28/12/2025
— O que é isto, Maria? — A voz da minha sogra cortou o silêncio da sala como uma lâmina. — Que raio de cabelo é esse no menino?
Senti o sangue fugir-me do rosto. O António, com apenas dois dias de vida, dormia no meu colo, completamente alheio ao tumulto que a sua existência já provocava. Os seus cabelos prateados brilhavam sob a luz fraca do quarto do hospital de Santa Maria, em Lisboa. Nunca tinha visto nada assim. Nem eu, nem ninguém da família.
— É só uma cor diferente, mãe — tentei responder, mas a minha voz saiu trémula, quase inaudível. O meu marido, João, estava sentado ao meu lado, mas parecia tão perdido quanto eu. Olhava para o filho com uma mistura de fascínio e receio.
A enfermeira entrou, interrompendo o momento. — Está tudo bem por aqui? — perguntou, olhando de relance para o António. Sorriu-me, mas percebi um ligeiro franzir de sobrolho.
— O cabelo dele… — comecei eu, mas ela apressou-se a tranquilizar-me.
— Já vi casos assim. Pode ser uma condição genética rara. Vamos fazer exames, mas não se preocupe já.
A minha sogra bufou. — Isso não é normal. Na nossa família nunca houve nada disto.
Naquela noite, enquanto o João dormia numa cadeira desconfortável ao meu lado, chorei em silêncio. Não pelo cabelo do António, mas pelo medo do que viria a seguir. Tinha a certeza de que nada seria igual.
Os dias seguintes foram um turbilhão de emoções. Os médicos fizeram exames atrás de exames. Albinismo parcial, disseram por fim. Não era grave, mas era raro. O António teria de ter cuidados especiais com o sol e os olhos poderiam ser sensíveis à luz. Fora isso, era um bebé saudável.
Mas ninguém parecia ouvir essa parte. Só viam o cabelo prateado.
Quando voltámos para casa, em Almada, as visitas começaram a chegar. A minha mãe foi das primeiras.
— Maria, tens a certeza que… — hesitou, olhando-me nos olhos — …que o João é mesmo o pai?
Senti uma dor aguda no peito. Como podia ela pensar aquilo? O João ouviu e levantou-se abruptamente.
— Não admito insinuações dessas! — gritou ele, batendo com a mão na mesa.
A minha mãe corou e desviou o olhar. — Desculpa… é só que… nunca vi nada assim.
A partir desse dia, as visitas tornaram-se cada vez mais desconfortáveis. As vizinhas cochichavam à porta do prédio.
— Dizem que é bruxaria — ouvi uma delas sussurrar à outra.
Comecei a evitar sair à rua com o António. Sentia os olhares curiosos e os sorrisos forçados das pessoas no supermercado, no café da esquina, até no parque infantil. Uma vez, uma senhora idosa aproximou-se e benzeu-se à nossa frente.
— Deus nos livre! — murmurou ela antes de se afastar apressadamente.
O João tentava apoiar-me, mas também ele estava a ser pressionado pela família. O pai dele recusava-se a pegar no neto ao colo.
— Não quero saber de aberrações cá em casa — disse ele num jantar de domingo, atirando o guardanapo para cima da mesa.
O João ficou calado. Eu chorei durante horas naquela noite.
Com o tempo, comecei a sentir-me isolada dentro da minha própria casa. O João trabalhava cada vez mais horas no escritório e eu ficava sozinha com o António e os meus pensamentos negros.
Uma tarde, depois de mais um telefonema frio da minha mãe, sentei-me no chão da cozinha e abracei o António com força.
— Porque é que as pessoas não conseguem ver como és lindo? — sussurrei-lhe ao ouvido enquanto ele sorria para mim com aqueles olhos grandes e brilhantes.
O tempo passou e o António cresceu. Aos três anos já corria pela casa com uma energia contagiante. Mas na escola tudo voltou a ser difícil.
No primeiro dia de jardim-de-infância, uma das educadoras chamou-me à parte.
— Sabe… alguns pais estão preocupados com o cabelo do António. Acham que pode ser contagioso…
Fiquei sem palavras. Como podia alguém pensar tal coisa?
O António começou a ser excluído das brincadeiras. Voltava para casa triste, perguntando porque é que ninguém queria ser seu amigo.
— Mãe, porque é que sou diferente? — perguntou-me uma noite, enroscado na cama.
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