A Psicóloga Sara

A Psicóloga Sara https://www.apsicologasara.com/ Ajudo-a(o) a despertar o poder de cura que há em si. Vamos junta(o)s? Olá a todos! Sejam bem-vindos!

No Dia do Psicólogo, resolvi criar esta página com o intuito de poder partilhar com todos a minha caminhada nestas tão nobres “artes” que são a Psicologia e a Psicoterapia. Aqui, poderão descobrir um pouco mais acerca dos grandes temas da psicologia, compreender melhor o que acontece em psicoterapia e conhecer mais do meu trabalho. Irei partilhar algumas coisas do que sei e faço para que outras pessoas também se possam beneficiar com estas partilhas ao longo dos seus caminhos. Através desta página irei também publicar actividades e eventos nos quais participo ou que recomendo. Poderão também encontrar aqui muita informação, credível e validada, que ajude a um maior conhecimento sobre vós mesmos e ao processo de desenvolvimento pessoal. Estão todos convidados a participar e a deixar os vossos comentários e mensagens privadas, que eu terei todo o gosto em responder. Feliz Dia do Psicólogo, queridos!

Há uma liberdade nova, é verdade. E ela convive com vozes antigas que não se calam assim tão facilmente. Muitas mulheres...
01/04/2026

Há uma liberdade nova, é verdade. E ela convive com vozes antigas que não se calam assim tão facilmente. Muitas mulheres vivem hoje numa espécie de dupla cidadania psíquica: por fora, independentes, competentes, informadas; por dentro, ainda habitadas por culpas, medos e lealdades invisíveis a um sistema que as ensinou a não incomodar, a não pedir demais, a não ocupar demasiado espaço.

Romper com tudo isto não é simples nem romântico. A liberdade feminina não é confortável — e talvez por isso seja tão ameaçadora. Implica perder aprovação. Desiludir expectativas. Revisitar histórias antigas. Olhar para as mulheres que vieram antes de nós — mães, avós — e reconhecer nelas não só modelos, mas também sobreviventes de um mundo que lhes pediu silêncio e auto-alienação.

Aqui, o trabalho psicoterapêutico pode ser profundamente transformador. Não porque “conserta” as mulheres — mas porque lhes devolve espaço interno. Em terapia, muitas mulheres começam por objectivos aparentemente simples: reduzir ansiedade, dormir melhor, melhorar relações. Com o tempo, surgem metas mais profundas: aprender a colocar limites sem culpa, reconhecer e validar emoções, recuperar o contacto com o corpo, integrar raiva de forma saudável, construir escolhas alinhadas com valores próprios — e não apenas com expectativas externas.

Ser mulher hoje é aprender a desobedecer sem se perder. A criar novas formas de existir que não passem nem pela submissão nem pela imitação de modelos masculinos igualmente exaustos. Não queremos igualdade se isso signif**ar apenas viver como homens cansados num sistema que adoece toda a gente. Repito: toda a gente!

O feminino não é fraco — foi “só” enfraquecido. E talvez esteja na hora de o recuperar sem o romantizar, sem o enrijecer, sem o tornar mais uma performance.

Afinal, quando foi que aprendemos a achar normal o que sempre doeu?

– A minha crónica de Março para a está disponível online aqui 👉 https://www.luxwoman.pt/o-problema-nao-e-sermos-mulheres-e-o-que-fizeram-disso

Ser mulher nunca foi apenas uma condição biológica. Durante séculos, ser mulher foi um exercício de contenção, foi repre...
19/03/2026

Ser mulher nunca foi apenas uma condição biológica. Durante séculos, ser mulher foi um exercício de contenção, foi representar bem. Um papel afinado entre submissão e silêncio, competência e contenção, desejo em surdina e ambição em modo avião. Nada disto era “natural” — era treino social com aplauso garantido. Chamaram-lhe "virtude". Muitas vezes era apenas sobrevivência bem coreografada.

Dizem-nos que tudo mudou. Mudou, sim — mas por dentro ainda ecoam vozes antigas. A mulher do século XXI é independente por fora e exausta por dentro. Trabalha como se não tivesse filhos, cuida como se não tivesse trabalho e sorri como se não tivesse limites. Não está necessariamente infeliz — mas está permanentemente em esforço.

