01/04/2026
Há uma liberdade nova, é verdade. E ela convive com vozes antigas que não se calam assim tão facilmente. Muitas mulheres vivem hoje numa espécie de dupla cidadania psíquica: por fora, independentes, competentes, informadas; por dentro, ainda habitadas por culpas, medos e lealdades invisíveis a um sistema que as ensinou a não incomodar, a não pedir demais, a não ocupar demasiado espaço.
Romper com tudo isto não é simples nem romântico. A liberdade feminina não é confortável — e talvez por isso seja tão ameaçadora. Implica perder aprovação. Desiludir expectativas. Revisitar histórias antigas. Olhar para as mulheres que vieram antes de nós — mães, avós — e reconhecer nelas não só modelos, mas também sobreviventes de um mundo que lhes pediu silêncio e auto-alienação.
Aqui, o trabalho psicoterapêutico pode ser profundamente transformador. Não porque “conserta” as mulheres — mas porque lhes devolve espaço interno. Em terapia, muitas mulheres começam por objectivos aparentemente simples: reduzir ansiedade, dormir melhor, melhorar relações. Com o tempo, surgem metas mais profundas: aprender a colocar limites sem culpa, reconhecer e validar emoções, recuperar o contacto com o corpo, integrar raiva de forma saudável, construir escolhas alinhadas com valores próprios — e não apenas com expectativas externas.
Ser mulher hoje é aprender a desobedecer sem se perder. A criar novas formas de existir que não passem nem pela submissão nem pela imitação de modelos masculinos igualmente exaustos. Não queremos igualdade se isso signif**ar apenas viver como homens cansados num sistema que adoece toda a gente. Repito: toda a gente!
O feminino não é fraco — foi “só” enfraquecido. E talvez esteja na hora de o recuperar sem o romantizar, sem o enrijecer, sem o tornar mais uma performance.
Afinal, quando foi que aprendemos a achar normal o que sempre doeu?
– A minha crónica de Março para a está disponível online aqui 👉 https://www.luxwoman.pt/o-problema-nao-e-sermos-mulheres-e-o-que-fizeram-disso