11/10/2022
É altura de reclamarmos o direito a estarmos tristes. O direito a estarmos ansiosos. Ou o direito a sermos infelizes. O direito, dependendo dos dias, de vociferar para dentro: “a minha vida é uma porcaria!”. O direito a sentirmo-nos mal amados. O direito a estarmos fartos duma “vidinha” sempre igual. O direito a sentir que há muitas alturas em que o trabalho é só um emprego e nada mais. O direito a achar que as crianças “só” nos azucrinam o juízo e que o queremos mais é tirar férias da gritaria, doutro “já fiz cocó”, ou da forma como elas se intrometem nas conversas dos adultos, nos momentos de mimo dum casal e em coisas assim. É altura de dizermos que os nossos estados de espírito - ora “para cima”, ora “para baixo” - não são um sinal de sermos bipolares, mas a oscilação própria de quem está vivo e que sente as coisas e discorre sobre elas, muito antes de as perceber, por exemplo. E que de cada vez que não pensamos se gera um aperto no coração que, levado ao limite, parece empurrar-nos da ansiedade até ao pânico. Falamos, hoje, mais de saúde mental; que bom! Por tudo e por nada vimos as mais diversas “personalidades públicas” a fazer com que a de saúde mental esteja na moda. Trata-se, agora, de começarmos a praticá-la.
E, no entanto, sim, há doentes mentais. Não serão todos os que consomem os milhões de embalagens de psicofármacos, em Portugal. Uns fazem-no para se aliviarem de muitos mal-estares. Outros, para conseguirem “respirar” e terem um bocadinho de vida. Outros, porque sem isso colapsam. Mas passaremos a ser doentes mentais quando a nossa capacidade de pensar parece não chegar para fazer face a tudo o que temos desarrumado e a vida se torna um chão que nos foge debaixo dos pés.
É, portanto, urgente que a saúde mental deixe de ser uma moda e se transforme num compromisso. Que deixemos essa forma batoteira de acharmos que loucos são os outros. E que assumamos que começamos a resolver a vida quando a pensamos melhor. E, em função disso, pegamos em tudo o que temos de mais ou menos doentio dentro de nós e, passo a passo, vamos no sentido de fazer da saúde mental um apelo sensato de todos os dias. Pensar é, definitivamente, o melhor remédio.