12/12/2025
Quando era mais nova, disseram-me que tinha “proa”, que sentia e falava “demais”. Que devia ter mais “jeitinho” nas palavras. Que as pessoas gostavam mais de quem “fiava (ou melhor, piava?) mais fino”. E eu, ingénua e educadinha e sempre muito atenta às dores e aos quereres dos outros, fui acreditando. Fui limando as arestas, domesticando o tom, anestesiando o corpo. Fui deixando de falar. E quanto menos falava, mais me afastava de mim.
E eu fiquei muito boa nisso: a enxugar lágrimas alheias enquanto as minhas nem chegavam a escorrer, sorrir quando queria chorar, calar quando precisava refutar, sair quando precisei proteger-me, respirar fundo quando era arrastada em confusões que não criei, parecer ponderada enquanto implodia em silêncio. Que alguém se interessasse por mim de verdade, perguntando como eu (realmente) estava, era raridade estelar.
E durante anos — no palco doméstico onde tive de ser sempre “madura” e aprendi a não incomodar — fui a boazinha, a pacif**adora, a menina sempre alegre e sorridente, um ponto de luz e calor, a alma da casa. Tudo isso enquanto enterrava velhas dores que só um parto e o (re)nascer para a maternidade haveriam de trazer à tona.
Até que um dia percebi que não era eu que “andava nervosa”. Era o mundo daqueles que tinham aprendido a chamar “desequilíbrio” à raiva feminina.
Conveniente, não? Porque uma mulher com raiva é “perigosa”. E não porque vá partir alguma coisa — mas porque começa a ver as coisas com clareza. Porque reconhece, nomeia e denuncia as agressões. Porque confronta, enfrenta, faz frente ao que não é tão lindo e maravilhoso assim. Fomos ensinadas a achar que o limite é feio. Que o amor é aceitar tudo.
Não, nem toda emoção calada é um erro. Algumas são lampejos da alma, sussurros antigos que procuram um idioma para existir. A raiva, quando é trancada, transforma-se em culpa; e a culpa, acumulada como neve no coração: pesa até adoecer a carne.
Nesta crónica que escrevi para a Revista LuxWoman, escrevo sobre mim, sobre si, sobre todas nós e mostro-lhe como a raiva não é destruição. Destruidor é o abandono de nós mesmas, quando ignoramos o que ela tenta iluminar.
Muitas mulheres de espírito terno confundem paz com renúncia, mansidão com desaparecimento.
Mas a força e a fé que sustentam a vida acolhem todas as expressões da alma — inclusive a raiva, que tantas vezes pode ser apenas um caminho para a verdade.
— A minha crónica deste mês – "A raiva é uma oração (e eu aprendi a rezá-la em voz alta)" – está publicada na edição de Dezembro da , nas bancas.
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