06/02/2024
Tal como referi, irei começar a abordar um tema que já toda a gente ouviu falar e que, de certa forma, o seu conceito está vulgarizado, estou a falar do Trauma.
Não me refiro àquela pancada que damos inadvertidamente e nos causa alguma dor ou incómodo, mas sim àquele acontecimento que ocorreu na nossa vida e, a partir daí, passou a provocar uma alteração no funcionamento psicológico fazendo com que o nosso mundo passe de um lugar seguro, controlável e previsível, para um mundo instável, inseguro e incontrolável.
Ninguém consegue retirar da mente de uma pessoa aquilo que ela viu, sentiu e experimentou. Seja algo que nos aconteceu num momento de felicidade, ou numa situação de abuso, agressão, violação ou outra atrocidade qualquer. O que foi visto, sentido ou experimentado jamais poderá ser desfeito ou, apagado.
Já há muito que a Ciência sabe da existência de um local onde tudo o que acontece na nossa vida f**a registado. Esse local foi designado por Inconsciente.
Todos nós passamos ao longo da nossa vida por experiências traumáticas. Por exemplo, o acto de nascer é um deles. O facto de passarmos de um mundo envolvente e seguro para um mundo onde f**amos desprotegidos e à mercê de outros, representa um trauma embora não damos conta disso.
Creio que é fácil agora de ver, que os traumas que mais importam em Terapia são aqueles que, através do seu impacto negativo e nefasto, causam distúrbios emocionais e físicos na vida de uma pessoa.
Geralmente a manifestação dos sintomas podem não estar numa relação directa com o tipo de trauma envolvido. Depende da pessoa e também do apoio emocional que recebe daqueles com quem se relaciona.
Ao longo dos anos e através de estudos e pesquisas, nomeadamente na área da Hipnose Clínica, torna-se evidente que os traumas mais marcantes para a vida de uma pessoa ocorrem geralmente entre a gestação e os 8 anos.
Nestas idades, o Inconsciente na maior parte das vezes, oculta da Mente Consciente o acontecimento traumatizante e é muito vulgar a pessoa poder não se lembrar do que realmente aconteceu anos mais tarde.
No entanto, porque o Inconsciente entra em compulsão repetição, as emoções e sensações sentidas durante o trauma emergem à superfície de tempos a tempos sem que a pessoa entenda o motivo das mesmas. Basta haver” gatilhos” para as despoletarem.
Talvez isto pareça um pouco complexo de compreender, mas com o exemplo que vou dar, as coisas vão poder f**ar mais claras.
Imagine uma criança que está em casa naturalmente e que o pai chega completamente embriagado e começa a agredi-la com violência sem qualquer justif**ação e a falar com ela aos berros e, vamos também supor (para simplif**ar as coisas) que só aconteceu daquela vez.
Das próximas vezes que o pai regressar a casa, a criança ao pressentir que ele está a chegar, vai começar a sentir no corpo e na mente os sintomas que sentiu no momento que o pai a agrediu.
Irá começar a sentir provavelmente angústia, medo, um aperto no peito, tremores e irá por certo refugiar-se num local que lhe dê segurança.
Como anteriormente referi, este foi um acto isolado e com o passar do tempo, a criança vai acabando por votar ao esquecimento o incidente e a vida segue o seu rumo normal.
Com o passar dos anos, ele arranja um emprego onde o chefe dele é uma pessoa que bebe bastante e tem uma postura agressiva para com toda a gente no contexto de trabalho gerando quase sempre um ambiente tenso.
Ele que até gosta daquilo que faz, mas o chefe conflituoso como é, sempre que tem oportunidade implica com ele desvalorizando-o e desvalorizando-o constantemente.
Com o passar do tempo, começa a não sentir prazer naquilo que faz, ir trabalhar, começa a ser um fardo para ele, por vezes sente uma angústia sem saber de onde vem, quando anda mais nervoso sente umas dores de lado no peito e, quando o chefe implica com ele, sente-se humilhado, sem reacção e confuso e, muitas das vezes com uma sensação de aperto por todo o corpo, até o dia de trabalho acabar.
Em casa não quer falar do trabalho e a tensão com que f**a para reter o que está a causar desconforto interno, provoca-lhe insónias.
Um dia, quando o chefe totalmente alcoolizado começou a falar perto da cara dele aos gritos, ao sentir o cheiro do álcool começou a tremer, uma sensação de medo o invadiu impedindo-o de reagir ou responder ao que quer que fosse. Para além da náusea que sentiu motivada pelo cheiro, sentiu depois uma raiva dele próprio por não conseguir responder e justif**ar-se perante o chefe.
Os colegas diziam-lhe – óh pá, tu não estás a ver que aquilo é só o vinho a falar. Faz como a gente, entra a cem e sai a mil. Tens é de fazer como a gente, responde-lhe que ele cala-se logo.
Mas ele não era capaz…...
Vocês vão-me perdoar a simplicidade e linearidade deste exemplo, mas o que eu queria que entendessem é como um trauma se vai manifestando ao longo do tempo e interferindo negativamente na vida da pessoa.
A pessoa é confrontada com situações parecidas quando da altura do trauma sofrido na infância (chefe alcoólico, falar aos gritos, o cheiro do hálito quando estava a discutir) e as sensações que ela sente no momento presente, são as que sentiu em criança quando estava a ser agredida. No entanto, a pessoa não encontra nenhuma razão ou explicação para se sentir assim, porque o passado, está esquecido ao nível do Consciente.
Aquilo que está entre parêntesis, é aquilo que os profissionais chamam Gatilhos Emocionais pois são eles que accionam os estados emocionais traumáticos.
Ficou claro para vocês porque é que na Hipnose Clínica o ponto mais importante é descobrir o trauma inicial?
Como o texto já vai longo, f**a para o próximo abordar o “Como chegar lá”.
Até breve