08/03/2026
Relembrando, no Dia da Mulher, Elisa Conceição de Andrade, a primeira médica portuguesa.
𝗘𝗳𝗲𝗺é𝗿𝗶𝗱𝗲𝘀 𝗱𝗼 𝗣𝗮𝘁𝗿𝗶𝗺ó𝗻𝗶𝗼 𝗖𝘂𝗹𝘁𝘂𝗿𝗮𝗹 𝗱𝗮 𝗨𝗟𝗦 𝗦ã𝗼 𝗝𝗼𝘀é – 𝗟𝗩𝗜𝗜
Embora seja inegável o papel das mulheres no âmbito da assistência médico-cirúrgica, durante séculos, para a memória da História da Medicina ficaram acima de tudo as referências aos grandes médicos e cirurgiões. Foi só no final do século XIX, inícios do seguinte, que começaram a aparecer as primeiras médicas com formação superior. Neste Dia da Mulher relembramos a primeira médica portuguesa, Elisa de Andrade.
Nascida em Lisboa em Janeiro de 1855, Elisa matriculou-se na Escola Politécnica em Outubro de 1880, tendo depois feito o curso de Medicina da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, que concluiu em 1889. Ali foi aluna de vários professores, entre eles Miguel Bombarda, José António Serrano, Nicolau Bettencourt, Sabino Coelho ou José Sousa Martins. Este último aprovou-a com louvor na cadeira de que era responsável. No início de Julho de 1889 fez o último exame do 5.º ano, tendo sido aprovada plenamente pelos lentes Manuel Vicente Alfredo da Costa, José António Serrano e Abílio Pinto de Magalhães.
Foram vários os periódicos da época que saudaram Elisa de Andrade como a primeira licenciada em Medicina, como o jornal 𝘖 𝘛𝘦𝘮𝘱𝘰 ou o 𝘋𝘪á𝘳𝘪𝘰 𝘥𝘦 𝘕𝘰𝘵í𝘤𝘪𝘢𝘴. Em acordo com um decreto de Março de 1880, como aluna que foi do 5.º ano foi-lhe permitido fazer operações cirúrgicas, o que sucedeu por algumas ocasiões no Hospital Real de São José, sendo a primeira mulher a fazê-lo.
Quando em Setembro de 1889 abriu o seu consultório, especialmente para senhoras e crianças, foi uma vez mais o 𝘋𝘪á𝘳𝘪𝘰 𝘥𝘦 𝘕𝘰𝘵í𝘤𝘪𝘢𝘴 a dar divulgar o anúncio, assim como o horário das consultas.
Contudo, num meio à época controlado por homens, a vida de Elisa não foi fácil. Na imprensa era frequentemente vítima de sátiras e comentários machistas por parte de outros médicos seus colegas, muitas vezes sob pseudónimo, situação que se verificou logo, ainda enquanto frequentava o curso.
Algumas décadas mais tarde, em 1928, Brito Camacho, que havia sido seu colega na Escola Médica, continuava a referir-se a Elisa de Andrade de forma bastante desagradável, criticando duramente a sua aparência física, a sua roupa ou o facto de ela ser pobre. Segundo ele, os doentes não gostavam dela, situação que levou a que tivesse poucos clientes e, por conseguinte, morreu de fome, tendo sido descoberta alguns dias depois no seu leito.
Uma vez que o anuário do curso só seria criado no ano seguinte, Elisa de Andrade não consta naquele e acabou no esquecimento, sendo destacadas outras figuras como Maria Amélia Cardia, que terminou a sua licenciatura dois anos mais tarde. Posteriormente, entre outras, formaram-se na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, Teodora Pimentel (1895), Sofia Margarida Afreixo (1899), Adelaide Cabete (1900), Carolina Beatriz Ângelo (1902) e Sofia Quintino (1905).
📷 Anúncios relativos aos consultórios da Dr.ª Elisa Andrade, que integram a colectânea de recortes de imprensa “𝘌𝘱𝘪𝘴ó𝘥𝘪𝘰𝘴 𝘥𝘢 𝘝𝘪𝘥𝘢 𝘔é𝘥𝘪𝘤𝘢” de Joaquim Félix Alfredo de Sousa (1878-1933). Biblioteca do Hospital de São José.