagioso…

Fiquei sem palavras. Como podia alguém pensar tal coisa?

O António começou a ser excluído das brincadeiras. Voltava para casa triste, perguntando porque é que ninguém queria ser seu amigo.

— Mãe, porque é que sou diferente? — perguntou-me uma noite, enroscado na cama.

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— António, não podes continuar assim! — gritou a minha filha, Inês, enquanto batia com força a porta do meu quarto. O ec...
28/12/2025

— António, não podes continuar assim! — gritou a minha filha, Inês, enquanto batia com força a porta do meu quarto. O eco da sua voz ainda ressoava quando me sentei na beira da cama, com as mãos a tremer. O relógio marcava três da manhã e eu não conseguia dormir. A casa estava vazia, fria, cheia de silêncios que me esmagavam.

Lembro-me do dia em que conheci a Teresa. Era verão em Lisboa, 1993. Ela usava um vestido azul e ria-se como se o mundo fosse simples. Apaixonei-me ali mesmo, no meio do Chiado, entre os pregões dos vendedores e o cheiro a castanhas assadas. Casámo-nos um ano depois, sem grandes festas, mas com uma alegria genuína. Eu trabalhava numa seguradora e ela ficou em casa, como era costume na altura. Sempre achei que era o melhor para nós: eu trazia o dinheiro, ela cuidava da casa e dos nossos filhos.

Durante anos, achei que éramos felizes. A rotina era confortável: acordar cedo, pequeno-almoço feito por ela, os miúdos prontos para a escola. Eu saía para trabalhar e voltava ao fim do dia para um jantar quente e uma casa arrumada. Não percebia que, aos poucos, nos estávamos a afastar. O amor foi-se tornando respeito, depois hábito, depois quase nada.

— António, já não falamos — disse-me ela uma noite, enquanto lavava a loiça.

— Falamos sim, Teresa. Todos os dias.

— Não é disso que falo. Falamos das contas, dos miúdos… mas já não falamos de nós.

Encolhi os ombros. Achei que era normal. Afinal, todos os casais acabam por cair na rotina. Nunca pensei que isso pudesse ser o princípio do fim.

Os anos passaram. Os nossos filhos cresceram: a Inês foi para a universidade no Porto, o Miguel começou a trabalhar numa loja de informática. Eu continuava preso ao trabalho e às preocupações. Teresa começou a sair mais com as amigas, a fazer voluntariado na paróquia. Eu sentia-me cada vez mais sozinho em casa, mas não sabia como dizer-lho.

Foi numa noite de inverno que tudo mudou. Cheguei tarde do trabalho e encontrei Teresa sentada à mesa da cozinha, com uma mala feita ao lado.

— Vou sair de casa, António.

— O quê? Estás maluca?

— Não aguento mais esta solidão a dois. Preciso de viver outra vez.

Fiquei sem palavras. Tentei argumentar, implorar até, mas ela estava decidida. Os miúdos ficaram do meu lado no início — ou assim pensei — mas rapidamente perceberam que eu também tinha culpa no cartório.

O divórcio foi rápido e silencioso. Fiquei com a casa, mas ela levou consigo tudo o que tinha cor: as plantas da varanda, as fotografias das férias em Vila Nova de Milfontes, até o cheiro do café pela manhã desapareceu.

Nos primeiros meses tentei convencer-me de que estava melhor assim. Saía mais com colegas do trabalho, tentava conhecer outras mulheres — mas nada fazia sentido. A solidão era um peso constante.

Um dia, ao fazer compras no Pingo Doce, vi Teresa ao longe. Estava diferente: mais leve, mais sorridente. Falava animadamente com um senhor que eu não conhecia. Senti uma pontada de ciúmes misturada com arrependimento.

Os anos passaram depressa demais. Os meus filhos começaram a visitar-me menos. A Inês casou-se e foi viver para Braga; o Miguel mudou-se para Londres atrás de um emprego melhor. Fiquei sozinho naquela casa grande demais para mim.

