27/01/2026
— Mãe, achas mesmo que isto chega? — A voz da Inês cortou o silêncio da sala, enquanto segurava o envelope branco nas mãos trémulas. O vestido de noiva ainda lhe caía nos ombros, e os olhos, outrora doces, estavam agora duros como pedra.
Fiquei ali parada, com as mãos entrelaçadas, sentindo o chão fugir-me dos pés. O António, meu marido, olhava para mim sem saber o que dizer. O envelope continha quinhentos euros — tudo o que conseguimos juntar depois de meses a apertar o cinto. Não era pouco para nós. Mas, pelos vistos, era pouco para ela.
— Inês, filha... — tentei começar, mas ela interrompeu-me.
— Toda a gente deu mais. A tia Teresa deu mil euros! O primo Rui ofereceu uma viagem! E vocês... vocês são os meus pais! — A voz dela subiu de tom, e senti o António encolher-se ao meu lado.
Naquele momento, tudo o que eu queria era abraçá-la e dizer-lhe que o amor não se mede em dinheiro. Mas as palavras f**aram presas na garganta. Lembrei-me de todas as noites em claro, das febres que baixei com panos frios, dos trabalhos extra para pagar-lhe a universidade. E agora, ali estava ela, a medir o nosso amor pelo valor de um envelope.
— Inês, sabes bem o quanto nos esforçámos... — disse António, num fio de voz.
Ela revirou os olhos. — Não é uma questão de esforço. É uma questão de prioridade. — E saiu da sala, deixando-nos sozinhos com a vergonha e a mágoa.
O resto do casamento passou por mim como um nevoeiro. Sorrisos forçados, brindes vazios. Vi a Inês rir com os amigos, dançar com o marido novo — o Miguel, rapaz simpático mas sempre distante de nós. Senti-me uma estranha na festa da minha própria filha.
Quando voltámos para casa naquela noite, sentei-me na cozinha e chorei em silêncio. António tentou consolar-me:
— Ela está nervosa, foi um dia grande... Amanhã já passou.
Mas não passou. Nos dias seguintes, Inês não atendeu as minhas chamadas. As mensagens f**aram sem resposta. O silêncio dela era um muro cada vez mais alto entre nós.
Comecei a duvidar de mim mesma. Será que falhámos como pais? Será que devíamos ter pedido dinheiro emprestado só para não f**armos mal vistos? Lembrei-me da minha mãe, a avó da Inês, que sempre dizia: “O mais importante é o coração.” Mas será que isso ainda conta neste mundo?
O António tentava manter-se forte, mas via-lhe nos olhos a mesma dor. Uma noite, depois do jantar, ele desabafou:
— Sinto-me inútil. Trabalhei toda a vida para dar à nossa filha tudo o que podia... e agora parece que nada chega.
A nossa casa ficou mais fria desde então. As fotografias da Inês espalhadas pela sala começaram a parecer relíquias de outra vida. Os vizinhos perguntavam pela recém-casada e eu sorria, fingindo normalidade.
Um dia, a Teresa — minha irmã — ligou-me:
— Ouvi dizer que a Inês anda chateada convosco por causa do presente... — disse ela, com aquele tom de quem sabe tudo.
— Não foi só pelo dinheiro — respondi eu. — Acho que foi tudo junto. Ela sempre achou que devíamos dar-lhe mais... mais tempo, mais atenção, mais apoio.
— Mas tu deste-lhe tudo! — exclamou Teresa. — Ela é ingrata!
Será? Ou será que falhei em algum momento crucial? Comecei a revisitar mentalmente cada decisão: quando voltei ao trabalho depois de ela nascer; quando não pude ir àquela apresentação na escola porque estava doente; quando discuti com ela por causa das notas no secundário...
As semanas passaram e a distância entre nós só aumentava. O António sugeriu irmos falar com ela pessoalmente.
— Não podemos deixar isto assim — disse ele. — É a nossa filha.
Marcámos um almoço num restaurante perto da casa dela. Quando chegámos, Inês já lá estava com o Miguel. O ambiente era tenso; os talheres tilintavam alto demais.
— Então... como está a correr a vida de casada? — perguntei, tentando soar leve.
— Bem — respondeu ela secamente.
O Miguel tentou aliviar:
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