17/02/2026
Há uma máscara silenciosa que nos atravessa o ano inteiro — e não, não é a do Carnaval. É a das mulheres que aprenderam a funcionar "impecavelmente" enquanto se desligam de si. Quantas de nós chamamos identidade àquilo que foi, na verdade, adaptação? Quantas confundimos força com stress resistência crónica, competência com auto-abandono, maturidade com repressão emocional?
Entre a “boa menina”, a “mulher que aguenta tudo” e a “superfuncional que nunca falha”, construiu-se uma estética de exaustão socialmente normalizaada e premiada. Não são disfarces caricatos; são máscaras elegantes, ef**azes, aplaudidas — e por isso mesmo difíceis de reconhecer. O problema não é usá-las. O problema é já não saber viver sem elas.
Nesta crónica que escrevi para a Revista LuxWoman, o Carnaval surge então como metáfora cruel: autorizamo-nos a representar por uns dias, quando passamos o resto do ano inteiro em performance contínua. E se o excesso, o ruído e a festa forem apenas outra forma de não escutar o que dói? E se a armadura que protege também impedir o movimento, o descanso, a dança?
O Carnaval, nesse sentido, é um símbolo perfeito da mulher-performance. Da exaustão de sustentar versões de si. Do cansaço profundo de nunca poder sair da "personagem", baixar o papel. Há um momento — inevitável — em que a personagem falha. Em que a energia não chega. Em que a máscara pesa mais do que protege. E é aí que surge a pergunta mais difícil, porque não admite resposta ensaiada: quem é você quando ninguém está a ver? Quem somos nós quando não estamos a ser úteis, desejáveis, competentes ou fortes?
Esta é uma reflexão sobre autenticidade sem romantismos, sobre sobrevivência psíquica no feminino e sobre a pergunta que f**a quando o aplauso termina: quem somos nós quando já não precisamos provar nada? Talvez a verdadeira liberdade não esteja em vestir outro disfarce — mas em ousar, finalmente, despir alguns.
— A minha crónica deste mês – "Não é Carnaval todos os dias — mas quase" – está publicada na edição de Fevereiro da , nas bancas.
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