Foi então que comecei a pensar em tudo o que tinha perdido. Lembrei-me das noites em que Teresa me pedia para conversar e eu preferia ver futebol; dos jantares em silêncio; das discussões por coisas pequenas que nunca resolvíamos realmente.

Um dia criei coragem e liguei-lhe.

— Olá Teresa…

— António? Está tudo bem?

— Queria pedir-te desculpa… Por tudo.

Do outro lado ouvi um suspiro longo.

— Já passou tanto tempo…

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— Catarina, precisamos de falar. — A voz do Miguel soou tensa, quase como um sussurro carregado de medo. Eu estava a pre...
28/12/2025

— Catarina, precisamos de falar. — A voz do Miguel soou tensa, quase como um sussurro carregado de medo. Eu estava a preparar o jantar, cortando cebolas com uma precisão quase mecânica, quando senti o peso das palavras dele a pairar sobre mim.

— O que foi agora? — perguntei, tentando esconder o cansaço na minha voz. Já sabia que vinha aí problema. Desde que a minha sogra começara a insinuar que não se sentia bem sozinha no apartamento dela, eu sentia um nó no estômago sempre que o Miguel queria conversar.

Ele hesitou, olhou para o chão e depois para mim, como se procurasse coragem no fundo dos meus olhos.

— A minha mãe decidiu dar o apartamento à Mariana. Vai mudar-se para cá… para nossa casa. — Disse isto de uma vez só, como quem arranca um penso rápido.

O silêncio que se seguiu foi tão denso que quase podia cortá-lo com a faca que tinha na mão. Senti as lágrimas a quererem saltar-me dos olhos, mas engoli em seco. Não podia chorar ali, não à frente dele.

— E tu concordaste com isso? — perguntei, tentando manter a voz firme.

— Catarina, ela é minha mãe… Não posso deixá-la sozinha. E a Mariana está grávida, precisa de espaço…

— E nós? Nós não precisamos de espaço? — O tom saiu mais alto do que eu queria. O nosso T2 já era pequeno para nós os dois e os miúdos. Agora íamos ser cinco adultos e duas crianças num espaço onde mal cabiam quatro pessoas.

O Miguel não respondeu. Limitou-se a encolher os ombros e saiu da cozinha. Fiquei ali, sozinha, com o cheiro da cebola a arder-me nos olhos e no coração.

Naquela noite, mal consegui dormir. Ouvia os miúdos a ressonar nos seus quartos minúsculos e imaginava a minha sogra a ocupar o sofá da sala, a reclamar do barulho, a criticar a forma como educo os meus filhos ou cozinho o arroz. Conhecia-a demasiado bem para saber que não ia ser fácil.

No dia seguinte, ela chegou com duas malas e um sorriso vitorioso nos lábios.

— Olá, Catarina! Que bom ver-te! — disse ela, abraçando-me como se fôssemos as melhores amigas do mundo.

Fingi um sorriso e ajudei-a a entrar com as malas. O Miguel estava nervoso, tentava agradar-lhe em tudo. Os miúdos ficaram excitados com a novidade, mas eu sabia que era só uma questão de tempo até começarem as discussões.

A primeira semana foi um inferno. A minha sogra criticava tudo: o pequeno-almoço era demasiado simples, as crianças faziam demasiado barulho, o Miguel não lhe dava atenção suficiente. Eu sentia-me uma estranha na minha própria casa.

Uma noite, depois de um jantar particularmente tenso em que ela implicou com o facto de eu ter feito bacalhau à Brás em vez de cozido à portuguesa, fechei-me na casa de banho e chorei em silêncio. Senti-me derrotada, impotente. O Miguel tentava acalmar-me, mas eu via nos olhos dele que também estava perdido.

As discussões entre nós começaram a aumentar. Pequenas coisas tornaram-se grandes batalhas: quem ficava com as crianças enquanto eu ia ao supermercado, quem limpava a casa depois do jantar, quem tinha direito ao comando da televisão. A minha sogra parecia alimentar-se do nosso conflito, sempre pronta para lançar mais lenha para a fogueira.