A Psicologia é clara: a sobrecarga feminina é crónica. Papéis múltiplos, responsabilidade emocional invisível, necessidades próprias adiadas até segunda ordem. Aprendemos a cuidar de todos com mestria — e a abandonar-nos com eficiência. Chamam-lhe "força". O corpo discorda. A mente também.

O corpo, aliás, sempre foi campo de batalha: escrutinado, corrigido, domesticado, "pasteurizado". Livre, mas com moderação. Desejável, mas não desejante. Hoje veste-se de “auto-cuidado” e “wellness”, mas continua a ser vivido como projecto infinito de melhoramento — raramente como casa aonde se pode simplesmente regressar e estar.

A revolução real é muitas vezes silenciosa: descansar sem culpa, dizer “não” sem rodapé explicativo, ocupar espaço sem pedir licença. Ser mulher pode estar finalmente a deixar de ser performance para voltar a ser presença.

O feminino não é fraco — foi “só” enfraquecido. E talvez esteja na hora de o recuperar sem o romantizar, sem o enrijecer, sem o tornar mais uma performance.

Neste mês de Março, em que assinalamos o Dia Internacional da Mulher, talvez a pergunta já não seja “o que é ser mulher?”, mas antes: o que estamos finalmente dispostas a deixar de ser?

— A minha crónica de Março – "O problema não é sermos mulheres — é o que fizeram disso" – está publicada na edição deste mês da , nas bancas.

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O Carnaval é uma metáfora perfeita da mulher-performance. Da exaustão de sustentar versões de si. Do cansaço profundo de...
07/03/2026

O Carnaval é uma metáfora perfeita da mulher-performance. Da exaustão de sustentar versões de si. Do cansaço profundo de nunca poder baixar o papel. Há um momento — inevitável — em que a personagem falha. Em que a energia não chega. Em que a máscara pesa mais do que protege. E é aí que surge a pergunta mais difícil, porque não admite resposta ensaiada: quem és tu quando ninguém está a ver? Quem és tu quando não estás a ser útil, desejável, competente ou forte?

Há mulheres que não usam máscara. Usam armadura. Uma armadura construída à base de hiperresponsabilidade, controlo, autonomia levada ao limite. Muitas vezes é trauma bem gerido — ou assim parece. A armadura protege, sem dúvida. Mas também pesa. E quase nunca permite dançar. Para essas mulheres, o Carnaval não é libertação: é ameaça. Porque baixar a guarda, mesmo por uma noite, pode parecer perigoso demais.

Há quem nunca tenha tido o luxo de se despir simbolicamente.

Talvez, então, o verdadeiro desafio não seja tirar a máscara no Carnaval. Talvez seja perceber por que razão ela continua a ser tão necessária no resto do ano. Talvez a pergunta não seja “quem quero ser na festa?”, mas “quem estou autorizada a ser na vida?”. E talvez a revolução feminina mais profunda não esteja em mais disfarces, mais excessos ou mais personagens — mas em menos. Menos performance. Menos “heroísmo” obrigatório. Menos máscaras confundidas com identidade.

Porque no fim, o que muitas mulheres desejam não é mais Carnaval. É mais verdade. Mesmo que isso dê menos aplausos.

– A minha crónica de Fevereiro para a está disponível online aqui, na sua versão aberta e integral.👉 https://www.luxwoman.pt/nao-e-carnaval-todos-os-dias-mas-quase/

Há uma máscara silenciosa que nos atravessa o ano inteiro — e não, não é a do Carnaval. É a das mulheres que aprenderam ...
17/02/2026

Há uma máscara silenciosa que nos atravessa o ano inteiro — e não, não é a do Carnaval. É a das mulheres que aprenderam a funcionar "impecavelmente" enquanto se desligam de si. Quantas de nós chamamos identidade àquilo que foi, na verdade, adaptação? Quantas confundimos força com stress resistência crónica, competência com auto-abandono, maturidade com repressão emocional?

Entre a “boa menina”, a “mulher que aguenta tudo” e a “superfuncional que nunca falha”, construiu-se uma estética de exaustão socialmente normalizaada e premiada. Não são disfarces caricatos; são máscaras elegantes, ef**azes, aplaudidas — e por isso mesmo difíceis de reconhecer. O problema não é usá-las. O problema é já não saber viver sem elas.

