02/02/2026
Já escrevi que o medo impera no mundo de hoje. Mas não vem sozinho. A par dele, cresce o narcisismo — essa necessidade de diminuir os outros para sustentar uma sensação frágil de superioridade.
O narcisismo vive da atenção desmesurada, da validação, do olhar do outro. Faz ruído, é egocêntrico, desumaniza.
A história mostra-nos a devastação. Poupo-me de elencar nomes, passados e presentes. Narcisistas que arrastaram (e arrastam) multidões, convencendo-as de que a sua fúria era (é) justa. E vingável.
Penso muitas vezes nisto ao ouvir La Perla, de Rosalía, um retrato cru do narcisismo relacional: a figura encantadora, autoproclamada centro do mundo, irresponsável, exploradora, emocionalmente predadora. Uma “pérola” que brilha, mas em que ninguém confia. E que drena quem cai na armadilha.
O narcisista precisa sempre de alguém que vê como menor para se sentir maior. Vive da energia do outro.
O Antídoto?
Lucidez. Limites. Não entrar no jogo. Não confundir barulho com força, nem exposição com valor. E não entregar a sua própria humanidade a quem vive de desumanizar os outros.
É escolher distância, não se deixar moldar por ele, não lhe conceder palco - o seu maior alimento - e proteger aquilo que, tal como uma pérola verdadeira, não precisa de palco para ter valor.