Uma tarde, ouvi-a ao telefone com a Mariana:

— Aqui está tudo um caos… A Catarina não sabe organizar nada! Se não fosse eu, isto já tinha ido tudo por água abaixo…

Senti uma raiva surda crescer dentro de mim. Não bastava estar ali a invadir o nosso espaço; ainda me culpava por tudo o que corria mal.

O Miguel começou a chegar mais tarde do trabalho. Dizia que tinha reuniões ou que precisava de desanuviar com os colegas. Eu sabia que era mentira. Ele só queria fugir ao ambiente tóxico que se instalara em casa.

Os miúdos começaram a ter pesadelos. A Matilde acordava a chorar durante a noite e o Tomás fazia birras por tudo e por nada. Eu sentia-me cada vez mais sozinha, cada vez mais sufocada.

Um sábado de manhã, depois de mais uma discussão sobre quem ia limpar a casa de banho, perdi o controlo:

— Basta! Isto não é vida! — gritei, surpreendendo até a mim própria.

A minha sogra olhou para mim como se eu fosse louca.

— Catarina, tens de ter mais respeito! Esta casa é do meu filho!

— E eu? Não conto? Não tenho direito à minha paz?

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— Mãe, não podes mesmo ficar com a Leonor esta semana? — A voz da Marta tremia do outro lado do telefone, misturada com ...
28/12/2025

— Mãe, não podes mesmo ficar com a Leonor esta semana? — A voz da Marta tremia do outro lado do telefone, misturada com o barulho apressado de fundo. — O Pedro tem de ir ao Porto, eu tenho reuniões até tarde e não temos mais ninguém.

Fechei os olhos por um instante, sentindo o peso do pedido. A minha cabeça latejava, o corpo cansado depois de mais uma noite mal dormida. Desde que o António morreu, há dois anos, a casa ficou grande demais para mim, mas nunca recusei um pedido da Marta. Sempre fui aquela mãe e avó que todos podiam chamar a qualquer hora. Mas naquele momento, só queria um pouco de paz.

— Marta, filha… desta vez não posso mesmo. Tenho consulta no hospital, sabes que ando com aquelas dores nas costas e… — Hesitei, sentindo-me egoísta só por pensar em mim.

Do outro lado, silêncio. Depois, um suspiro pesado.

— Pois… está bem. Não te preocupes. — A voz dela ficou fria, quase cortante. — Eu arranjo outra solução.

Desligou antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa. Fiquei ali, com o telefone na mão, a olhar para o vazio da sala onde ainda ecoava a gargalhada do António nas tardes de domingo. Senti um aperto no peito — não só pelas dores físicas, mas pela culpa que me invadiu.

No dia seguinte, tentei ligar à Marta. Não atendeu. Mandei mensagem: “Filha, desculpa. Preciso mesmo de cuidar de mim desta vez.” Nenhuma resposta.

As horas passaram lentas. Fui à mercearia da Dona Lurdes e reparei nos olhares de soslaio das vizinhas. A Dona Emília aproximou-se:

— Então, Ana? Ouvi dizer que a tua Marta anda aflita com a Leonor… — O tom era mais acusador do que preocupado.

Senti o rosto corar. — Não posso ajudar desta vez, Emília. Também tenho os meus problemas.

Ela encolheu os ombros e afastou-se, murmurando algo sobre como “antigamente as avós eram diferentes”.

Voltei para casa com as compras pesadas e o coração ainda mais pesado. Sentei-me à mesa da cozinha e olhei para as fotografias na parede: a Marta em pequena, o António com o sorriso aberto, a Leonor no seu primeiro aniversário. Sempre fui aquela que segurava tudo — festas, doenças, problemas financeiros. Quando o António adoeceu, fui eu que tratei dele até ao fim. Agora que precisava de um pouco de descanso, parecia que ninguém entendia.

Dois dias depois, ouvi passos na escada do prédio. Era o Pedro, meu genro. Bateu à porta sem sorrir.

