07/03/2026
O Carnaval é uma metáfora perfeita da mulher-performance. Da exaustão de sustentar versões de si. Do cansaço profundo de nunca poder baixar o papel. Há um momento — inevitável — em que a personagem falha. Em que a energia não chega. Em que a máscara pesa mais do que protege. E é aí que surge a pergunta mais difícil, porque não admite resposta ensaiada: quem és tu quando ninguém está a ver? Quem és tu quando não estás a ser útil, desejável, competente ou forte?
Há mulheres que não usam máscara. Usam armadura. Uma armadura construída à base de hiperresponsabilidade, controlo, autonomia levada ao limite. Muitas vezes é trauma bem gerido — ou assim parece. A armadura protege, sem dúvida. Mas também pesa. E quase nunca permite dançar. Para essas mulheres, o Carnaval não é libertação: é ameaça. Porque baixar a guarda, mesmo por uma noite, pode parecer perigoso demais.
Há quem nunca tenha tido o luxo de se despir simbolicamente.
Talvez, então, o verdadeiro desafio não seja tirar a máscara no Carnaval. Talvez seja perceber por que razão ela continua a ser tão necessária no resto do ano. Talvez a pergunta não seja “quem quero ser na festa?”, mas “quem estou autorizada a ser na vida?”. E talvez a revolução feminina mais profunda não esteja em mais disfarces, mais excessos ou mais personagens — mas em menos. Menos performance. Menos “heroísmo” obrigatório. Menos máscaras confundidas com identidade.
Porque no fim, o que muitas mulheres desejam não é mais Carnaval. É mais verdade. Mesmo que isso dê menos aplausos.
– A minha crónica de Fevereiro para a está disponível online aqui, na sua versão aberta e integral.👉 https://www.luxwoman.pt/nao-e-carnaval-todos-os-dias-mas-quase/