Estilo de vida saudável

Estilo de vida saudável Cuidamos da nossa saúde física e psicológica

— Mãe, a Leonor está a chorar outra vez! — gritou o meu marido, Rui, da sala, enquanto eu tentava acabar de preparar o j...
19/02/2026

— Mãe, a Leonor está a chorar outra vez! — gritou o meu marido, Rui, da sala, enquanto eu tentava acabar de preparar o jantar. O cheiro do arroz queimado misturava-se com o som insistente do choro da minha filha, que ecoava pela casa como uma sirene de alerta. Corri até ao quarto dela, onde a encontrei encolhida, abraçada ao urso de peluche.

— O que se passa, meu amor? — perguntei, ajoelhando-me ao lado da cama.

— Não quero ir amanhã para o jardim de infância — murmurou, com os olhos vermelhos e as bochechas molhadas.

O coração apertou-se-me. Durante meses, a adaptação da Leonor ao jardim de infância tinha sido um desafio. Mas, nas últimas semanas, ela parecia finalmente feliz, graças à educadora Marlene. Era ela quem conseguia acalmar a minha filha, quem lhe contava histórias ao ouvido e lhe dava a mão quando o mundo parecia demasiado grande. O que teria mudado?

Na manhã seguinte, ao deixar Leonor no jardim de infância, reparei que o ambiente estava estranho. Os pais falavam em sussurros, lançando olhares furtivos para a porta da sala dos 3 anos. A educadora Marlene não estava à entrada, como de costume. Em vez disso, a auxiliar, Dona Teresa, recebeu-nos com um sorriso forçado.

— A Marlene hoje não veio — disse, evitando o meu olhar. — Mas a Leonor vai ficar bem comigo, não se preocupe.

No caminho para o trabalho, o telemóvel vibrou. Era uma mensagem no grupo de pais do WhatsApp:

«Alguém já ouviu o que se passou com a Marlene? Dizem que foi suspensa!»

O sangue gelou-me nas veias. Suspensa? Porquê? A Marlene era a alma daquela sala, a única que conseguia lidar com as birras da Leonor. As mensagens começaram a chover:

«Ouvi dizer que foi apanhada a gritar com uma criança.»

«Não, foi pior. Dizem que bateu num menino!»

«A minha filha disse que ela chorava muito ontem.»

O pânico instalou-se. Liguei imediatamente à minha amiga Sofia, mãe do Tomás, que também era da sala da Leonor.

— Sofia, sabes o que se passou com a Marlene?

— Olha, só sei o que ouvi dizer. Parece que houve uma denúncia anónima. Dizem que ela perdeu a cabeça com uma criança. Mas eu nunca vi nada de estranho nela, tu viste?

— Nunca! A Leonor adora-a. Não acredito que ela fosse capaz de fazer mal a alguém.

— Pois, mas sabes como é… às vezes as pessoas surpreendem-nos.

Durante o dia, não consegui concentrar-me no trabalho. As palavras «denúncia», «gritos», «bater» rodopiavam-me na cabeça. Quando fui buscar a Leonor, reparei que várias mães estavam reunidas à porta, num círculo apertado.

— Isto é inadmissível — dizia a mãe da Matilde, com a voz carregada de indignação. — Não podemos permitir que uma pessoa assim esteja com os nossos filhos!

— Mas ninguém sabe o que aconteceu ao certo — tentei intervir. — Não podemos julgar sem provas.

— A minha filha disse que a Marlene gritou com ela — atirou outra mãe. — E a tua, não disse nada?

Olhei para a Leonor, que me apertava a mão com força. Os olhos dela estavam baixos, como se tivesse medo de falar. No carro, tentei puxar por ela.

— Filha, aconteceu alguma coisa com a educadora Marlene?

Ela hesitou, mordendo o lábio.

— Ela chorou muito ontem. E depois foi embora. Eu fiquei triste.

— Mas ela fez-te mal? Ou a algum amigo teu?

— Não, mãe. Só chorou. E disse que estava cansada.

O alívio misturou-se com a dúvida. Porque estaria Marlene tão em baixo? E porque é que as crianças estavam a dizer coisas diferentes?

Nessa noite, o Rui foi direto ao assunto:

— Achas que a Leonor está mesmo bem naquele jardim de infância? Se a Marlene fez alguma coisa, temos de agir.

— Mas a Leonor nunca se queixou. E se isto for só um mal-entendido?