— Vim buscar umas coisas da Leonor que ficaram cá — disse seco.

— Pedro… está tudo bem? — arrisquei.

Ele encolheu os ombros. — A Marta está cansada. Disse para não te incomodarmos mais.

Fiquei sem palavras enquanto ele recolhia os brinquedos da neta e saía sem olhar para trás.

Naquela noite não consegui dormir. Levantei-me e fui até à varanda. Lisboa brilhava lá fora, indiferente ao meu sofrimento. Senti-me invisível — uma sombra na vida dos outros, útil apenas quando era conveniente.

No sábado seguinte era aniversário da Leonor. Esperei pelo convite que nunca chegou. Vi as fotos no Facebook: todos sorridentes no jardim do Parque das Nações, balões cor-de-rosa e bolo de chocolate. Eu não estava lá.

Chorei baixinho na sala vazia. Lembrei-me das vezes em que fiquei acordada noites inteiras com a Marta em bebé, das sopas feitas com carinho para a Leonor quando estava doente. Agora era descartável porque disse “não” uma vez.

O telefone tocou dias depois. Era a minha irmã Helena.

— Ana, ouvi dizer que houve confusão aí em casa…

— Só porque disse que não podia ficar com a Leonor uma semana! — explodi finalmente. — Não posso ter uma vida minha? Não posso estar cansada? Será que só sirvo para ajudar?

Helena suspirou do outro lado.

— Sabes como é a Marta… sempre foi mimada pelo António e por ti. Mas tens razão, mana. Tens direito à tua vida também.

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— Mariana, não penses que vais ficar com aquilo que não te pertence! — gritou Dona Amélia, a voz dela ecoando pelo corre...
28/12/2025

— Mariana, não penses que vais ficar com aquilo que não te pertence! — gritou Dona Amélia, a voz dela ecoando pelo corredor do velho apartamento em Benfica. O cheiro a café queimado misturava-se com o perfume forte dela, e eu sentia o coração a bater tão alto que parecia querer saltar-me do peito.

Olhei para o Miguel, que estava encostado à ombreira da porta, olhos baixos, mãos nos bolsos. O silêncio dele doía-me mais do que as palavras da mãe. Eu queria gritar, queria que ele dissesse alguma coisa, qualquer coisa, mas ele limitava-se a olhar para o chão, como se ali encontrasse respostas para perguntas que nunca teve coragem de fazer.

Aquele apartamento era suposto ser o nosso novo começo. Depois de anos a viver em quartos arrendados, finalmente tínhamos conseguido um espaço só nosso — ou assim pensava eu. O Miguel herdara o apartamento do pai, mas Dona Amélia nunca aceitou essa decisão. Para ela, eu era uma intrusa, uma oportunista que lhe roubara o filho e agora queria roubar-lhe também a casa.

— Eu não quero nada que não seja nosso por direito — tentei explicar, a voz trémula. — Só quero que possamos viver em paz.

Ela riu-se, um riso seco e amargo. — Paz? Achas mesmo que vais encontrar paz aqui? Enquanto eu for viva, não te vou deixar destruir esta família!

Miguel continuava calado. Lembro-me de pensar: "Será que ele alguma vez vai escolher-me?". A dúvida corroía-me por dentro. Desde o início do nosso namoro, sentia-me sempre à margem. A mãe dele fazia questão de me lembrar todos os dias que nunca seria suficiente para o filho dela.

Os meses seguintes foram um inferno. Dona Amélia começou a aparecer sem avisar, a entrar em casa com as suas próprias chaves — nunca as tinha devolvido desde que o marido morrera. Encontrava sempre defeitos em tudo: na comida, na limpeza, até na forma como eu arrumava os livros na estante.

— Isto não é maneira de tratar uma casa! — dizia ela, atirando as almofadas para o chão. — No tempo do meu António, tudo estava impecável!

Miguel tentava apaziguar as coisas. — Mãe, por favor... — Mas ela não queria ouvir.