Nesta crónica que escrevi para a Revista LuxWoman, o Carnaval surge então como metáfora cruel: autorizamo-nos a representar por uns dias, quando passamos o resto do ano inteiro em performance contínua. E se o excesso, o ruído e a festa forem apenas outra forma de não escutar o que dói? E se a armadura que protege também impedir o movimento, o descanso, a dança?

O Carnaval, nesse sentido, é um símbolo perfeito da mulher-performance. Da exaustão de sustentar versões de si. Do cansaço profundo de nunca poder sair da "personagem", baixar o papel. Há um momento — inevitável — em que a personagem falha. Em que a energia não chega. Em que a máscara pesa mais do que protege. E é aí que surge a pergunta mais difícil, porque não admite resposta ensaiada: quem é você quando ninguém está a ver? Quem somos nós quando não estamos a ser úteis, desejáveis, competentes ou fortes?

Esta é uma reflexão sobre autenticidade sem romantismos, sobre sobrevivência psíquica no feminino e sobre a pergunta que f**a quando o aplauso termina: quem somos nós quando já não precisamos provar nada? Talvez a verdadeira liberdade não esteja em vestir outro disfarce — mas em ousar, finalmente, despir alguns.

— A minha crónica deste mês – "Não é Carnaval todos os dias — mas quase" – está publicada na edição de Fevereiro da , nas bancas.

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Janeiro terminou é se há mês onde as nossas ilusões florescem com mais arrogância é este. O calendário vira e nós achamo...
03/02/2026

Janeiro terminou é se há mês onde as nossas ilusões florescem com mais arrogância é este. O calendário vira e nós achamos que o universo virou connosco. Como se a simples troca de número tivesse o poder místico de endireitar tudo o que nos dói. Dezembro cansa-nos; Janeiro promete. E então voltamos a cair na mesma armadilha: a felicidade como consequência, nunca como prática. A alegria como destino, nunca como caminho. A vida como um “ainda não”, mesmo quando tudo em nós implora por um “já”.

Há uma crença silenciosa, quase universal entre as mulheres, que raramente admitimos em voz alta: a ideia de que a nossa felicidade vive sempre num ponto imaginário do futuro. “Vou ser feliz quando…” — e depois preenchemos o vazio com o capricho emocional do dia. Quando perder peso, quando mudar de emprego, quando finalmente descansar, quando encontrar alguém, quando deixar alguém, quando tudo fizer sentido, quando ele mudar a sua natureza, quando eu mudar a minha história. É um mantra sofisticado de auto-adiamento, uma espécie de contrato espiritual que nunca assinámos mas seguimos com a devoção de quem tem medo de falhar o próprio destino.

O mais perverso — e também o mais humano — é que a felicidade-condicional é, psicologicamente, uma forma elegante de auto-abandono. Quando digo “só serei feliz quando…”, estou a admitir que não me autorizo a sê-lo agora; que ainda não me tornei suficientemente merecedora, competente, magra, resolvida, sábia, organizada, curada, alinhada, santa. A mulher f**a sempre aquém de si. Sempre em esforço. Sempre em dívida. E em dúvida, claro está.

A felicidade não é uma recompensa. Não é um troféu entregue no fim da maratona emocional. A felicidade é o que conseguimos viver no intervalo entre um caos e outro. É a coragem de existir mesmo quando tudo não está perfeito. É o direito de sentir prazer sem pedir desculpa. É a humildade de ser humana e não uma máquina de resultados.

A vida não começa depois. Não começa quando. Começa agora — sempre agora — no momento em que paramos de negociar connosco e começamos, finalmente, a regressar a nós.
E se há revolução maior do que uma mulher que volta (e se volta, oh revolta!) a si mesma, eu ainda não a encontrei.