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— Não te atrevas a sair por essa porta, Mariana! — A voz da minha mãe, Leonor, cortou o ar da cozinha como uma faca. Eu ...
19/02/2026

— Não te atrevas a sair por essa porta, Mariana! — A voz da minha mãe, Leonor, cortou o ar da cozinha como uma faca. Eu já tinha a mão na maçaneta, o cas**o pendurado no braço, e o coração a bater tão alto que parecia que todos podiam ouvir.

— Mãe, eu só vou até à praça, preciso de apanhar ar — tentei explicar, mas ela já não me ouvia. Os olhos dela estavam vermelhos, e as mãos tremiam enquanto agarrava o pano da loiça.

— Desde que o teu pai morreu, só sabes trazer problemas! — gritou, e eu senti o chão fugir-me dos pés. — Foste tu que trouxeste a tristeza para a nossa família!

Aquelas palavras ficaram a ecoar na minha cabeça, como se fossem um trovão que nunca se afastava. Tinha 17 anos, e o mundo parecia-me demasiado grande e demasiado frio. O meu pai, António, tinha morrido há seis meses num acidente na estrada nacional, quando voltava do trabalho na fábrica de cortiça. Desde então, a nossa casa em Santa Comba Dão parecia um túmulo: a minha mãe quase não falava, o meu irmão mais novo, Rui, fechava-se no quarto, e eu… eu era o alvo de todas as culpas, de todos os olhares.

— Mariana, não respondas à tua mãe! — ouvi a voz da minha avó, Maria, vinda da sala, sempre pronta a defender a filha, nunca a neta. — Tens de aprender a respeitar quem te pôs no mundo.

Eu não respondi. Saí, bati a porta com força, e deixei que o frio da noite me cortasse a pele. Caminhei até ao largo da igreja, onde as luzes amarelas dos candeeiros desenhavam sombras longas no empedrado. Sentei-me num banco, abracei os joelhos e chorei. Não sabia se chorava pelo meu pai, por mim, ou por aquela família que parecia ter-se desfeito como um pano velho.

Lembrei-me do último dia em que vi o meu pai. Tinha-me dado um beijo na testa, como sempre fazia, e disse:

— Mariana, sê corajosa. A vida não é fácil, mas tu és mais forte do que pensas.

Na altura, não percebi o que ele queria dizer. Agora, cada palavra dele era uma ferida aberta.

Os dias seguintes foram todos iguais. A minha mãe acordava cedo, fazia o pequeno-almoço em silêncio, e depois ia trabalhar para o lar de idosos. Eu tentava ajudar em casa, mas tudo o que fazia parecia errado. Se lavava a loiça, ela dizia que estava mal lavada. Se arrumava o quarto do Rui, ela gritava que não tinha nada que mexer nas coisas dele. O Rui, por sua vez, mal me olhava. Às vezes, ouvia-o a chorar à noite, mas nunca tive coragem de bater à porta. Sentia-me uma intrusa na minha própria casa.

Na escola, as coisas não eram melhores. Os colegas cochichavam quando eu passava, e a professora de História, Dona Teresa, olhava para mim com pena. Uma vez, tentei falar com a minha melhor amiga, Inês, mas ela afastou-se:

— Mariana, a tua mãe anda a dizer que andas metida com o Tiago. Não quero problemas.

Fiquei sozinha. O Tiago era só um rapaz da turma, nunca tínhamos falado mais do que duas palavras. Mas na vila, os boatos correm mais depressa do que o vento.

Uma noite, ouvi a minha mãe a falar com a avó na cozinha. Estavam convencidas de que eu era a culpada de tudo: da morte do pai, da tristeza do Rui, da vergonha da família. Senti uma raiva a crescer dentro de mim, uma vontade de gritar até ficar sem voz. Mas calei-me. Sempre me calei.

O tempo foi passando, e a dor tornou-se rotina. Até ao dia em que o Rui desapareceu. Tinha 14 anos, e saiu de casa sem dizer nada. A minha mãe entrou em pânico, correu para a GNR, ligou a todos os vizinhos. Eu procurei-o por todo o lado: no campo de futebol, no café do senhor Manuel, junto ao rio. Finalmente, encontrei-o sentado na margem, a atirar pedras à água.

— Rui, anda para casa. A mãe está preocupada.

Ele olhou para mim com olhos vermelhos.

— Porque é que o pai teve de morrer? — perguntou, a voz embargada.

Sentei-me ao lado dele, sem saber o que dizer. Passei-lhe o braço pelos ombros, e ficámos ali, em silêncio, a ouvir o som da água. Pela primeira vez, senti que não estava sozinha na minha dor.