As discussões tornaram-se diárias. Eu comecei a evitar estar em casa quando sabia que ela vinha. Ia trabalhar mais cedo, ficava até mais tarde no escritório. Os meus colegas começaram a notar.

— Está tudo bem contigo? — perguntou-me a Sofia, uma tarde enquanto tomávamos café na copa.

— Está... — menti. Mas a verdade é que já não dormia bem há semanas. Tinha pesadelos com portas a bater, vozes a gritar, e acordava sempre com aquela sensação de sufoco.

A gota de água foi quando Dona Amélia me acusou de roubar as joias dela. Um dia cheguei a casa e encontrei-a aos gritos na sala.

— Onde estão os meus brincos de ouro? Foste tu! Só pode ter sido tu!

Miguel tentou acalmar a mãe, mas ela estava fora de si. Chamou a polícia. Os vizinhos ouviram tudo; no dia seguinte, ninguém me olhava nos olhos no elevador.

A polícia revistou o apartamento. Não encontraram nada. As joias apareceram dias depois no fundo de uma gaveta da própria Dona Amélia. Nem um pedido de desculpas.

Foi então que ela decidiu avançar para tribunal. Alegou que o testamento do marido era inválido, que Miguel não tinha direito ao apartamento e muito menos eu. Começou uma guerra judicial que parecia não ter fim.

Os dias passaram a ser preenchidos com reuniões com advogados, idas ao tribunal e noites em claro. O Miguel começou a afastar-se; passava mais tempo fora de casa, dizia que precisava de "espaço para pensar".

Uma noite, depois de mais uma audiência desgastante, sentei-me sozinha na sala escura. Olhei para as paredes nuas, para as caixas ainda por arrumar desde a última tentativa de recomeço. Senti-me tão pequena ali dentro.

Lembrei-me da minha mãe, da infância em Évora, das tardes passadas no quintal a ouvir as histórias do meu avô sobre tempos difíceis mas felizes porque havia união. Perguntei-me onde tinha ido parar essa força que sempre admirei nas mulheres da minha família.

O Miguel chegou tarde nessa noite. Sentou-se ao meu lado no sofá sem dizer nada durante longos minutos.

— Mariana... — começou ele finalmente — Eu já não sei se consigo continuar assim.

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— Não podes fazer isto, Mariana! — gritou a minha sogra, Dona Lurdes, enquanto eu tentava controlar as contrações que me...
28/12/2025

— Não podes fazer isto, Mariana! — gritou a minha sogra, Dona Lurdes, enquanto eu tentava controlar as contrações que me rasgavam por dentro. O suor escorria-me pela testa e as luzes frias do hospital de Santa Maria pareciam zombar da minha dor. O meu marido, Rui, estava encostado à parede, com os braços cruzados, sem saber para que lado se virar.

— Por favor, mãe, agora não! — sussurrou ele, mas Dona Lurdes não se calava.

— Eu só quero o melhor para o meu neto! — insistia ela, os olhos faiscando de preocupação e controlo.

Naquele instante, percebi que não era só o meu corpo que estava em trabalho de parto. Era também a minha vida, a minha identidade, a minha autonomia. Senti-me esmagada entre duas gerações: a mulher que me criou e a mulher que me julgava insuficiente para criar os meus próprios filhos.

Tudo começou meses antes, quando descobri que estava grávida pela terceira vez. Não foi planeado. O Rui ficou em choque; eu chorei de medo e alívio ao mesmo tempo. Já tínhamos dois filhos pequenos, a casa era pequena e o dinheiro curto. Mas havia amor — pelo menos eu achava que sim.

A Dona Lurdes sempre foi presente. Demasiado presente. Desde que casei com o Rui, ela fazia questão de opinar sobre tudo: desde a sopa dos miúdos até à cor das cortinas da sala. Quando soube da gravidez, apareceu em casa com um s**o cheio de roupinhas amarelas e um discurso pronto:

— Mariana, desta vez tens de fazer tudo direitinho. Não quero mais complicações como da última vez.

