16/02/2026
Eu estava sentada no sofá, vendo TV, e meu peito parecia uma bateria de escola de samba.
Depois vieram os tremores. Mãos suando frio. Insônia. E uma fome de leão, mas eu emagrecia. Perdi 6 quilos em um mês comendo como um pedreiro.
Fui no endocrinologista. Exames de sangue. TSH zerado. T4 nas alturas.
Diagnóstico: Hipertireoidismo. Minha glândula estava trabalhando por dez.
— Doutora, eu sempre fui saudável. O que causou isso?
— Pode ser autoimune. Doença de Graves. Estresse. Genética. Vamos entrar com Tapazol e betabloqueador para o coração não pifar.
Comecei o tratamento. Remédios em horários rígidos. Exames mensais.
Melhorou? Os exames, sim. Eu, não.
Eu continuava uma pilha de nervos. Irritada. Intolerante. Se meu marido demorasse dois segundos pra responder, eu explodia. Se meus filhos deixassem um copo na pia, eu gritava.
Eu fazia mil coisas ao mesmo tempo. Começava a lavar a louça, parava pra estender roupa, largava a roupa pra responder e-mail. Uma agitação interna que não passava nem dormindo.
E, no fundo, uma tristeza profunda. Uma sensação de que eu fazia TUDO por TODOS, e ninguém me dava valor.
Voltei na médica. Ajuste de dose.
— Se não estabilizar, Clara, vamos ter que fazer iodoterapia radioativa. Ou cirurgia pra tirar a tireoide.
Saí de lá chorando. Cirurgia? Eu só tenho 34 anos.
Até que encontrei uma tia, a Tia Leninha, num café. Ela me viu tremendo pra segurar a xícara.
— Clara, você tá vibrando igual corda de violão. Já tentou entender o que a sua garganta tá querendo dizer?
— Tia, é hormonal. Minha tireoide enlouqueceu.
— A tireoide é a glândula do tempo. E da comunicação. Mas, metafisicamente, ela é a glândula da HUMILHAÇÃO e da REJEIÇÃO. Quem você tá tentando agradar tanto, minha filha, a ponto de se queimar inteira por dentro?
Aquelas palavras me deram um soco no estômago.
Ela me indicou a mesma terapeuta que ela ia. Fui. Sem fé nenhuma, mas fui.
A sala era tranquila. Cheiro de lavanda. A terapeuta, Helena, me ouviu falar atropelado por 20 minutos.
Ela esperou eu parar de respirar e perguntou:
— Clara, você sente que faz tudo sozinha?
— Sinto! Porque se eu não fizer, ninguém faz! Meu marido é lento. Meus colegas de trabalho são devagar. Eu tenho que carregar o mundo nas costas!
— E você espera que eles te aplaudam por isso?
Gelei.
— Eu... eu espero o mínimo de consideração.
Helena me olhou nos olhos:
— O Hipertireoidismo é o grito do corpo de quem busca aprovação o tempo todo. Você acelera o seu metabolismo, "queima" a sua vida, tentando ser útil, tentando ser indispensável. Porque, no fundo, você morre de medo de ser REJEITADA.
— Eu não tenho medo de rejeição... eu só sou eficiente!
— Não, Clara. Você é INTOLERANTE. A metafísica explica: o hipertireoideo oscila. Uma hora quer fazer tudo pelos outros para ser amado. Na outra, odeia todo mundo porque não recebeu o aplauso que achava que merecia. Você se sente excluída, então tenta "comprar" seu lugar sendo a super-heroína.
Meus olhos encheram de lágrimas.
Ela continuou, implacável:
— Você começa dez tarefas e não termina nenhuma, não é?
— É...
— É a pressa de ser vista. É a agitação de quem não se suporta. Você acha que só tem valor pelo que FAZ, não pelo que É. E enquanto você não aprender a se dar valor sozinha, sua tireoide vai continuar gritando, acelerando seu coração até você pifar.
Saí de lá atordoada.
Cheguei em casa. Vi a bagunça na sala. O impulso veio: gritar, catar tudo correndo, reclamar que ninguém me ajuda, fazer o papel de vítima eficiente.
Parei. O coração disparou.
Lembrei da Helena: *"Pare de exigir dos outros o que eles não podem dar. Respeite o ritmo deles. E se respeite."*
Sentei no sofá. No meio da bagunça.
Meu marido chegou:
— Ué, não vai fazer o jantar?
A Clara antiga teria gritado: *"Eu trabalhei o dia todo, você não vê? Eu tenho que fazer tudo!"*
A nova Clara respirou fundo e disse:
— Hoje não. Tô cansada. Se quiser, pede uma pizza.
Ele estranhou. Mas pediu.
Comemos. Ninguém morreu. A casa não caiu.
Comecei um exercício diário. Toda vez que eu ia fazer algo SÓ para agradar ou para depois jogar na cara que fiz, eu PARAVA.
Parei de atropelar as falas das pessoas. Parei de querer que meu marido tivesse a minha velocidade. Aceitei que ele tem o tempo dele.
E o mais difícil: comecei a me olhar no espelho e dizer: *"Eu sou importante mesmo se eu não fizer nada hoje."*
Foi uma desintoxicação. Deixei de ser a "faz-tudo". Deixei tarefas inacabadas sem culpa.
Dois meses depois. Retorno na médica.
— Clara... seu TSH normalizou. E o T4 baixou. Estamos na dose mínima da medicação. O que aconteceu?
Sorri.
— Eu desacelerei, doutora. Parei de correr atrás de aplauso.
Hoje, sigo em remissão. Sem tremores. Sem taquicardia.
A tireoide f**a na garganta. É o portal entre a mente e o corpo. E a minha estava inchada de tanto engolir a sensação de rejeição e cuspir intolerância.
O corpo fala. E o hipertireoidismo diz:
"VOCÊ NÃO PRECISA CORRER PRA MERECER AMOR. NÃO PRECISA FAZER TUDO. NÃO PRECISA SER A MAIS RÁPIDA. SEJA APENAS VOCÊ."
A cura começou quando entendi que a minha "eficiência" era apenas um pedido desesperado de socorro.
Não exija dos outros a sua velocidade. E não exija de si mesma a perfeição.
Se sua tireoide grita, é hora de calar o ego, parar de tentar salvar o mundo e começar a se salvar.
Às vezes, a coisa mais produtiva que você pode fazer é... nada. Apenas ser."