Quando voltámos para casa, a minha mãe abraçou o Rui e chorou. Olhou para mim, mas não disse nada. Eu queria tanto um abraço dela, uma palavra de carinho, mas só recebi silêncio.

Os meses passaram, e a relação com a minha mãe piorou. Um dia, cheguei a casa mais tarde porque fiquei a estudar na biblioteca. Ela esperava-me à porta, furiosa.

— Achas que isto é uma pensão? — gritou. — Não tens respeito por ninguém! O teu pai deve estar a dar voltas no caixão por tua causa!

— Mãe, eu só estava a estudar…

— Cala-te! Não quero ouvir desculpas. És igual ao teu pai, sempre a fugir das responsabilidades!

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— Não, não vamos buscá-lo. Já chega. — A voz do Miguel ecoou fria do outro lado da linha, enquanto eu apertava o auscult...
19/02/2026

— Não, não vamos buscá-lo. Já chega. — A voz do Miguel ecoou fria do outro lado da linha, enquanto eu apertava o auscultador com força, sentindo o peso daquela recusa. O António, deitado na cama 12, olhava para mim com olhos vazios, como se já esperasse aquela resposta. Eu, enfermeira há quase vinte anos, já vira famílias desfeitas, mas nunca deixava de me surpreender com a dureza de certas palavras.

Naquele dia, o turno começara como tantos outros: o cheiro a desinfetante, o som dos monitores, a luz branca e crua dos corredores. Mas quando li o processo do António, percebi logo que havia ali uma história mal resolvida. Tinha sofrido um AVC grave, estava parcialmente paralisado do lado esquerdo e precisava de reabilitação intensiva. O contacto de emergência era o irmão, Miguel, mas ninguém o via há dias.

— Dona Clara, acha que ele vai melhorar? — perguntou-me a Dona Emília, a auxiliar, enquanto mudávamos os lençóis da cama ao lado. — Dizem que o irmão não quer saber dele.

— Não sei, Emília. Às vezes o corpo recupera, mas o coração… — respondi, olhando de relance para o António, que parecia alheado de tudo.

No fim do turno, decidi ligar ao Miguel. A resposta foi seca, quase cruel:

— Não venham com histórias. Ele sempre fez a vida dele, nunca quis saber de mim nem da nossa mãe. Agora que precisa, lembra-se da família? Não. Não contem comigo.

Desligou antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa. Fiquei ali, com o telefone ainda na mão, a sentir uma raiva surda, mas também uma tristeza funda. O António não era um homem fácil, percebia-se. Não falava muito, recusava-se a colaborar nos exercícios, olhava para todos com desconfiança. Mas ninguém merece ser deixado assim, pensei.

Na manhã seguinte, sentei-me ao lado dele, enquanto lhe dava o pequeno-almoço.

— O seu irmão não pode vir hoje, António. — disse, tentando ser delicada.

Ele não respondeu. Ficou a olhar para a janela, para o céu cinzento de Lisboa, e depois murmurou:

— Nunca veio. Nem quando éramos miúdos.

Fiquei em silêncio, esperando que dissesse mais. E, aos poucos, as palavras começaram a sair, como se a dor, finalmente, tivesse encontrado uma brecha.

— O Miguel era o preferido da minha mãe. Eu era o mais velho, mas ela só tinha olhos para ele. Sempre achei que, se eu desaparecesse, ninguém ia notar. Quando fiz 18 anos, fui-me embora. Trabalhei, casei, tive filhos. Mas nunca consegui… nunca consegui sentir que pertencia a algum lado.

Olhei para ele, para as mãos trémulas, para o olhar perdido. Pensei nos meus próprios irmãos, nas discussões, nos silêncios, nos abraços. Pensei em como a família pode ser tanto abrigo como prisão.

— E agora? — perguntei, baixinho.

— Agora estou aqui. E ele não vem. — respondeu, com uma amargura que me cortou o coração.

Durante semanas, tentei convencer o Miguel a visitar o irmão. Liguei, mandei mensagens, até escrevi uma carta. Nada. A resposta era sempre a mesma:

— Ele nunca foi meu irmão. Não me peça para fingir.

No hospital, o António foi piorando. A fisioterapia já não fazia efeito, a tristeza parecia consumir-lhe as forças. Um dia, encontrei-o a chorar baixinho, escondido debaixo dos lençóis.

— Sabe, Dona Clara, às vezes penso que mereço isto. Que tudo isto é castigo por nunca ter sabido amar ninguém. Nem a mim próprio.