Fiquei calada. Da última vez, tive uma depressão pós-parto que quase me levou ao fundo do poço. O Rui não percebeu; ela fingiu não ver. Fui salva pelas amigas e por uma psicóloga do centro de saúde.

Os meses passaram entre consultas, enjôos e discussões. O Rui trabalhava cada vez mais horas no escritório de contabilidade. Eu sentia-me sozinha, exausta, invisível. Os miúdos começaram a notar — o Tomás fazia birras sem razão, a Leonor chorava por tudo e por nada.

Uma noite, depois de um jantar silencioso, explodi:

— Rui, não aguento mais! Preciso de ti! Preciso que escolhas: ou somos nós ou é a tua mãe!

Ele olhou-me como se eu fosse uma estranha.

— Mariana, ela só quer ajudar…

— Não! Ela quer controlar! E tu deixas!

Ele saiu para fumar um cigarro na varanda. Fiquei sozinha na cozinha, a olhar para os pratos por lavar e para as mãos trémulas.

No dia do parto, tudo aconteceu depressa demais. As águas rebentaram às três da manhã. O Rui levou-me ao hospital em silêncio. Quando chegámos à maternidade, Dona Lurdes já lá estava — não sei como soube tão depressa.

Na sala de espera, ela discutia com as enfermeiras:

— Quero estar presente! Sou avó!

— Só pode entrar o pai — respondeu uma enfermeira com voz firme.

O Rui hesitou. Olhou para mim, depois para a mãe.

— Mariana… talvez seja melhor ela entrar contigo. Tu ficas nervosa…

Senti uma raiva surda crescer dentro de mim.

— Não! — gritei. — Quero estar sozinha! Quero decidir eu!

Dona Lurdes começou a chorar alto:

— És ingrata! Depois de tudo o que fiz por ti!

As dores aumentavam. Senti-me pequena, esmagada pelo peso das expectativas alheias. Uma enfermeira aproximou-se:

— Mariana, está pronta? Vamos para o bloco.

Olhei para o Rui:

— Vais comigo ou ficas com ela?

Ele baixou os olhos.

— Mariana… desculpa…

Fui sozinha. No corredor frio do hospital, chorei em silêncio. Senti-me abandonada por quem mais amava.

O parto foi difícil. O bebé nasceu saudável, mas eu perdi muito sangue. Fiquei internada mais tempo do que o previsto. Nos dias seguintes, Dona Lurdes não apareceu. O Rui vinha visitar-me à pressa, sempre com o telemóvel na mão.

Quando finalmente voltei para casa, encontrei-a vazia de alegria. Os miúdos estavam com a avó materna; o Rui evitava olhar-me nos olhos.

Na primeira noite em casa, sentei-me na cama com o bebé ao colo e chorei até adormecer.

Os dias seguintes foram um desfile de silêncios e pequenas agressões passivo-agressivas. Dona Lurdes ligava para saber do neto, mas nunca perguntava por mim. O Rui mergulhou no trabalho; eu mergulhei na solidão.

Uma tarde, enquanto dava de mamar ao bebé na sala escura, ouvi a porta abrir-se com estrondo.

— Mariana! — era Dona Lurdes. — Vim ver o meu neto!

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— Não podes simplesmente aparecer sem avisar, mãe. — A voz da Sofia ecoou fria no corredor, enquanto eu segurava um s**o...
28/12/2025

— Não podes simplesmente aparecer sem avisar, mãe. — A voz da Sofia ecoou fria no corredor, enquanto eu segurava um s**o de bolos ainda quentes.

Fiquei ali, parada, com o cheiro doce a escapar do papel pardo, sentindo o peso das palavras dela mais do que o peso do s**o. O Rui, o meu filho, olhou-me de relance, mas não disse nada. A minha neta, Leonor, estava sentada no chão da sala, a brincar com legos, alheia à tensão que pairava no ar.

— Eu só queria ver-vos… — murmurei, tentando sorrir. — Trouxe uns bolinhos para o lanche.