– A minha crónica de Janeiro para a está disponível online aqui, na sua versão aberta e integral.👉 https://www.luxwoman.pt/a-armadilha-do-vou-ser-feliz-quando

Janeiro é o mês onde as nossas ilusões florescem com mais arrogância. O calendário vira e nós achamos que o universo vir...
17/01/2026

Janeiro é o mês onde as nossas ilusões florescem com mais arrogância. O calendário vira e nós achamos que o universo virou connosco. Como se a simples troca de número tivesse o poder místico de endireitar tudo o que nos dói. Dezembro cansa-nos; Janeiro promete. E então voltamos a cair na mesma armadilha: a felicidade como consequência, nunca como prática. A alegria como destino, nunca como caminho. A vida como um “ainda não”, mesmo quando tudo em nós implora por um “já”.

Há uma crença silenciosa, quase universal entre as mulheres, que raramente admitimos em voz alta: a ideia de que a nossa felicidade vive sempre num ponto imaginário do futuro. “Vou ser feliz quando…” — e depois preenchemos o vazio com o capricho emocional do dia. Quando perder peso, quando mudar de emprego, quando finalmente descansar, quando encontrar alguém, quando deixar alguém, quando tudo fizer sentido, quando ele mudar a sua natureza, quando eu mudar a minha história. É um mantra sofisticado de auto-adiamento, uma espécie de contrato espiritual que nunca assinámos mas seguimos com a devoção de quem tem medo de falhar o próprio destino.

O mais perverso — e também o mais humano — é que a felicidade-condicional é, psicologicamente, uma forma elegante de auto-abandono. Quando digo “só serei feliz quando…”, estou a admitir que não me autorizo a sê-lo agora; que ainda não me tornei suficientemente merecedora, competente, magra, resolvida, sábia, organizada, curada, alinhada, santa. A mulher f**a sempre aquém de si. Sempre em esforço. Sempre em dívida. E em dúvida, claro está.

A felicidade não é uma recompensa. Não é um troféu entregue no fim da maratona emocional. A felicidade é o que conseguimos viver no intervalo entre um caos e outro. É a coragem de existir mesmo quando tudo não está perfeito. É o direito de sentir prazer sem pedir desculpa. É a humildade de ser humana e não uma máquina de resultados.

A vida não começa depois. Não começa quando. Começa agora — sempre agora — no momento em que paramos de negociar connosco e começamos, finalmente, a regressar a nós.
E se há revolução maior do que uma mulher que volta (e se volta, oh revolta!) a si mesma, eu ainda não a encontrei.

— A minha crónica deste mês – "A Armadilha do “Vou Ser Feliz Quando…"" – está publicada na edição de Janeiro da Revista LuxWoman , nas bancas

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Crescer não é suave. Crescer também inflama. Em algum ponto do caminho, a nossa expansão vai incomodar — não porque nos ...
08/01/2026

Crescer não é suave. Crescer também inflama. Em algum ponto do caminho, a nossa expansão vai incomodar — não porque nos tornámos cruéis, distantes ou ingratas, mas porque deixámos de caber. Deixámos de ser moldáveis. Deixámos de encolher para regular as inseguranças emocionais dos outros. Há quem confunda amor com conforto, há quem só saiba gostar de si quando você é dócil, previsível, manejável, quando é a presença que acalma, que não exige, que não confronta, quando é silêncio disfarçado de virtude.

Durante muito tempo, tornei-me muito boa nisso: a enxugar lágrimas alheias enquanto as minhas nem chegavam a escorrer, sorrir quando queria chorar, calar quando precisava refutar, a respirar fundo quando era arrastada em confusões que não criei, parecer ponderada enquanto implodia em silêncio. Que alguém se interessasse por mim de verdade, perguntando como eu (realmente) estava, era raridade estelar.

Eu quase adoeci da minha docilidade. Da minha natural espontaneidade, da minha sucessória lisura. E descobri — a muito custo — que o verdadeiro equilíbrio é o que permite sentir tudo: o amor e o desamor, o perdão e o limite, a benquerença e o desalento, o afecto e a raiva.

Somos valorizadas pelo quanto aguentamos, pelo quanto absorvemos, pelo quanto suavizamos o mundo à nossa volta. Chamaram a isso maturidade, mas era anestesia. Até que a raiva acorda. A raiva não chega como explosão, chega como lucidez, como um fogo antigo que sobe pelo corpo e diz: isto não é justo, isto não é amor, isto faz doer. E quando a nossa voz ganha peso, quando o seu “não” deixa de pedir desculpa, quando o seu limite deixa de ser negociável, o mundo responde com estranheza: “andas nervosa”, “estás agressiva”, como se crescer fosse uma afronta, como se a raiva sinalizadora de desequilíbrios fosse um erro — e não um alarme.