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— Mãe, não percebes mesmo? Não podes simplesmente meter-te assim na minha vida! — gritou o Tiago, com os olhos vermelhos...
19/02/2026

— Mãe, não percebes mesmo? Não podes simplesmente meter-te assim na minha vida! — gritou o Tiago, com os olhos vermelhos de raiva, enquanto batia com a porta do quarto. O eco da sua voz ainda pairava no corredor, misturado com o choro abafado da Leonor, a minha neta mais nova, que se agarrava às minhas pernas, assustada com a discussão.

Senti o coração apertar-se no peito. Não era a primeira vez que discutíamos, mas nunca o tinha visto assim, tão distante, tão frio. Desde que o pai dele nos deixou, há quase vinte anos, sempre fomos só nós os dois. Lembro-me de noites em que o Tiago adormecia no meu colo, a pedir-me para não o deixar sozinho. Prometi-lhe que nunca o faria. Mas agora, era ele quem me deixava sozinha, com palavras afiadas e silêncios pesados.

Tudo começou há dois anos, quando o casamento do Tiago com a Inês começou a ruir. Eu via nos olhos dela o cansaço, a tristeza de quem já não aguentava mais. O Tiago, sempre tão orgulhoso, nunca admitiu os próprios erros. Eu tentei ajudar, tentei ser o pilar, mas a vida não é tão simples. Quando finalmente se separaram, a Inês ficou sem casa, sem apoio, com dois filhos pequenos. Não hesitei: "Inês, vem para cá. Tu e os meninos. Não vão passar necessidades enquanto eu cá estiver."

A minha casa, pequena mas acolhedora, encheu-se de risos infantis e brinquedos espalhados. A Inês ajudava-me nas tarefas, cozinhávamos juntas, e eu sentia-me útil, sentia que estava a fazer o que era certo. Mas o Tiago... O Tiago começou a vir menos vezes. Quando vinha, mal falava comigo. Olhava para a Inês com um misto de mágoa e ressentimento. Uma noite, depois de jantar, confrontou-me:

— Achas mesmo que é normal ela estar aqui? Achas que isto é vida para mim, mãe?

— Tiago, ela é a mãe dos teus filhos. Precisa de ajuda. E tu também devias ajudar, não fugir.

— Eu ajudo como posso! Mas não quero viver com ela, não quero que os meus filhos pensem que isto é normal!

— O que não é normal é virar as costas à família, Tiago.

Ele saiu, batendo a porta, e não voltou durante semanas. Eu chorava baixinho à noite, com medo de ter feito tudo errado. Mas quando via a Leonor e o Martim a dormir tranquilos, sentia que não podia ter feito outra coisa.

Os meses passaram. A Inês arranjou um trabalho numa pastelaria, eu ficava com os miúdos. A nossa rotina era simples, mas cheia de pequenos momentos de felicidade: os bolos ao lanche, as histórias antes de dormir, os desenhos colados no frigorífico. Mas o Tiago... cada vez mais distante. No Natal, apareceu só para deixar os presentes, recusou-se a jantar connosco. Olhou-me nos olhos e disse:

— Não consigo perdoar-te, mãe. Sinto-me traído.

— Traído? Porquê, filho? Só tentei ajudar.

— Ajudar? Ajudaste a ela, não a mim. Nunca pensaste em como me sinto.

Fiquei sem palavras. Senti-me esmagada pela culpa. Será que estava mesmo a escolher a Inês em vez do meu próprio filho? Ou será que ele não conseguia lidar com o próprio fracasso?

A minha irmã, a Teresa, dizia-me para não me meter tanto. "Deixa-os resolver as coisas deles. Não és responsável por tudo, Maria." Mas como podia virar as costas à Inês e aos meus netos? Como podia dormir tranquila sabendo que eles estavam sozinhos?

Houve dias em que pensei em pedir à Inês para sair. Mas ela olhava para mim com aqueles olhos cansados, agradecidos, e eu não conseguia. Uma noite, depois de deitar as crianças, sentámo-nos as duas na varanda, com chá quente nas mãos. Ela chorou baixinho, contou-me como o Tiago se tinha tornado agressivo, como as discussões a tinham destruído por dentro. Senti uma raiva surda pelo meu próprio filho, mas também uma tristeza imensa. Onde é que eu tinha falhado?

O tempo foi passando. O Tiago arranjou outra namorada, uma rapariga chamada Filipa. Trouxe-a cá uma vez, apresentou-a aos filhos, mas recusou-se a entrar em casa. "Não quero que a Filipa se sinta desconfortável", disse. Eu percebi o recado. A partir daí, só via os netos aos fins de semana, quando o Tiago os levava para casa dele. As crianças choravam quando voltavam, diziam que a Filipa era simpática mas que sentiam falta da mãe. O Tiago começou a falar mal da Inês à frente deles, e eu tive de o confrontar:

— Tiago, por favor, não faças isso. Eles precisam de estabilidade, não de mais confusão.

