11/02/2026
Raiou o dia de São Valentim; de pé todos estão. Para ser vossa Valentina, irei pôr-me à janela, então. Hamlet - Acto 4, Cena 5
O Outro ainda existe?Quando é que o Outro perdeu a existência?O Outro alguma vez existiu? Ou somos só nós num jogo de cenários e máscaras internas de fortes idealizações e desidealizações para satisfazer muitas vezes não só o nosso desejo infantil mas também o desejo dos outros. No meio destas lutas e destas poeiras onde é que f**amos nós, onde é que f**a o amor, onde é que f**a a relação, onde é que f**a o Outro? O Outro, hoje em dia, e o Eu são construtos muito oprimidos pelo contexto social, pelo contexto de ter o peso certo, a altura certa, a roupa certa, os ténis certos, o penteado certo, etc... Sente-se a aflição dos jovens para tentarem satisfazer tantos desejos que tomam como seus avaliando-se num espelho que do Eu nada devolve, "por trás do espelho quem está" ? Aquele sou ou é o meu ideal, ou é a parte fraca de mim, quem é que eu vejo? E quando eu olho para sombra? Que luz me chega desta sombra? Quantos Eus esquecidos habitam esta sombra?É necessário entrarmos no espelho como a Alice(1) mas desta vez para nos salvarmos, cada um tem que entrar no seu e salvar-se, não fiquem à espera que os outros entrem no vosso espelho. Conheçam as vossas fantasias, as vossas frustrações, os vossos sonhos, os vossos medos, as vossas esperanças, encontrem o vosso caminho perdido da infância, não tenham medo de se perderem nele. É sempre preciso perdermo-nos em nós para depois nos encontrarmos mais fortes e seguros. Dessa busca sairemos certamente mais fortes e menos dependentes dos outros e do peso do socialmente exigido. Se não fizermos esse caminho interno à procura de nós próprios, de quem somos, o que queremos, para onde vamos e como é que nos damos ao outro , como é que amamos os outros, como é que nos amamos a nós próprios, f**a um vazio, esse vazio é não raras vezes preenchido pelas dependências, pela dependência do Outro, da relação, de substâncias e da necessidade de controlo.
Namorem muito mas sobretudo enamorem-se de vós mesmos.
Dr. Paulo Nuno Pereira
(1) Referência ao livro "Alice do Outro lado do Espelho"; Lewis Carroll