Mas quem se incomoda com a sua verdade não está a perdê-la, está apenas a perder controlo, está a perder a versão de si que engolia, que carregava o desconforto alheio na próprio alma. A sua raiva não destrói, ela reorganiza, ela rasga o que estava apertado, ela devolve forma ao que foi comprimido. Tornar-se inteira implica desagradar, implica sair do papel de “fácil”, implica aceitar que nem todos suportam a sua força quando ela deixa de servir apenas para convir aos outros.

Há quem prefira a sua mansidão, há quem tema a sua clareza, porque uma mulher em contacto com a própria raiva não é tão manipulável ou controlável: ela vê, ela nomeia, ela não aceita migalhas como banquete. Maturidade não é agradar, é sustentar-se, é habitar o próprio corpo, o próprio coração sem pedir licença, mesmo que isso provoque desconforto ou frustre expectativas. É ser honesto consigo, com os outros e com a Vida. E isso inevitavelmente perturba quem preferia que continuasse pequena, dócil e previsível.

Nesta crónica que escrevi para a Revista LuxWoman escrevo sobre mim, sobre si, sobre todas nós e mostro-lhe como a raiva não é destruição. Destruidor é o abandono de nós mesmas, quando ignoramos o que ela tenta iluminar.

– A minha crónica de Dezembro para a está disponível online aqui, na sua versão aberta e integral.👉 https://www.luxwoman.pt/a-raiva-e-uma-oracao-e-eu-aprendi-a-reza-la-em-voz-alta/

Quando era mais nova, disseram-me que tinha “proa”, que sentia e falava “demais”. Que devia ter mais “jeitinho” nas pala...
12/12/2025

Quando era mais nova, disseram-me que tinha “proa”, que sentia e falava “demais”. Que devia ter mais “jeitinho” nas palavras. Que as pessoas gostavam mais de quem “fiava (ou melhor, piava?) mais fino”. E eu, ingénua e educadinha e sempre muito atenta às dores e aos quereres dos outros, fui acreditando. Fui limando as arestas, domesticando o tom, anestesiando o corpo. Fui deixando de falar. E quanto menos falava, mais me afastava de mim.

E eu fiquei muito boa nisso: a enxugar lágrimas alheias enquanto as minhas nem chegavam a escorrer, sorrir quando queria chorar, calar quando precisava refutar, sair quando precisei proteger-me, respirar fundo quando era arrastada em confusões que não criei, parecer ponderada enquanto implodia em silêncio. Que alguém se interessasse por mim de verdade, perguntando como eu (realmente) estava, era raridade estelar.

E durante anos — no palco doméstico onde tive de ser sempre “madura” e aprendi a não incomodar — fui a boazinha, a pacif**adora, a menina sempre alegre e sorridente, um ponto de luz e calor, a alma da casa. Tudo isso enquanto enterrava velhas dores que só um parto e o (re)nascer para a maternidade haveriam de trazer à tona.

Até que um dia percebi que não era eu que “andava nervosa”. Era o mundo daqueles que tinham aprendido a chamar “desequilíbrio” à raiva feminina.

Conveniente, não? Porque uma mulher com raiva é “perigosa”. E não porque vá partir alguma coisa — mas porque começa a ver as coisas com clareza. Porque reconhece, nomeia e denuncia as agressões. Porque confronta, enfrenta, faz frente ao que não é tão lindo e maravilhoso assim. Fomos ensinadas a achar que o limite é feio. Que o amor é aceitar tudo.

Não, nem toda emoção calada é um erro. Algumas são lampejos da alma, sussurros antigos que procuram um idioma para existir. A raiva, quando é trancada, transforma-se em culpa; e a culpa, acumulada como neve no coração: pesa até adoecer a carne.