— Tu não percebes nada, mãe. Sempre escolheste os outros em vez de mim.

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— Por favor, ajude-me... — ouvi a voz trémula da mulher caída na calçada, o rosto meio escondido pelo lenço gasto. O sol...
19/02/2026

— Por favor, ajude-me... — ouvi a voz trémula da mulher caída na calçada, o rosto meio escondido pelo lenço gasto. O sol ainda nem tinha aquecido as pedras da rua de Alfama, e eu, apressada para o trabalho, hesitei por um segundo. Mas algo naquela voz, talvez o desespero ou a dignidade ferida, fez-me parar. Ajoelhei-me ao lado dela, sentindo o cheiro a café e pão quente que vinha da padaria próxima misturar-se ao odor amargo da solidão.

— Está bem? Quer que chame uma ambulância? — perguntei, tentando ajudá-la a levantar-se.

Ela agarrou-se ao meu braço com uma força surpreendente para alguém tão magra e frágil. — Só preciso de me sentar um pouco, menina. Muito obrigada, Deus lhe pague.

Acompanhei-a até ao banco mais próximo. O olhar dela, escuro e profundo, prendeu-se ao meu rosto como se procurasse algo. Senti um arrepio, mas atribuí à manhã fria. Deixei-lhe uma garrafa de água e segui o meu caminho, sem saber que aquele breve encontro era o início de uma tempestade que mudaria tudo.

Cheguei a casa tarde nesse dia. A minha mãe, Maria do Carmo, estava sentada à mesa da cozinha, os olhos vermelhos e a chávena de chá esquecida nas mãos. — Estás bem, mãe? — perguntei, pousando a mala.

Ela olhou para mim, hesitante. — Estou, filha. Só um pouco cansada. — Mas a voz dela tremia, e percebi que algo a atormentava.

Os dias passaram, e a imagem da mulher na rua não me saía da cabeça. Comecei a vê-la mais vezes, sentada no mesmo banco, sempre sozinha. Um dia, levei-lhe um s**o com pão e fruta. Ela sorriu, um sorriso triste, e agradeceu. — Não devia perder tempo comigo, menina. Há coisas que não se podem apagar.

— Como assim? — perguntei, intrigada.

Ela desviou o olhar. — Às vezes, o passado volta para nos assombrar, não é?

Voltei para casa com o coração apertado. Contei à minha mãe sobre a mulher. O rosto dela empalideceu de repente, e a chávena caiu-lhe das mãos, partindo-se em mil pedaços no chão.

— Como disseste que ela se chama? — perguntou, a voz quase um sussurro.

— Não sei, mãe. Nunca me disse o nome.

A minha mãe levantou-se, trémula, e saiu da cozinha sem dizer mais nada. Nessa noite, ouvi-a chorar baixinho no quarto. O meu pai, António, já não vivia connosco há anos, desde que um segredo antigo os separou. Sempre achei que era apenas uma traição, mas nunca soube os detalhes. Agora, sentia que havia mais, muito mais.

Na semana seguinte, decidi seguir a mulher depois de lhe dar o pequeno-almoço. Ela entrou num prédio antigo, e esperei à porta. Quando saiu, abordei-a de novo.

— Desculpe, mas... conheceu a minha mãe? Maria do Carmo?

Ela parou, o rosto endureceu. — Conheci, sim. E lamento muito. — Os olhos dela encheram-se de lágrimas. — Fui eu que destruí a vida dela.

O chão fugiu-me dos pés. — Como assim?

Ela suspirou, sentando-se no degrau. — Há muitos anos, fui amante do seu pai. Não sabia que ele era casado, só descobri quando já era tarde demais. Quando a sua mãe soube, ficou devastada. Eu tentei afastar-me, mas ele não me deixava em paz. No fim, perdi tudo: ele, a minha família, a minha dignidade. E a sua mãe perdeu a confiança, a alegria... — A voz dela quebrou-se.

Fiquei ali, sem saber o que dizer. A raiva e a compaixão misturavam-se dentro de mim. — Porque me está a contar isto agora?

— Porque vi nos seus olhos a mesma bondade que vi nos dela, há muitos anos. E porque preciso de pedir perdão, mesmo que não mereça.

