20/12/2025
Há fases de recolhimento que nos convidam a percorrer de fio a pavio algumas camadas da nossa subtileza e profundidade. E, nos silêncios que pedem introspecção, há frases que nos atravessam pela verdade que revelam - “Os pais são ossos onde as crianças afiam os dentes.”.
Esta frase de Peter Ustinov, apareceu-me anteontem e, repentinamente, levou-me a viajar no tempo e a cruzar-me com molduras guardadas nas mais diversas galerias da minha vida.
Os filhos crescem a partir de nós. E crescem em nós. Somos o lugar onde eles experimentam o mundo. Onde testam limites, emoções, medos e forças. Somos o rochedo onde batem as ondas antes de eles aprenderem a navegar sozinhos.
É no nosso amor que eles afiam os dentes. Não para nos ferir, mas para aprender a viver. Seja na forma como reclamam atenção, seja na teimosia e na coragem que descobrem ao desafiar-nos, estão apenas a moldar-se. A encontrar o próprio contorno da alma.
É no nosso colo que ensaiam o que é a confiança. É no nosso olhar que aprendem a pertencer. É na nossa firmeza que descobrem onde acabam eles e começa o outro.
Ser pai ou ser mãe é permitir ser este “osso”. Forte o suficiente para sustentar. Flexível o suficiente para não quebrar. Amoroso o suficiente para não endurecer.
É aceitar que, no processo de crescerem, às vezes doem-nos as marcas, mas que cada marca é, na verdade, o sinal de que fomos casa, porto de abrigo, solo fértil, espelho, chão e caminho.
Um dia, eles já não vão precisar de afiar nada em nós. Terão dentes próprios, prontidão própria, asas próprias. E, nesse dia, talvez sintamos falta do caos, da intensidade, da dependência. Daquele amor primitivo que só existe quando o mundo deles ainda cabe no nosso.
Por isso, hoje a minha reflexão é:
Que privilégio é ser o lugar onde um filho cresce. Que bênção é ser o osso que lhes dá força para morder a vida com coragem. Não o peso, mas a leveza de os impulsionar em cada voo. Tudo um dia passa e, mesmo aquilo que agora desgasta, vai iluminar. Porque a infância, tal como os dentes de leite, não volta, mas pode deixar marcas de Amor.
Agradeço ao Mateus, o meu Filho, que afia em mim, todos os dias, a coragem de também eu ser Mãe.
🫶🏻