Nesta crónica que escrevi para a Revista LuxWoman, escrevo sobre mim, sobre si, sobre todas nós e mostro-lhe como a raiva não é destruição. Destruidor é o abandono de nós mesmas, quando ignoramos o que ela tenta iluminar.

Muitas mulheres de espírito terno confundem paz com renúncia, mansidão com desaparecimento.

Mas a força e a fé que sustentam a vida acolhem todas as expressões da alma — inclusive a raiva, que tantas vezes pode ser apenas um caminho para a verdade.

— A minha crónica deste mês – "A raiva é uma oração (e eu aprendi a rezá-la em voz alta)" – está publicada na edição de Dezembro da , nas bancas.

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Hoje a minha pergunta para si é a seguinte: de quem está à espera para se autorizar a viver o que é seu? Será do marido,...
01/12/2025

Hoje a minha pergunta para si é a seguinte: de quem está à espera para se autorizar a viver o que é seu? Será do marido, da mãe, do pai, do chefe, do olhar de uma amiga, da vizinha, de quem nem sequer (a) conhece? A verdade nua e crua é que ninguém vem. Ninguém vai bater-lhe à porta com um decreto oficial a dizer: “Autorizo esta mulher a viver a sua vida em pleno.” Essa assinatura é você que tem de firmar, e se não a fizer, é certo que viverá para sempre como arrumadora de gavetas da vida dos outros.

Sabe que viver à espera de autorização tem um preço devastador? Rouba-lhe a vida. Mantém-na sempre em modo esboço do que viria a ser, numa sentença eterna pela vida não vivida, como figurante no seu próprio palco da sua própria vida. Fá-la acreditar que um dia — quando os filhos crescerem, quando o trabalho acalmar, quando finalmente alguém disser que já merece — poderá viver de verdade. É ver a vida verdadeira passar como os navios, enquanto se faz fila para um carimbo que nunca chega. Mas esse dia nunca chegará, minha querida. Porque a única assinatura que falta no papel é a sua.

Mas talvez esteja a pensar: “Está bem, mas como é que eu, depois de anos a fio de condicionamento, consigo de repente começar a dar-me essa tal autorização?” A resposta é simples, mas dura ao mesmo tempo. Sozinha, até consegue dar alguns passos, mas há padrões que estão cravados fundo demais, como tatuagens emocionais feitas na pele da alma. É aí que entra o apoio psicológico. A terapia é esse espelho sem filtro. Um lugar raro, e seguro por excelência, onde deixa de ser avaliada pela performance, pelo serviço, pelo papel que representa. É um espaço onde não tem de pedir licença para existir — e só isso já é suficientemente transformador. Um bom processo terapêutico é como segurar um espelho, mas não um daqueles espelhos distorcidos que a sociedade lhe tem oferecido. É um espelho nítido, onde se vê que é para além das máscaras e dos gestos automatizados.

Ninguém lhe vai dar autorização para viver em pleno. A assinatura que falta é a sua — e talvez a terapia seja a caneta.

– A minha crónica de Novembro para a Revista LuxWoman está disponível online aqui, na sua versão aberta e integral. 👉 https://www.luxwoman.pt/de-quem-esta-a-espera-para-se-autorizar-a-viver-o-que-e-seu/

Quem lhe disse que precisava de autorização? Quem foi a primeira pessoa a convencê-la de que, para ser quem é, tinha de ...
14/11/2025

Quem lhe disse que precisava de autorização? Quem foi a primeira pessoa a convencê-la de que, para ser quem é, tinha de pedir licença?

A verdade é esta: crescemos treinadas para servir abnegadamente. Não é exagero, é programação de fábrica. Aprendemos que o amor se mede pela renúncia. E internalizámos tão bem a lição que passámos a viver como candidatas permanentes a aprovação — como se houvesse um balcão imaginário onde se emitem licenças de viver. Licença para descansar. Licença para dizer "não". Licença para brilhar sem culpa. Licença para respirar. Só que esse balcão, claro, está sempre fechado.