Voltei para casa em silêncio. A minha mãe estava à janela, olhando para a rua como se esperasse alguém. Sentei-me ao lado dela.

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— Petra, não podes simplesmente decidir essas coisas sem falar comigo! — gritou o Rui, a voz dele ecoando pela cozinha, ...
19/02/2026

— Petra, não podes simplesmente decidir essas coisas sem falar comigo! — gritou o Rui, a voz dele ecoando pela cozinha, enquanto eu segurava a chávena de café com as mãos trémulas. O cheiro do café misturava-se ao da tensão, quase palpável, que pairava entre nós. Olhei para ele, tentando encontrar no rosto do homem que amava algum traço do companheiro compreensivo que conheci há dez anos. Mas só vi mágoa e desconfiança.

— Rui, era a tua mãe! Ela precisava de ajuda, não podia ficar indiferente — respondi, a voz embargada, sentindo o peso de cada palavra. O silêncio que se seguiu foi mais doloroso do que qualquer discussão. Ele virou-me as costas, os ombros caídos, e saiu da cozinha sem dizer mais nada.

Nunca pensei que um empréstimo pudesse ser o início do fim. A minha sogra, Dona Amélia, sempre foi uma mulher orgulhosa, mas naquele dia apareceu à nossa porta com os olhos vermelhos e as mãos a tremer. "Petra, minha filha, preciso de ti. Não posso pedir ao Rui, ele já tem tanto com que se preocupar...". O pedido dela foi um murro no estômago. Senti-me na obrigação de ajudar, afinal, família é para isso mesmo, não é?

Assinei o papel do empréstimo sem pensar duas vezes. Era uma quantia considerável, mas nada que não conseguíssemos gerir. O problema foi não ter contado ao Rui. Não por querer esconder, mas porque temi a reação dele. Sempre foi tão rigoroso com dinheiro, tão desconfiado das intenções da mãe. E, no fundo, eu só queria evitar mais uma discussão entre eles.

Mas o segredo não durou muito. Um mês depois, o banco ligou. O Rui atendeu. Lembro-me do olhar dele, frio, quase estranho, quando me confrontou. "Assinaste isto sem me dizeres nada?". Senti-me pequena, envergonhada, mas também revoltada. Porque é que tudo tinha de ser tão difícil?

Os dias seguintes foram um inferno. O Rui mal falava comigo. A Dona Amélia evitava-me, como se eu fosse culpada por tudo. O nosso filho, o Tiago, de apenas oito anos, percebia que algo não estava bem. "Mãe, porque é que o pai está sempre triste?". Não soube responder. Só consegui abraçá-lo com força, tentando protegê-lo de uma tempestade que eu própria tinha criado.

As discussões tornaram-se rotina. "Não confias em mim, Petra! Como é que podemos ser uma família assim?". Eu tentava explicar, tentava justificar, mas as palavras perdiam-se no meio da dor. Comecei a duvidar de mim própria. Teria feito o certo? Ou teria traído a confiança do homem que jurei amar para sempre?

Uma noite, depois de mais uma discussão, sentei-me sozinha na sala. O relógio marcava duas da manhã. O Rui dormia no sofá, afastado de mim há semanas. Peguei numa fotografia do nosso casamento. Estávamos tão felizes, tão cheios de sonhos. Onde é que tudo se perdeu?

No dia seguinte, a Dona Amélia ligou-me. "Petra, desculpa. Não queria causar problemas entre vocês. Mas não consigo pagar o empréstimo. O meu negócio faliu de vez." Senti o chão fugir-me dos pés. O Rui ouviu a conversa e saiu de casa sem dizer uma palavra. Fiquei ali, sozinha, com o telefone na mão e o coração em pedaços.

Os meses passaram. As dívidas acumularam-se. O Rui tornou-se um estranho. Comecei a trabalhar mais horas, tentando compensar o buraco financeiro. O Tiago sentia a minha ausência, perguntava pelo pai, que agora passava mais tempo fora de casa. A nossa família estava a desmoronar-se e eu não sabia como reconstruí-la.

Uma noite, o Rui chegou tarde. Cheirava a álcool. Sentou-se à minha frente e, pela primeira vez em meses, olhou-me nos olhos.

— Petra, não sei se consigo perdoar-te. Não é só pelo dinheiro. É pela confiança. Sinto que já não somos uma família, mas apenas dois estranhos a partilhar uma dívida.

As lágrimas correram-me pelo rosto. Tentei agarrar-lhe a mão, mas ele afastou-se. "Preciso de tempo", disse, antes de subir para o quarto do Tiago e adormecer ao lado do filho.

