25/11/2025
Existem vivências que nunca se apagam, porque o corpo não as esquece.
São experiências que ultrapassaram a nossa capacidade de lidar como um acidente, uma perda, ou uma humilhação, e que o sistema nervoso conserva como se ainda estivessem a acontecer.
Nessas situações, a mente faz o que pode para nos proteger, mas o corpo permanece em alerta. E é aqui que o EMDR pode ajudar.
O EMDR, sigla de "Eye Movement Desensitization and Reprocessing", é uma abordagem terapêutica que trabalha com a forma como o cérebro processa a memória emocional. Parte de um princípio simples e profundamente humano: assim como o corpo sabe curar uma ferida física, o cérebro também tem a capacidade natural de curar feridas emocionais. Mas quando a dor é demasiado intensa e o impacto muito grande, esse processo natural f**a bloqueado. A mente continua a tentar avançar, mas o corpo permanece preso ao momento.
Do ponto de vista científico, o EMDR baseia-se no modelo de Processamento Adaptativo de Informação (AIP), que propõe que o cérebro armazena as experiências de forma integrada quando o sistema nervoso está em equilíbrio. No entanto, quando o stress é extremo, a informação emocional é registada de forma fragmentada, permanecendo “presente” em vez de ser arquivada como passado.
Os estímulos bilaterais utilizados no EMDR — movimentos oculares, sons alternados ou toques leves — estimulam o sistema nervoso central, promovendo uma comunicação mais fluida entre os hemisférios cerebrais. Essa ativação sincronizada ajuda a integrar memória, emoção e cognição, reduzindo a intensidade da resposta fisiológica associada ao trauma.
Estudos neurocientíficos mostram que, após o tratamento com EMDR, há uma diminuição signif**ativa da atividade na amígdala (centro do medo) e um aumento na comunicação entre o hipocampo e o córtex pré-frontal, regiões ligadas à regulação emocional e à racionalização da experiência.
O que o EMDR propõe vai além de aliviar sintomas. Ele ajuda a desativar as memórias que f**aram presas e a reconfigurar o modo como são vividas no presente. As imagens tornam-se menos invasivas, o corpo volta a sentir-se seguro e a emoção encontra um espaço mais sereno. É uma forma suave e respeitosa de dar ao cérebro a possibilidade de completar o que ficou por concluir.
O processo segue sempre o ritmo de quem o vive. Não há pressa, nem imposição. O terapeuta acompanha com segurança e presença, criando o espaço necessário para que o sistema nervoso possa reorganizar-se.
O EMDR é, antes de tudo, um gesto de reconciliação entre o corpo, a mente e a história pessoal. Uma forma de dar continuidade à vida, permitindo que aquilo que antes era ferida se transforme em compreensão e sabedoria.