No outro dia, depois do jantar, levantei-me da mesa já cansada. O meu corpo gritava para desabar no sofá, estender as pernas, deixar a digestão, a natureza e o silêncio fazerem o seu trabalho. Mas o que é que fiz? Fui direita à cozinha, comecei a arrumar pratos, a limpar bancadas, como se a ordem das coisas fosse mais urgente do que a minha própria ordem interna. Não havia ninguém a mandar-me fazê-lo. Era eu, voluntária e cúmplice, a repetir um automatismo aprendido: primeiro os outros, as coisas e depois — talvez, quem sabe — depois eu... No fundo, estava à espera de uma autorização fantasma. E a pergunta ecoou: de quem estou eu à espera para simplesmente — qual Padeira de Aljubarrota —arremessar o meu corpo, pá-para-toda-a-obra, ao sofá?

E não é só comigo, ou não é só na cozinha. É no trabalho, quando aceita infindas tarefas que não lhe cabem só para não parecer “difícil”. É no corpo, quando come o que sobrou em vez daquilo que realmente desejava. É no comboio, quando se encolhe no assento para não ocupar demasiado espaço. A vida inteira está cheia destes pequenos gestos de auto-anulação, tão normalizados que já nem reparamos.

Só que viver à espera de autorização tem um preço devastador. Rouba-lhe a vida.

E o corpo sabe disso melhor do que a cabeça: enquanto espera pela aprovação alheia, o corpo fecha-se, o maxilar trava, a respiração encurta. É a fisiologia da submissão. Mas quando ousa autorizar-se a agir, mesmo que em pequenos gestos, o corpo floresce: os ombros soltam-se, a respiração desce até ao fundo, e a pele parece ganhar mais luz.

Ninguém lhe vai dar autorização para viver em pleno. A assinatura que falta é a sua — e talvez a terapia seja a caneta.

— A minha crónica deste mês – "De quem está à espera para se autorizar a viver o que é seu?" – está publicada na edição de Novembro da Revista LuxWoman, nas bancas.

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Enquanto homens medíocres se acham semi-deuses, as mulheres lidam com a síndrome da impostora e a dúvida constante. Aute...
06/11/2025

Enquanto homens medíocres se acham semi-deuses, as mulheres lidam com a síndrome da impostora e a dúvida constante. Autenticidade feminina não é vaidade: é resistência, revolução e reconexão com quem realmente somos. Enquanto isso, nalgum bar qualquer perto de si, um homem pífio ergue o copo de cerveja como se fosse o cálice sagrado do Olimpo e sente-se um autêntico semi-deus.

Num escritório típico isso é muito comum: a mulher com mestrado, pós-graduação, horas incontáveis de estudo, ainda hesita antes de dar a sua opinião; já o colega que mal leu o briefing fala com a convicção de quem anuncia as tábuas de Moisés. Nas relações, repete-se: as mulheres fazem malabarismos emocionais e logísticos para manter a casa em pé, mas duvidam do seu valor; já os homens esquecem garbosamente todos os aniversários e ainda exigem aplausos. É a auto-estima inflacionada como moeda cultural.

Esta pedagogia da insuficiência não é acidental — é rentável. A indústria da moda, da cosmética, do fitness, até da espiritualidade de Instagram, cresce na medida em que nós diminuímos. A lógica é simples: mulheres inseguras consomem mais.

Mas a coisa não se f**a por aí. Marilyn Frye captou com precisão até onde vai o taco a taco do mano a mano, revelando como os homens reservam para si uma devoção que nunca oferecem às mulheres. Refere que “A cultura heterossexual masculina é homoafectiva, ela cultiva o amor pelos homens.” A admiração, a veneração, a verdadeira lealdade são quase sempre reservadas a outros homens. Eles erguem-se em pedestais mútuos — no desporto, na política, na academia, até nos podcasts de masculinidade tóxica que infestam a tão “recente” manosfera. E as mulheres? Para elas resta a função de servas emocionais, se***is, devotas. A nós, oferecem patetice e paternalismo; a eles, o altar da reverência.

Às mulheres, desde pequenas, ensinam-se as micromensagens: “não fales alto”, “não te exibas”, “não sejas convencida”. Crescemos a pedir desculpa por existir. Já os meninos aprendem cedo a expandir-se: “mostra o que sabes”, “impõe-te”, “manda / controla / domina / agride”. Quando adultos, nós internalizamos a dúvida de sermos “sujeitos”; eles, a certeza de serem a medida de todas as coisas.