Os dias seguintes foram de silêncio. A Dona Amélia tentou ajudar, mas estava tão perdida quanto nós. O Tiago desenhava famílias felizes na escola, mas em casa só via tristeza. Comecei a pensar se não seria melhor separar-me do Rui, dar-lhe o espaço que ele precisava. Mas o medo de perder tudo o que construímos era maior.

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— Maria do Céu, não podes continuar a viver assim, fechada em casa! — gritou a minha irmã, Teresa, batendo com força a p...
19/02/2026

— Maria do Céu, não podes continuar a viver assim, fechada em casa! — gritou a minha irmã, Teresa, batendo com força a porta da cozinha. O som ecoou pelo corredor, misturando-se com o cheiro do café acabado de fazer. Eu, sentada à mesa, olhava para as minhas mãos trémulas, sentindo o peso dos anos e das palavras não ditas.

— Teresa, deixa-me estar. Já não tenho idade para aventuras — respondi, tentando esconder a voz embargada. Mas ela não desistia.

— Não é aventura, Céu. É viver! — insistiu, aproximando-se e pousando a mão sobre o meu ombro. — O pai morreu há vinte anos, os filhos estão longe, e tu… tu mereces mais do que esta solidão.

A verdade é que, depois de fazer setenta anos, convenci-me de que a vida já não tinha surpresas para mim. Os dias eram todos iguais: acordava cedo, fazia o pequeno-almoço, lia o jornal, cuidava das plantas e esperava pelo telefonema semanal dos meus filhos, que agora viviam em Lisboa e no Porto. O silêncio da casa era pesado, e o relógio parecia zombar de mim, marcando cada minuto de solidão.

Foi numa dessas manhãs cinzentas que o vi pela primeira vez. Estava no mercado, a escolher tomates, quando um senhor alto, de cabelo grisalho e olhos azuis, se aproximou.

— Desculpe, minha senhora, pode-me dizer se estes tomates são bons para salada? — perguntou, sorrindo com uma simpatia desarmante.

Fiquei atrapalhada, sem saber o que responder. Não estava habituada a que alguém me dirigisse a palavra, muito menos um homem desconhecido. Mas havia algo na sua voz, uma ternura, que me fez sorrir.

— São, sim. Mas se quiser mesmo bons, leve destes — indiquei-lhe os tomates mais maduros.

Ele agradeceu e, antes de se afastar, apresentou-se:

— Chamo-me António. E a senhora?

— Maria do Céu.

— Belo nome. Espero vê-la por aqui mais vezes, Maria do Céu.

Aquele encontro, aparentemente banal, ficou a ecoar na minha cabeça durante dias. Comecei a ir ao mercado com mais frequência, a cuidar mais da minha aparência, a escolher com cuidado a roupa e a pôr um pouco de batom, coisa que não fazia há anos. Cada vez que o via, o coração batia mais forte, como se tivesse voltado a ser uma rapariga.

António era viúvo, como eu. Tinha uma filha, Ana, que vivia em Braga, e um neto de quem falava com orgulho. Conversávamos sobre tudo: política, música, os tempos antigos, as saudades do mar. Ele fazia-me rir, fazia-me sentir viva. Pela primeira vez em décadas, sentia-me desejada, importante, vista.

Mas nem tudo era perfeito. Teresa começou a desconfiar da minha felicidade repentina.

— Não achas estranho, Céu? Um homem assim, tão simpático, aparecer do nada? — perguntou ela, franzindo o sobrolho.

— Teresa, por favor… Não compliques. Não posso eu, finalmente, ser feliz?

— Só quero o teu bem. Mas lembra-te do que passaste com o Joaquim. Não quero ver-te magoada outra vez.

O nome do meu falecido marido pairou no ar como uma sombra. Joaquim tinha sido um bom homem, mas a nossa vida juntos não fora fácil. Muitas discussões, muitos silêncios, muitas mágoas. Quando morreu, senti alívio e culpa ao mesmo tempo. Agora, com António, sentia esperança.

Os meses passaram, e a nossa relação tornou-se mais próxima. Começámos a sair juntos, a passear à beira-rio, a ir ao cinema. Os vizinhos começaram a comentar, alguns com inveja, outros com desdém.

— Olha a Maria do Céu, já não tem idade para essas coisas… — ouvi uma vez, ao passar pelo café da vila.

Fingi que não ouvi, mas as palavras doíam. António, ao perceber o meu desconforto, apertou-me a mão.

— Não ligues, Céu. A vida é curta demais para nos importarmos com a língua dos outros.

