15/02/2026
Texto da nossa psicoterapeuta transpessoal Sandra Gonçalves
NÓS E AS NOTÍCIAS
Como é que alguém que não se quer alienar há-de lidar com a torrente de notícias desinquietantes que nos chegam constantemente? Esta pergunta, que certamente muitos partilham comigo, não tem uma resposta única e tudo o que posso é enunciar sugestões e notas que cada um gerirá à sua maneira, nesta possibilidade que temos de nos lembrarmos uns aos outros dos recursos e equilíbrios disponíveis.
Assim:
- antes de tudo, é fundamental reconhecermos as particularidades do tempo que estamos a atravessar. Provavelmente, ninguém vivo passou por nada semelhante, ainda que individualmente possamos ter experimentado provações maiores;
- por isso, a primeira coisa será evitarmos viver em modo automático, pois as correntes (sociais, emocionais, mediáticas, energéticas..) arrastar-nos-ão;
- neste caso, o oposto de viver em modo automático será a intencionalidade. Sermos, então, intencionais no nosso contacto com as notícias.
- Ou seja, escolhermos o momento, o meio e a duração desse contacto. Quando - em que altura do meu dia - quero consultar as notícias? Como posso salvaguardar o meu espaço e energia pessoais, de modo a manter a sua gestão mais do meu lado do que do dos algoritmos ou media? Um passo será desligar as notificações, de modo a que seja o eu a procurar as notícias e não elas a encontrarem-me. Podendo abrir e fechar a porta da nossa atenção a esses conteúdos, reduzimos a nossa vulnerabilidade a sermos meramente “atingidos” pelas notícias;
- claro que isso não será, num primeiro fácil, já que um estado de maior ansiedade é, igualmente, um estado de maior alerta que tende, portanto a levar-nos a procurar notícias/ indicadores de perigo. Só que facilmente entramos num ciclo que se auto-alimenta. A ansiedade leva-nos a procurar as notícias para nos assegurarmos de que está tudo bem ou de que, no mínimo, conhecemos os perigos. Porém, as notícias tenderão a gerar mais ansiedade e o processo autonomiza-se.
- Além de escolhermos o momento do dia, devemos decidir o tempo de exposição. Quanto tempo quero - escolho - passar a ver notícias? Trata-se de mantermos essas rédeas nas nossas mãos. Tornemos esse contacto intencional - que programa seleccionei?
- Pelos mesmos motivos, quais são as formas e meios pelos quais quero informar-me? Quero ler? Ouvir (audio)? Assistir (video)? E em que plataformas? Em quais preservo maior serenidade e capacidade de reflexão?
- Quais são os meus indicadores pessoais de sobrecarga? Consigo identificar no meu corpo e nas minhas emoções os sinais de que me estou a exceder? Consigo parar? - a dificuldade em fazê-lo indicia exaustão
- Nem todo os momentos são bons para ver “estas” notícias. A nossa instabilidade e ansiedade serão incrementadas se nos expusermos com falta de critério. Será preferível termos respirado, ou de algum modo, enraizado e acalmado previamente o sistema nervoso.
- Consigo viver sem culpa por não me sobrecarregar? Serei capaz de aceitar que, por vezes, a necessidade de nos protegermos e afastarmos não significa insensibilidade mas resulta de excesso de esforço ou mesmo de fadiga empática? Se tiver alguma compaixão para comigo mesma e me permitir esse descanso ou protecção, estarei a cuidar de mim mesma e, ao fazê-lo, a aumentar a capacidade para contribuir de maneiras efectivas e sustentáveis.
- Que ocasiões de auto-cuidado crio? Quando atento nas minhas próprias necessidades?
- Perante este verdadeiro “assalto” de notícias, a reflexão e o sentido são factores de protecção da saúde. Exigem que paremos, reflictamos, conversemos com outros, enquadremos aquilo que se está a passar numa história maior dentro da qual os eventos façam sentido e na qual possamos desempenhar um qualquer papel construtivo - experimentemos propósito. Como posso desacelerar as minhas interpretações automáticas dos eventos? Como posso introduzir nuance na história? Como posso distanciar-me o suficinete para ver a longo prazo? E como posso, desde já, influenciar positivamente as gerações futuras através dos gestos e escolhas que me são acessíveis?
- Passar do abstracto para o concreto e do geral para o local. Quem, nas nossas comunidades necessita de ajuda? Que grupos se estão a organizar? Como podemos pôr as mãos na massa?
- Cultivar o analógico que, neste momento, é quase a realidade alternativa. Vamos recordar-nos com que se parece a vida. Existem flores, terra, paisagens. Existem instrumentos musicais, folhas de papel, barro, lápis coloridos, canetas de caligrafia. Há bicicletas, troninetes, sapatos de caminhada e caiaques. Parques infantis, rodas, canções. Mar, floresta.
- Mudar o ângulo de visão - tomarmos a perspectiva de outro país, outra pessoa, outro século.
- Mudar a função - alternar um funcionamento mais emocional como outro mais racional. Em momentos de serenidade, auscultar a intuição. Perceber o que nos comunica o corpo e mexermo-nos.
- Identifique redes, pessoas, grupos, autores contributivos e sérios. É falso que qualquer olhar positivo esteja enganado ou seja superficial, ou que não se movam, neste momento, forças imensas alinhadas com a vida. Dedique-lhes pelo menos tanto espaço e atenção.
- Contemplar também é uma actividade :-)
- Peça abraços e abrace.
- Cuide bem das suas redes sociais, de amigos, de afectos.
- Pratique boas acções. Mantenha o bem e a beleza presentes na sua vida e nas dos outros.
Em síntese: contribuamos e ajudemos, de facto. Mas evitemos, por todos, tornar-nos um dano colateral.