E se este vazio que atravessa tanta gente não for um problema individual, mas o sintoma de uma engrenagem maior? Burnout, depressão, ansiedade, consumo compulsivo?

Ser autêntica não é auto-ajuda fofinha. Não é, portanto, “aceitar-se” ao bom e velho estilo motivacional da internet. É vandalismo existencial. É o contrário do que esperam de nós. É dizer basta ao encolhimento, ao pedido de desculpa por existir, à ideia de que só seremos “aceitáveis” se encaixarmos num molde feito por outros. Autenticidade é recusar a domesticação. É reivindicar a diferença como potência.

– A minha crónica de Outubro para a Revista LuxWoman está disponível online aqui, na sua versão aberta e integral. 👉 https://www.luxwoman.pt/como-ser-autentica-num-mundo-que-lucra-com-a-nossa-inseguranca/

Vivemos numa cultura que nos ensina cedo que nunca estamos prontas. A mulher é treinada a olhar-se ao espelho não para s...
10/10/2025

Vivemos numa cultura que nos ensina cedo que nunca estamos prontas. A mulher é treinada a olhar-se ao espelho não para se reconhecer, mas para se vigiar. Esta pedagogia da insuficiência não é acidental — é rentável. A indústria da moda, da cosmética, do fitness, até da espiritualidade de Instagram, cresce na medida em que nós diminuímos. A lógica é simples: mulheres inseguras consomem mais.

Enquanto isso, nalgum bar qualquer perto de si, um homem pífio ergue o copo de cerveja como se fosse o cálice sagrado do Olimpo e sente-se um autêntico semi-deus. Simone de Beauvoir não exagerou: “O machismo faz com que o mais medíocre dos homens se sinta um semi-deus diante de uma mulher.” Se tem uma opinião, já é tese. Se tem um emprego, já é herói. Se é pai e muda uma fralda, ui, já tem poderes sobrenaturais.

Mas ora aqui está a ironia cruel: enquanto sentimo-nos sempre a menos, eles sentem-se sempre a mais. O velho contraste, tão bem explanado pela psicanálise, sobre “eles sobram, nós faltamos”. É o que alguns estudos de psicologia social chamam de “overconfidence effect” — a tendência masculina de superestimar as próprias capacidades, mesmo sem lastro de competência. Enquanto isso, nós tropeçamos na chamada síndrome da impostora: mulheres brilhantes, hiperqualif**adas, que questionam a toda a hora se merecem sentar-se à mesa, como se o convite tivesse sido um erro administrativo.

E se este vazio que atravessa tanta gente não for um problema individual, mas o sintoma de uma engrenagem maior?

Se o mundo nos quer inseguras e culpadas, a psicoterapia pode ser o lugar onde reaprendemos a ser sujeitos — não objectos. É onde desmontamos a herança cultural da culpa e reconstruímos uma narrativa própria. Trabalhar a auto-estima em psicoterapia não é vaidade: é resistência. Num mundo que lucra com a nossa baixa auto-imagem, aprender a gostar de si é quase um acto de sabotagem económica.

A psicoterapia ajuda-nos a reconhecer os padrões que internalizámos: a exigência desmedida, a auto-crítica corrosiva, a eterna sensação de insuficiência. Ajuda-nos a distinguir a voz própria das vozes impostas. É, em termos psicológicos, um processo de individuação; em termos políticos, um acto de desobediência civil. Porque uma mulher que sabe o seu valor é menos controlável, menos manipulável e menos consumidora compulsiva de “soluções mágicas”.

Nesta crónica que escrevi para a Revista LuxWoman mostro-lhe de que forma ser autêntica, neste mundo, é recusar a lógica de que estamos sempre em falta. É lembrar que somos abundância fecunda, transbordo, sobejo.

O mundo prefere homens pseudo-confiantes a mulheres autênticas porque aqueles mantêm as estruturas intactas, enquanto mulheres autênticas abalam os alicerces. E é por isso que cada passo em direcção ao amor-próprio é um passo mais do que assertivo. É insubmisso.

— A minha crónica deste mês – "Como ser autêntica num mundo que lucra com a nossa insegurança" – está publicada na edição de Outubro da , nas bancas.

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