Mas havia algo em António que me inquietava. Às vezes, parecia ausente, perdido nos seus pensamentos. Recebia telefonemas misteriosos, que atendia longe de mim. Quando lhe perguntava, ele desconversava.

— Coisas da minha filha, nada de importante — dizia, evitando o meu olhar.

Uma noite, depois de um jantar em minha casa, António ficou calado, olhando fixamente para a janela. Senti um aperto no peito.

— António, há alguma coisa que não me estás a contar?

💬 Essa história ainda não acabou. Leia o resto abaixo 👇

— Achas mesmo que isto tem piada, Inês? — A voz do meu irmão, Miguel, ecoou pela cozinha, carregada de uma raiva que eu ...
19/02/2026

— Achas mesmo que isto tem piada, Inês? — A voz do meu irmão, Miguel, ecoou pela cozinha, carregada de uma raiva que eu nunca lhe tinha ouvido antes. O silêncio que se seguiu foi tão pesado que até o relógio na parede pareceu parar. Eu, ainda com o telemóvel na mão, olhei para ele, sem saber se devia rir ou pedir desculpa.

Tudo começou naquela tarde de sábado, quando a chuva batia forte nas janelas e a minha família se juntou na sala para ver televisão. O ambiente era descontraído, típico de um lar português, com o cheiro a café acabado de fazer e o som da minha mãe a mexer as panelas na cozinha. Eu, sempre a tentar animar o ambiente, decidi pregar uma partida ao Miguel. Ele tinha acabado de começar a namorar com a Sofia, e eu sabia que ele andava nervoso, sempre a olhar para o telemóvel à espera de mensagens dela.

Foi então que tive a ideia: peguei no telemóvel dele, enquanto ele estava distraído, e enviei uma mensagem à Sofia, fingindo ser ele. Escrevi algo do género: "Sabes, às vezes acho que isto não vai dar certo entre nós." Achei que ia ser engraçado ver a reação dele quando ela respondesse. Nunca pensei que fosse passar de uma simples brincadeira.

Quando o Miguel percebeu o que eu tinha feito, o seu rosto ficou branco como a cal. — Tu não fizeste isso, pois não? — perguntou, a voz a tremer. Eu tentei desvalorizar, a rir-me: — Oh, Miguel, foi só uma piada! Ela vai perceber, não sejas assim. — Mas ele não achou graça nenhuma. Pegou no telemóvel, saiu disparado da sala e bateu com a porta do quarto.

A minha mãe, Maria, entrou na sala nesse momento, com o avental ainda atado à cintura. — O que se passa aqui? — perguntou, olhando de mim para a porta fechada do quarto do Miguel. Eu encolhi os ombros, mas ela percebeu logo que algo não estava bem. — Inês, não me digas que andaste outra vez com as tuas brincadeiras... — O tom dela era de quem já estava cansada das minhas partidas, mas desta vez havia algo diferente. Senti um nó na garganta.

O jantar dessa noite foi um dos mais silenciosos de que me lembro. O meu pai, António, tentava puxar conversa, mas ninguém respondia. O Miguel não apareceu à mesa. A minha mãe olhava para mim de vez em quando, com um olhar que misturava desilusão e preocupação. Eu não consegui comer quase nada. O peso da culpa começou a instalar-se no meu peito.

No dia seguinte, ouvi o Miguel a chorar no quarto. A Sofia tinha terminado com ele por mensagem, magoada com as palavras que pensava terem vindo dele. Senti-me horrível. Bati à porta do quarto dele, mas ele não respondeu. — Miguel, desculpa... — sussurrei, encostada à porta. — Eu não queria... — Mas ele não disse nada. Só ouvi o som abafado do choro.

Os dias passaram e o ambiente em casa tornou-se insuportável. O Miguel mal falava comigo, a minha mãe andava sempre de cara fechada, e o meu pai, que normalmente era o pacificador, parecia não saber o que fazer. Senti-me sozinha, isolada dentro da minha própria casa. Comecei a evitar sair do quarto, a faltar às refeições, a inventar desculpas para não estar com a família.

Uma noite, ouvi os meus pais a discutir na cozinha. — Isto não pode continuar assim, António! — dizia a minha mãe, quase a chorar. — A Inês tem de perceber que as ações dela têm consequências. — O meu pai suspirou. — Ela já percebeu, Maria. Vê-se que está arrependida. Mas o Miguel... ele está destroçado. — Senti uma lágrima escorrer-me pela cara. Nunca tinha visto os meus pais tão preocupados comigo e com o meu irmão.

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