Sofia cruzou os braços. — Hoje não dá jeito. Temos planos.

O Rui desviou o olhar para o telemóvel. Senti um nó na garganta. Quando foi que deixei de ser bem-vinda na casa do meu próprio filho? Quando foi que a minha presença se tornou um incómodo?

Voltei para casa com os bolos intactos. Sentei-me à mesa da cozinha, a olhar para as paredes amarelas que pintei com tanto carinho quando o Rui era pequeno. Oiço ainda as gargalhadas dele a correr pelo corredor, as birras por causa dos legumes, as noites em que adormecia ao meu colo depois de um pesadelo. Agora, tudo isso parece pertencer a outra vida.

A primeira vez que senti esta distância foi há cerca de um ano. Sofia sempre foi reservada, mas depois do nascimento da Leonor tornou-se ainda mais protetora. Eu tentei ajudar — ofereci-me para ficar com a bebé quando voltaram do hospital, preparei refeições, lavei roupa. Mas cada gesto era recebido com um sorriso forçado ou um “não é preciso”.

Uma tarde, enquanto embalava a Leonor na varanda, ouvi Sofia a falar ao telefone na cozinha:

— A mãe dele está sempre aqui. Não me sinto à vontade na minha própria casa.

Senti-me pequena, intrusa. Desde então comecei a avisar antes de ir lá. Às vezes nem respondiam às mensagens. Outras vezes diziam que estavam ocupados.

O Rui nunca me confrontou diretamente. Sempre foi calado, como o pai dele. Mas agora parece ainda mais distante. Quando lhe pergunto se está tudo bem, responde sempre “sim”, mas não me olha nos olhos.

No Natal passado insisti em fazer o bacalhau com todos cá em casa. Sofia disse que preferiam ficar só os três. Passei a noite sozinha a ver televisão, com o prato vazio à minha frente e as luzes da árvore a piscar para ninguém.

A minha irmã Ana diz que tenho de aceitar: “Os filhos crescem, fazem a sua vida.” Mas não é suposto uma mãe ser deixada para trás assim. Não é suposto sentir-me uma estranha na vida deles.

Há dias em que penso se fiz alguma coisa errada. Fui demasiado presente? Demasiado exigente? Lembro-me de quando o Rui era adolescente e discutíamos por causa das notas ou das saídas à noite. Mas sempre fiz tudo por ele. Trabalhei anos numa fábrica de calçado para lhe dar uma vida melhor.

Uma tarde destas decidi ligar-lhe:

— Rui, gostava de passar um domingo convosco. Sinto falta da Leonor…

Do outro lado ouvi um suspiro.

— Mãe, a Sofia anda cansada… E eu também tenho tido muito trabalho…

— Mas eu posso ajudar! Fico com a Leonor para vocês descansarem…

— Não é preciso — cortou ele. — Depois combinamos.

Desliguei antes que ele ouvisse a minha voz tremer.

Comecei a sair mais de casa para não enlouquecer com o silêncio. Vou ao mercado falar com a D. Emília das frutas ou sento-me no banco do jardim a ver as crianças brincarem. Às vezes cruzo-me com vizinhas que se gabam dos netos: “A minha Mariana ficou cá este fim de semana!” Sorrio e minto: “A Leonor também vem muitas vezes.”

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— Ana, não achas que já chega de sal? — A voz da Dona Lurdes cortou o silêncio da cozinha como uma faca afiada. Eu estav...
28/12/2025

— Ana, não achas que já chega de sal? — A voz da Dona Lurdes cortou o silêncio da cozinha como uma faca afiada. Eu estava a preparar o jantar, as mãos a tremer ligeiramente, e tentei sorrir, mas o sorriso morreu antes de chegar aos lábios.

— Está bem assim, Dona Lurdes. O Rui gosta do bacalhau um bocadinho mais temperado — respondi, tentando manter a voz calma.

Ela bufou, aproximando-se do fogão. — O Rui gosta é das coisas como eu faço. Sempre gostou. Não é agora que vai mudar.

