24/09/2020
"WhatsApp, Doc?"
(ou como fomos do divã à fibra óptica)
Realmente a maré pandémica que invadiu as nossas vidas mudou a vida como a conhecíamos. Desde a presença física à vivência interna, da forma de cumprimentar, à forma de sentir a presença do outro, tudo ganhou outra cor, outro som, outra regra e outra via.
O trabalho do psicanalista não foi excepção. Ele que trabalha com um setting bem definido - local, horário, tempo de sessão, etc. - e que tem à sua responsabilidade a manutenção do mesmo, viu-se impotente para travar esta mudança que teve tanto de radical como de abrupta.
De repente, da estabilidade presente do habitual setting analítico, ficámos à procura de como manter as sessões. De uma semana para a outra, o que era certo e seguro teve de ser reinventado, experimentado e acreditado.
Acções que eram pela sua natureza realizadas presencialmente e em conjunto, passaram a ser feitas à distância de uma we**am e de uns auscultadores.
Naturalmente a virtualidade social surgiu em todo o seu esplendor. Nomes como Zoom, Teams, Skype ou Whatsapp ganharam uma importância nova no mundo da psicanálise e da psicoterapia em geral. Fomos do divã à fibra óptica num ápice, e a isso nos tivemos de adaptar rapidamente. A nossa atenção teve de flutuar de uma presença física para uma presença à distância via algum iphone ou tablet.
Assim, o Whatsapp, comumente utilizado para perguntar "o que se passa?", passou a ser espaço de transferência e contratransferência. Passou a ser espaço de pensar o inconsciente nas suas manifestações. Passou a ser espaço de encontro analítico e de construção do terceiro analítico, pensando em Thomas Ogden.
Foi uma mudança exigente para as duas partes, paciente e terapeuta. Naturalmente de formas diferentes, e seguramente diferentes entre colegas analistas. Aqui podemos pensar na identidade analítica de cada um e o que esta emprestou e possibilitou na vivência, transformação e contenção de toda esta mudança. Talvez algumas coisas possam ter sido vividas de forma idêntica, pensando na realidade que nos rodeia e da impossibilidade de não assumir como presente. No pensar e na escuta analítica, em que somos convidados a derivar pelo simbólico, tivemos esta realidade tão concreta e presente nas sessões.
Actualmente, alguns colegas já recebem presencialmente, também dependerá dos pacientes. O que de início parecia ser uma fase de mudança temporária, ganha agora contornos de permanência. Com que influências no processo analítico? Teremos de esperar e ver.