Olhei para o relógio. Faltavam dez minutos para ele chegar. Dez minutos até eu ter de fingir que estava tudo bem, que não me sentia uma estranha na minha própria casa. Desde que Dona Lurdes se mudara connosco, depois do enfarte do sogro, tudo mudara. O silêncio confortável entre mim e o Rui desaparecera, substituído por discussões sussurradas à noite e olhares de censura durante o dia.

Lembro-me do primeiro dia em que ela entrou pela porta com as malas. — Isto vai ser só por uns tempos, Ana — disse o Rui, a voz cheia de esperança. — Ela precisa de nós agora.

Eu tentei acreditar nisso. Tentei ser compreensiva. Mas os dias tornaram-se semanas, as semanas meses. E Dona Lurdes foi tomando conta de tudo: da cozinha, da sala, até do quarto do nosso filho, o Tiago.

— O Tiago devia dormir comigo hoje — disse ela certa noite. — Está constipado e tu não sabes lidar com febres como eu.

— Dona Lurdes, eu sou mãe dele — respondi, sentindo o sangue ferver-me nas veias.

Ela olhou-me de cima a baixo. — Mãe? Uma mãe que trabalha até tarde e deixa o filho com febre sozinho? Eu nunca fiz isso ao Rui.

O Rui entrou na sala nesse momento e ficou parado entre nós, como se não soubesse para que lado se virar.

— Ana, talvez seja melhor deixares a minha mãe cuidar do Tiago esta noite — disse ele, sem me olhar nos olhos.

Senti-me traída. Não era só a minha sogra que me roubava espaço; era também o meu marido que me roubava voz.

As noites tornaram-se longas. Eu deitava-me ao lado do Rui, mas sentia-me a quilómetros de distância dele. Ele adormecia rápido; eu ficava acordada a olhar para o teto, a pensar em tudo o que perdera: a intimidade, a alegria de chegar a casa, até o cheiro do meu próprio lar.

No trabalho, os colegas perguntavam se estava tudo bem. Eu sorria e dizia que sim. Mas por dentro sentia-me a afundar.

Uma tarde, depois de mais uma discussão sobre como eu lavava mal os pratos — "Na minha casa nunca ficaram com gordura!" — fechei-me na casa de banho e chorei baixinho para ninguém ouvir.

O Tiago começou a perguntar porque é que eu estava sempre triste. Tentei esconder-lhe tudo, mas as crianças sentem mais do que vemos.

— Mamã, tu já não brincas comigo como antes — disse ele um dia, os olhos grandes e sérios.

Apertei-o contra mim e prometi-lhe que ia mudar. Mas como? Se cada gesto meu era criticado? Se cada decisão era posta em causa?

A tensão chegou ao limite numa noite em que cheguei tarde do trabalho e encontrei Dona Lurdes sentada à mesa com o Rui e o Tiago. Estavam a rir-se de uma história qualquer. Senti-me uma intrusa na minha própria família.

— Chegaste tarde outra vez — disse ela, sem sequer levantar os olhos do prato.

— O trânsito estava impossível — tentei explicar.

— Pois... Se calhar devias pensar em trabalhar menos e cuidar mais da tua família — atirou ela.

Olhei para o Rui à espera de apoio. Ele desviou o olhar.

Nessa noite não consegui dormir. Levantei-me e fui até à sala. Sentei-me no sofá e chorei em silêncio. Senti uma mão no ombro: era o Tiago.

— Mamã, não chores... — sussurrou ele.

Abracei-o com força e percebi que não podia continuar assim. No dia seguinte, decidi falar com o Rui.

— Rui, precisamos de conversar — disse-lhe assim que acordou.

Ele suspirou, já à espera da conversa difícil.

— Não aguento mais isto. Sinto-me uma estranha em casa. Preciso que escolhas: ou ela volta para casa dela ou eu vou-me embora com o Tiago.

Ele ficou em silêncio durante muito tempo. Finalmente falou:

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